Quatro meses depois da morte da ex-directora da Faculdade de Teologia, o 7MARGENS evoca aqui a vida e a personalidade de Ana Maria Jorge, através do olhar e do testemunho de vários amigos e pessoas que com ela trabalharam. Os subtítulos são da responsabilidade da Redação.
Um modo sempre generoso
Desde que tenho consciência de mim que conheço a “Nicha” (era assim que a doutora Ana Jorge era conhecida no Vimeiro, terra onde ambos nascemos e crescemos). Era um ano mais velha que eu. Entre as nossas duas casas havia apenas a igreja e o adro, disponível para jogos e brincadeiras. Um grupo de várias crianças das casas vizinhas – hoje na sua maioria abandonadas – oferecia diariamente alegria infantil a esse espaço: bastava que um andasse por ali, para logo surgirem os demais, com ou sem autorização das mães.
Apesar de ela frequentar a escola primária oficial e eu a escola do jardim infantil da paróquia, a catequese foi, em grande parte, vivida no mesmo grupo. Fizemos a profissão de fé no mesmo dia e também no mesmo dia fomos crismados pelo cardeal António Ribeiro. Éramos os «leitores de serviço» nessas celebrações mais solenes da catequese paroquial.
Olhando para esses tempos de infância e adolescência, e em particular para a figura de Ana Jorge, creio que duas realidades marcaram a sua vida: o ambiente familiar de filha única, com posses acima da média do resto dos habitantes da aldeia, olhada por todos com respeito, e a vida da fé, marcada também pela convivência com o padre Gregório Verdonk e pelas suas obras assistenciais, para as quais ele mobilizava as ofertas de vários fiéis, entre os quais os pais da Ana Jorge – que, por sua vez, mobilizavam muitos outros cristãos. Foi este olhar de fé, para Deus e para o próximo, iniciado no seio de uma pequena comunidade, que depois se alargou, dum modo sempre generoso, no serviço de toda a diocese de Lisboa e mesmo de todo o Portugal, desdobrando-se em actividades pastorais, em testemunho de vida, em estudo da História, particularmente da história da Igreja.
Nuno Brás, bispo do Funchal

Profissão de fé de Ana Maria Jorge (primeira à esquerda, à frente). Nuno Brás, atual bispo do Funchal, é o primeiro, de casaco escuro, atrás das meninas. Foto: Direitos reservados
Coerência até ao fim
Foi um privilégio ter sido vizinha e amiga da Nicha e dos seus pais, no Vimeiro, a nossa terra natal, e depois em Lisboa, já como professora Ana Maria Jorge. A Nicha foi minha catequista durante alguns anos. Vivia numa bonita casa onde um nicho com a imagem de São José testemunhava, a quem passava, a devoção e fé profundas da família.
À semelhança da sagrada família de Nazaré, viveram uma existência discreta e silenciosa, glorificando a Deus através da oração do serviço e da aceitação serena das contrariedades da vida. A oração fazia parte do quotidiano, no oratório que tinham na própria casa, e nunca perdiam a oportunidade de «receber o Jesus» – como dizia a mãe da Nicha – sempre que havia missa durante a semana.
Apesar de uma vida confortável, nunca viveram com excessos, distinguindo-se pela generosidade para com os mais necessitados, que praticavam com toda a discrição e simpatia. Muitos ainda hoje recordam o carinho e a ajuda que receberam.
Foi neste ambiente de fé que a Nicha cresceu. Já em Lisboa permaneceu sempre fiel ao chamamento de Jesus.
O que mais me marcou na Nicha foi a sua coerência até ao fim, o amor profundo a Deus e à Igreja, que se refletia no seu olhar, no seu sorriso, na sua inteligência – dom que sempre soube colocar ao serviço do Senhor –, e a sua generosidade, colocando sempre os outros e a Igreja à frente de si. Mesmo no seu calvário, tantas vezes me dizia: «Diz a todos que não se incomodem, que eu estou bem» e «Diz-lhes que Jesus vos ama muito».
Teresa Azevedo Pereira, catequizanda e amiga de Ana Jorge
“Que bom estares aqui com esse teu sorriso”
Querida Ana,
Sei que os outros amigos, colegas, alunos, dirão o mais importante: o que tu és e fizeste, tanto e tão bem. O teu rasto luminoso e o exemplo que continuará a acompanhar-nos.
E assim posso lembrar-te, simplesmente – e agradecer-te aquilo em que eras o avesso de mim, na tua ponderação e serenidade, na sabedoria profunda e tranquila. Tão diferentes e amigas, talvez nos completássemos.
Que sorte a minha, nas vezes em que repartimos quarto em grandes eventos da Igreja em Fátima ou Roma, quando perguntavas: «Não fica nada esquecido?», com a suspeita (sempre sagaz) de que lá ficaria, no fundo da gaveta, o meu cinto preto de verniz.
(Tínhamos combinado repetir Roma no Jubileu do ano passado, partiste mais cedo para o Jubileu pleno…)
Sim. Que sorte a minha, na última vez em que te visitei e, tomando as minhas mãos, disseste: «Que bom, Ana Lúcia, estares aqui com esse teu sorriso e a tua alegria.»
Vou tentar ser digna deste teu recado, Ana. Porque a alegria é a única coisa que podemos dar mesmo que a não tenhamos. Não é?
Tu, sim, sempre soubeste onde estava a Alegria verdadeira. Aí nos encontraremos… e poderei esquecer-me de tudo no fundo das gavetas. Nada nos faltará.
Ana Lúcia Esteves, licenciada em História e a frequentar mestrado em História e Cultura das Religiões, colega de Ana Jorge na Faculdade de Letras

“A alegria é a única coisa que podemos dar mesmo que a não tenhamos.” Foto: Direitos reservados
O deslumbramento com a beleza da vida comum
Conheci a Ana Jorge em 2001, num processo de discernimento vocacional. E ao longo de 25 anos fizemos caminho juntas numa vocação laical, de mulheres entregues a Deus e à Igreja, mas que vivem no meio do mundo, as Auxiliares do Apostolado.
Da Ana guardo a alegria de cada encontro, muitas vezes à volta de um gelado ou de um chocolate quente, e a capacidade de deslumbramento com a beleza da vida comum. Ver a Deus na vida quotidiana, tantas vezes cheia de tarefas e correrias, é próprio dos puros de coração, que cumprem o Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus.”
Eunice Lourenço, jornalista
A nossa enorme gratidão
Nós fomos colaboradoras muito próximas da professora Ana Jorge na Faculdade de Teologia, assegurando as tarefas de secretariado e comunicação da Faculdade.
O convívio próximo com a professora Ana Jorge foi um privilégio que nos leva a querer testemunhar a nossa enorme gratidão: pelo exemplo de generosidade, abnegação e espírito de missão, que renovava constantemente a crença na bondade humana como força criadora de algo sempre melhor.
Gratidão pelas palavras de alento nos momentos difíceis, pelo sorriso radioso de partilha de felicidade nos momentos bons, pela atenção constante ao bem-estar de todos, pela disponibilidade para ouvir, pelo rigor e sentido de justiça. Pela busca inteligente do que de há de melhor em cada um, para estimular, fazer crescer. E, simplesmente, pelo bom dia alegre com que nos saudava todas as manhãs.
Ana Alva, Ana Paula Graça, Bruno Leal e Maria da Luz Fernandes, colaboradores de Ana Jorge na Faculdade de Teologia
A aventura não termina aqui
Partilhamos o facto de termos começado a nossa vida profissional como docentes da Faculdade de Teologia durante o mandato da professora Ana Jorge (2018-2025) enquanto diretora. A sua humanidade e alegria suavemente contrastavam com um certo formalismo dos meios académicos, onde sabia habitar com dignidade e sabedoria, sem nunca perder a dimensão institucional.
Desde logo presenciámos a proximidade com que nos fazia sentir colegas e não subordinadas, expressa no sorriso nas reuniões, nas palavras de estímulo e na atitude de confiança no trabalho conjunto. Tudo isto concedia à Faculdade um certo sabor a casa e faz da professora Ana Jorge um exemplo de dedicação e de cuidado que irá certamente continuar a nortear os nossos dias.
Há duas frases que nos disse já na etapa final da sua vida e que são muito reveladoras: «Fica para Nosso Senhor esta vontade de mimar todos, todos, todos». E ainda «A alegria de fazermos parte da vida uns dos outros mostra-nos que a aventura não termina aqui».
Cátia Tuna (ex-aluna de Ana Jorge) e Maria Luísa Resende, docentes da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

Ana Maria Jorge, na posse como directora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, em 2018. Foto: Direitos reservados
Qualidades raras e fecundas
Contactei mais diretamente com a professora Ana Jorge quando fui nomeado diretor-adjunto da Faculdade de Teologia. Ela era então vice-diretora e, poucas semanas depois, assumiu a Direção, primeiro como diretora interina e depois como diretora.
A professora Ana Jorge distinguia-se por qualidades raras e profundamente fecundas. A sua delicadeza nunca foi fragilidade: era antes uma forma exigente de respeito, que sabia cuidar de cada um sem abdicar do essencial. Tinha uma persistência serena, capaz de atravessar o cansaço e as resistências sem ruído nem dramatismo, mantendo sempre uma firmeza tranquila. Impressionava, sobretudo, pela visão: via longe, identificava prioridades e mantinha o rumo quando o detalhe ameaçava dispersar-nos.
Aliava a esta lucidez uma notável capacidade de condução: discreta, segura, criteriosa, encontrava para cada um a palavra certa, o incentivo oportuno e a orientação firme, sem jamais perder a humanidade do trato e a clareza do propósito. A sua presença não se limitava a dirigir; estimulava-nos a dar o melhor de nós, a acrescer em rigor, em sentido eclesial e em responsabilidade pública.
Luís M. Figueiredo Rodrigues, diretor da Faculdade de Teologia
Coragem e cuidado
Conheci Ana Jorge quando eu próprio frequentava a Faculdade de Teologia. Nessa altura, ela iniciava a sua colaboração com a instituição, com tarefas de apoio à Direção. Os nossos percursos afastaram-se durante alguns anos – enquanto eu prosseguia o meu caminho noutra universidade, Ana Jorge concluía o seu doutoramento em Lovaina e desenvolvia, de forma cada vez mais significativa, o seu percurso na Faculdade.
Reencontrámo-nos em 2004, quando regressei à Faculdade de Teologia como docente e investigador. Nessa fase, Ana Jorge estava particularmente empenhada em dinamizar o trabalho de investigação do Centro de Estudos de Religiões e Culturas, contribuindo para a sua consolidação.
A partir de 2014, quando a Ana Jorge integrou novamente o Conselho de Direção, passámos a trabalhar com proximidade, de forma continuada, até ao momento da sua partida – incluindo os anos em que assumiu o cargo de diretora da Faculdade de Teologia. Recordo especialmente a coragem com que aceitou assumir essa responsabilidade num momento institucional delicado. A Faculdade vivia então um período de reconfiguração, marcado pela passagem de testemunho entre gerações e pela necessidade de repensar a gramática nacional da instituição. Ana Jorge deu o melhor de si na condução desse processo de transição, com discrição, sentido de responsabilidade e cuidado constante, visando tornar a instituição uma casa habitável para quem nela trabalha e estuda.
Primeira mulher a dirigir a Faculdade de Teologia, inscreveu, sob o signo da coragem e do cuidado, o seu nome na história da instituição, lançando bases importantes para uma nova etapa do seu caminho. A sua memória permanecerá tatuada no futuro que ajudou a preparar.
Alfredo Teixeira, compositor e antropólogo, docente e investigador da Faculdade de Teologia

Ana Maria Jorge, na posse como directora da Faculdade de Teologia, em 2018, com a reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil. Foto: Direitos reservados
Generosidade, seriedade e alegria de viver
O falecimento da professora Doutora Ana Maria Jorge, em dezembro passado, deixou-nos a todos consternados – colegas, amigos e colaboradores, em particular os que com ela tivemos oportunidade de conviver e trabalhar no Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR).
Ana Jorge dedicou-se com competência e entusiasmo ao ensino na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP), a par do seu trabalho no âmbito do CEHR, de que era investigadora integrada desde a fundação.
Neste Centro participou e coordenou vários projetos, nomeadamente no Dicionário e na História Religiosa de Portugal. Foi vogal da direção de 1995 a 2001, diretora adjunta de 2001 a 2006 e sua diretora de 2007 a 2010. Membro da Sociedade Científica da UCP, da Sociedade de Estudos Medievais e académica correspondente da Academia Portuguesa da História, integrou, em diversos cargos, a direção da Faculdade de Teologia, sendo sua diretora de 2018 a 2025. A disponibilidade, generosidade e empenho da Ana, atitudes fundadas na fé cristã e pertença eclesial católica, são reconhecidas por todos os que com ela privámos como colegas e amigos, sempre com o seu sorriso inconfundível com que quotidianamente nos saudava.
No CEHR tivemos oportunidade de manifestar o reconhecimento e gratidão pela sua vida de entrega e de serviço aos outros, através da presença amiga e trabalho académico, tanto com os alunos e com os colegas, como com os colaboradores e trabalhadores que dirigiu, num compromisso institucional em que sempre procurou atender aos elos mais fracos, na procura da justiça social e laboral. Por isso também sofreu e, várias vezes, terá perdido alguns dos seus combates. Em suma, da sua vida colhemos um testemunho de generosidade, de seriedade e de alegria de viver, na procura do bem comum, que agradecemos. Na esperança te dizemos: Adeus!
Paulo Fontes, diretor do Centro de Estudos de História Religiosa, da Faculdade de Teologia

Ana Maria Jorge, numa foto cerca de 2005. Foto: Direitos reservados
Um testemunho de Evangelho ao vivo
Conheci a Ana Jorge nos anos oitenta, era ela aluna de História na Faculdade de Letras de Lisboa e eu assistente do MCE [Movimento Católico de Estudantes]. Reuníamo-nos todas as semanas para “ver, julgar e agir” segundo o método da Ação Católica e chegámos a ter duas equipas e a Ana como coordenadora duma delas.
Já era assim, como foi sempre: presente, atenta e participativa. Com serenidade e persistência. Estava sempre no que era preciso e como era preciso.
Interessou-se depois pela História da Igreja, matéria que eu lecionava na Faculdade de Teologia, e foi esse interesse – e competência – que a levou depois a Lovaina, onde fez um excelente doutoramento em História. Transmitiu-nos tudo o que pôde saber, sendo muito, sobre o cristianismo no Lusitânia romana e até ao século VIII.
Colaborámos depois no Centro de Estudos de História Religiosa, que dirigiu muito bem, integrando colaborações de outras Universidades, especialmente da sua geração de estudantes, professores e investigadores, mantendo com todos a relação atenciosa que lhe era tão própria. Deixou-lhes certamente um rasto de saudade e gratidão.
Assim também na Faculdade de Teologia, onde, além do ensino, foi secretária e diretora. Ganhou grande estima nos três polos da Faculdade (Lisboa, Porto e Braga), conseguindo convergências de ação e unanimidade de consideração a todos os níveis, do conselho científico, aos alunos e colaboradores. A Faculdade ganhou muito com a sua inteligência e sensibilidade feminina.
Além deste percurso académico, que tanto a distinguiu, seguiu o seu caminho cristão e vocacional, com igual entrega e fidelidade, desde a militância no MCE às Auxiliares do Apostolado. Sempre igual a si própria, na presença ativa e na disposição serena. Tudo com o equilíbrio que a distinguia e sustentava, mesmo perante situações complexas e obstáculos que surgissem. O modo como suportou o último ano da sua vida, acometida pela doença que a levou, foi a todos os títulos notável e revelou-a no que sempre foi, autenticamente cristã.
Foi, para mim e muitos mais, um testemunho de Evangelho ao vivo!
Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa

Ana Maria Jorge (à dirª), com o então reitor da Universidade Católica, Manuel Braga da Cruz e o então patriarca de Lisboa, Manuel Clemente. Foto: Direitos reservados.










