Ampliar e aprofundar a formação teológica

| 9 Set 21

Estátua representando São Paulo, da autoria do escultor Adamo Tadolini, Basílica de São Pedro, Vaticano: “Quem estiver de boa-fé, não acredita que hoje a Igreja recomende aos casais ou seja a quem for qualquer forma de submissão iníqua.” Foto © AngMoKio / Wikimedia Commons

 

Há dias, um dos temas comentados nas redes sociais foi uma das recomendações de S. Paulo à comunidade cristã de Éfeso em que diz: “As mulheres submetam-se aos maridos» (Carta aos Efésios 5,22). Não é minha intenção entrar na polémica que se tentou gerar, pois as explicações estão dadas por instâncias mais competentes do que eu.

Gostaria de chamar a atenção para duas vertentes que este episódio contém: uma positiva e outra nem tanto. A positiva é que, mesmo percebendo o alcance dos comentários feitos, mesmo por não crentes, muitos estão atentos à Palavra de Deus que em cada domingo é proclamada nas eucaristias. A indiferença seria muito pior. Independentemente das aberrações contidas em alguns comentários, como a de rasgar a página da Bíblia que contém a frase polemizada, é salutar que a Igreja se abra, cada vez mais ao diálogo com este mundo mais secularizado do que secular.

Já o cardeal-patriarca de feliz memória, António Ribeiro, dizia: “A Igreja deve estar em constante diálogo com o mundo. Por um lado, interpelar o mundo, lançando-lhe os desafios radicais do Evangelho. Por outra parte, o mundo também deve interrogar a Igreja. Pôr questões à Igreja, obrigando-a a refletir e procurar na mensagem de Cristo respostas adequadas às novas situações. Não considero isto um mal.”[1]

O que me deixou mais perplexo foi a intervenção de alguns que se diziam católicos. O facto de esses não perceberem o contexto e pretexto da afirmação paulina é que já me parece estranho e preocupante. Para lá de estarmos perante um excerto que os exegetas consideram ser um acrescento pós-paulino, muitos comentários ignoravam o objetivo do texto, não pondo igualmente em relevo o conselho seguinte que S. Paulo dirige aos maridos para que amem as suas mulheres como Cristo ama a Igreja: “Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela.” (Efésios 5,25). Quem ama não subjuga, mas também obedece, quantas vezes anulando a legítima vontade. Quem estiver de boa-fé, não acredita que hoje a Igreja recomende aos casais ou seja a quem for qualquer forma de submissão iníqua.

É verdade que dentro de si mesma o diálogo deveria ter a mesma intensidade que ela recomenda às famílias. O Papa Francisco está a fazer esforços incessantes para que isso aconteça. Exemplo disso é a sua insistência numa Igreja em permanente estado de sinodalidade. Pessoalmente, tenho dúvidas de que se atinja esta meta com a celeridade desejada por Francisco devido a causas entranhadas há séculos na organização da Igreja, como seja – e é o Papa quem o reconhece – o peso e o modo de a hierarquia exercer a autoridade que lhe compete. Mas já não tenho tantas reticências quanto à convicção de que a Igreja ou se organiza como verdadeiro Povo de Deus[2], em que todos os seus membros têm igual importância e direito à decisão ou continuará a não contar com a participação ativa e seriamente comprometida do laicado. Aliás, a mesma poderá tender a decrescer.

Para se assumirem, com verdade, compromissos e responsabilidades não basta fazer o que outros mandam, é preciso envolver-se na reflexão e decisão do que for necessário realizar. Só Cristo tem a primazia sobre tudo o que diga respeito à Igreja não só por ser a sua cabeça, mas por amá-la incondicionalmente (cfr Efésios 5, 23-30). É este o cerne do texto que deu origem a tantos comentários.

A opinião de alguns católicos acerca do texto em discussão revela que ainda muito se tem de fazer pela formação teológica dos leigos, nas diferentes vertentes. Os católicos, mesmo os que se intitulam de praticantes, denotam que a sua prática religiosa se restringe sobretudo à dimensão cultual e sem igual predisposição para a necessária formação que permita, até, compreender o significado dos ritos em que participam.

É imperioso que se encontrem formas criativas de fazer chegar a formação à casa dos católicos e de quem a queira, pois sabemos que, cada vez mais, pelo estilo de vida adotado, há menos tempo para deslocações. Felicito os Centros de Formação Cristã que já utilizam meios informáticos para conseguirem esse objetivo. Também é imperioso que as homilias não se reduzam à repetição do conteúdo das leituras proclamadas, mas à sua explicação, adequadamente, adaptada à vida concreta dos presentes. Assim como deveria haver nas escolas públicas portuguesas, como existe noutros países, uma disciplina que abordasse o fenómeno religioso em geral, para que não proliferasse tanta ignorância sobre a religião.

É óbvio que retirar páginas ou livros à Bíblia não passa de uma proposta aberrante, mas já me parece que era tempo de alterar a narrativa de alguns rituais religiosos sem retirar nada ao teor das fontes bíblicas e do Magistério. Dou apenas um exemplo. Não seria de vincar menos ou mesmo abolir a palavra servo das orações que, hoje, se fazem? A minha preocupação não assenta em complexos de inferioridade perante Deus, pois creio, firmemente, que na relação co-criadora com Ele não passamos de “servos inúteis” (cfr. Evangelho de S. Lucas 17,10), mas numa outra realidade, que julgo mais querida por Deus e que o fez enviar o seu Filho para o meio de nós, que é a de que o aceitemos como o Pai, totalmente Outro, e a Jesus como nosso irmão. Aliás, Ele próprio o disse: “Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu Senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai.” (cfr. Evangelho de S. João 15, 15). Também há que ter a consciência de que muita gente participa em alguns atos de culto por arrasto, com menos condições para entenderem certos termos utilizados na liturgia.

É certo que a Igreja não tem de andar ao ritmo das modas pseudoculturais que têm o seu tempo e se esfumam conforme o nível de protagonismo das correntes ideológicas que as suscitam. Mas não pode assobiar para o lado, enquanto o mundo se vai transformando. A leitura, atenta e persistente, dos sinais de cada tempo é um dever da Igreja se quer ser fiel à sua missão[3]. Quantas vezes não se “aborrece” o Espírito Santo, que dá indicadores claros para a Igreja se assumir mais como locomotiva e ela, por excessiva precaução, prefere ser uma carruagem, em alguns casos, mesmo a última. É preciso abrir-nos e confiarmos mais na ação operante do Espírito Santo.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

 

[1] Cf. José António Santos e Ricardo de Saavedra, D. António Ribeiro- Patriarca de Lisboa, Paulinas Editora, Prior Velho 2021, pg. 137.
[2] Cfr. CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen gentium, Coimbra: Gráfica de Coimbra 2002, 13.
[3] Cfr. CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, Coimbra: Gráfica de Coimbra 2002, 4.

 

Comissão quer “dar voz ao silêncio” das vítimas dos “crimes hediondos” dos abusos do clero

Pedro Strecht apresentou membros

Comissão quer “dar voz ao silêncio” das vítimas dos “crimes hediondos” dos abusos do clero novidade

Daqui a um ano haverá relatório, que pode ser o fim do trabalho ou o início de mais. A comissão para estudar os abusos sexuais do clero português está formada e quer que as vítimas percam o medo, a vergonha e a culpa. Ou seja, que dêem voz ao seu silêncio. Pedro Strecht apresentou razões, o presidente dos bispos disse que não quer mais preconceitos nem encobrimentos, mas “autêntica libertação, autenticidade e dignidade para todos”.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida

Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida novidade

Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada. O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This