Entrevista 7MARGENS/Antena 1

Ana Nunes de Almeida “desiludida” com resposta dos bispos, um ano depois do relatório sobre abusos sexuais

| 13 Fev 2024

Ana Nunes de Almeida, Abusos sexuais, Antena 1

Ana Nunes de Almeida na entrevista: “Desiludida” com a resposta dos bispos à “brutalidade e devastação” que os abusos sexuais provocam na vida das vítimas. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Um ano depois da divulgação do relatório da Comissão Independente (CI) sobre os Abusos Sexuais na Igreja Católica em Portugal, a socióloga Ana Nunes de Almeida, que integrou a CI, diz que “sem dúvida”, sente-se “desiludida” com a resposta da hierarquia católica às conclusões da investigação da equipa liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht. [ver 7MARGENS] “Confrontámo-nos com a brutalidade e a devastação que os abusos sexuais” provocam na vida das vítimas, diz Ana Nunes de Almeida em entrevista ao programa 7MARGENS, da Antena 1.

“Perante aquele relatório, perante a sua divulgação e perante aquela monstruosidade, eu estava convencida de que (…) haveria uma fase de integração e discussão dos resultados, a traduzir-se em medidas, em gestos práticos, desde logo pela Igreja Católica, mas também pela sociedade portuguesa.” Mas “nada disso aconteceu verdadeiramente”.

O documento da CI revelava a brutal realidade de 512 vítimas que deram testemunhos directos dos seus casos, mas que permitiram concluir que haveria pelo menos 4815 casos de vítimas.

“Foi um ano de trabalho intensíssimo, com um grande nível de exigência sob todos os pontos de vista – profissional, humano – de dedicação em tempo”, explica a socióloga, que desde há muito se dedica à investigação nas áreas da família, infância e escola, em temas como os maus-tratos às crianças, culturas infantis e catástrofes, crianças e animais de companhia ou a ética na investigação com crianças. Nascida em Abril de 1957, em Lisboa, sonhava ser investigadora em Física, mas por causa do 25 de Abril decidiu enveredar pela Sociologia, para procurar entender as dinâmicas sociais. Licenciada em 1979 na Universidade de Genebra (Suíça), Ana Nunes de Almeida doutorou-se em 1991, no ISCTE, em Lisboa e é actualmente investigadora-coordenadora no Instituto de Ciências Sociais.

A própria experiência de dar voz a excertos dos testemunhos recolhidos marcou-a profundamente: depois de terminar a leitura do relatório, a socióloga confessa ter vivido “períodos muito difíceis do ponto de vista humano: foi brutal, foi devastador, foi uma experiência transformadora”. E conclui: “Eu não sou a mesma pessoa; há um antes e um depois.”

Referindo-se ao comportamento dos bispos, Ana Nunes de Almeida conta: “Soube que dois ou três tiveram encontros com as vítimas, pediram para falar com vítimas; e houve um deles que me disse: ‘Eu nunca tinha estado com uma vítima de abuso sexual à minha frente e eu mudei, não imaginei tal coisa.’” Este exemplo serve-lhe para concluir que “o formalismo, a distância e a frieza deste corpo de bispos portugueses tem também a ver não só com uma atitude defensiva”, mas também “com um desconhecimento desta dimensão da condição humana, deste sofrimento que não é provocado pela morte nem pela doença com que eles estão muitas vezes habituados a lidar”. Antes, recorda, “é um sofrimento provocado por um abuso sexual”.

Por contraste, “a grande diferença é que o Papa [Francisco] chamou vítimas, reais, concretas, esteve com elas numa sala, ouviu-as com atenção e abraçou-as e pediu-lhes desculpa, pediu-lhes inclusivamente que rezassem por ele”. O encontrar-se com vítimas e divulgar essa informação publicamente também não deveria ficar secreto. “É vergonha receber vítimas? Houve alguma vez um domingo no país em que as missas fossem por exemplo dedicadas às vítimas de abuso sexual em Portugal?”, pergunta. E conclui: “Falta humanidade, falta sensibilidade, falta proximidade; não pode ser, não pode ser…”

 

Igreja “fechada e demasiado secreta”

Ana Nunes de Almeida, Abusos sexuais, Antena 1

Ana Nunes de Almeida: “Tem de haver formação não só em sexualidade adulta, como também relativamente à sexualidade das crianças.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

No final do relatório da CI, uma das sugestões era que houvesse da parte da hierarquia católica um pedido de perdão. Apesar de os bispos terem celebrado uma missa em Fátima com esse objectivo, a socióloga diz que não considera que esse objectivo esteja cumprido; pelo contrário, ele foi feito “de maneira distante, formal, não foi um abraço humano de arrependimento”.

Tendo já assumido publicamente, várias vezes, a sua condição de católica, a investigadora do ICS diz, a propósito do sínodo que a Igreja está a viver, que “o problema do abuso sexual tem tudo a ver com uma certa organização desta instituição que é a Igreja: uma organização que discrimina, fechada e demasiado secreta, uma organização que é raramente escrutinada”.

Considerando o abuso sexual como “um abuso perverso de poder de um adulto sobre uma criança, de um adulto que tem um poder espiritual”, a investigadora afirma que “a ocultação, a denegação da verdade das vítimas, essa sim, é uma atitude sistémica da Igreja – e aí surge a responsabilidade dos bispos e o clericalismo”.

De resto, acrescenta Ana Nunes de Almeida, a sexualidade “é um elefante dentro da sala” na Igreja Católica. “Tem de haver grande formação não só em sexualidade adulta, como também relativamente à sexualidade das crianças; e tem de haver formação sobre o que são os direitos da criança, porque a criança não é um objecto nas mãos dos adultos”, diz, para recusar a terminologia “menores”, que a CI nunca usou, por ser um termo há muito caído em desuso na linguagem jurídica e sociológica.

Por causa de uma avaria no sistema de gravação da Antena 1, os últimos minutos do programa não ficaram registados. Ainda assim, pode referir-se que Ana Nunes de Almeida escolheu, dos últimos dias no 7MARGENS, a notícia de que o Papa Francisco convidou Jo Bailey Wells, bispa da Igreja de Inglaterra (Comunhão Anglicana) para participar na reunião de Fevereiro do Conselho dos Cardeais. Wells é conhecida por defender que “a igualdade de género faz parte do plano de Deus” e o Papa quis escutá-la sobre “o papel feminino na Igreja”.

Como sugestões, Ana Nunes de Almeida deixou dois livros: Ensina-me a Voar Sobre os Telhados, de João Tordo; e Léxico Familiar, da italiana Natalia Ginzburg.

O programa pode ser escutado na íntegra na RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p12257/e747180/7-margens

 

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