AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Angela Merkel (2008), quando chanceler da Alemanha. Foto © א (Aleph), CC BY-SA 2.5 , via Wikimedia Commons.
Angela Merkel (2008), quando chanceler da Alemanha. Foto © א (Aleph), CC BY-SA 2.5, via Wikimedia Commons.

Em defesa da vida e do planeta

Angela Merkel comenta São Paulo e afirma ser preciso “renovar o pensamento para mudar o mundo”

| 11/04/2026

 

Convidada pelo abade do mosteiro beneditino de Maria Laach a comentar, durante a última Quaresma, a leitura do dia (Carta aos Romanos, 12-1,2), a antiga chanceler alemã Angela Merkel escolheu atualizar a afirmação de São Paulo, “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento”, para sublinhar o dever dos cristãos se envolverem de forma construtiva no debate sobre a justa redistribuição da riqueza, a recusa dos discursos de ódio e a defesa das pessoas marginalizadas, bem como se empenharem pela salvaguarda da criação.

A “homilia” de Merkel (71 anos) teve grande repercussão na imprensa alemã, uma vez que a ex-chanceler, que deixou o poder em 2021, não falava em público há anos. Para além do interesse político, há nas suas palavras um conteúdo explicitamente cristão. Desde logo, porque reconhece para si, o repto que expõe aos monges beneditinos que a escutam: “Ser cristão não é um banco onde nos sentamos a descansar; ser cristão é um apelo permanente a pôr os nossos talentos ao serviço dos outros. A boa notícia é que podemos confiar na bondade de Deus – não precisamos de ser perfeitos, podemos errar e ainda assim ser acolhidos por Deus enquanto seres humanos. O que não devemos fazer é usar os nossos erros como desculpa para não fazer nada.”

“Paulo exige apenas uma coisa, mas com grande coerência: procurar compreender qual é a vontade de Deus. Por isso, para nós, a vida de Jesus não deveria ser apenas uma inspiração, mas dar-nos a esperança de que com o nosso agir as coisas podem tornar-se melhores. Considero que o convite de Paulo a não nos conformarmos com o mundo, mas a deixarmo-nos transformar por uma nova forma de pensar, é para nós, hoje, simultaneamente apaixonante e exigente, tal como devia ser para os cristãos de Roma há dois mil anos”, referiu Merkel após ter recordado o escândalo e as perseguições originados pelas práticas dos que seguiam a via de Jesus Cristo. Práticas que incluíam tratar todos, escravos e cidadãos, por igual, tal como o fizera Jesus que “se colocara sobretudo ao lado dos excluídos: mulheres, adúlteras, doentes, pessoas com deficiência, publicanos, leprosos”.

Para perscrutar qual é hoje a vontade de Deus, a ex-chanceler começa por sublinhar que, “nos últimos anos, muitas certezas aparentemente sólidas vacilaram” e que, em consequência disso, “a esperança de que tudo corra bem pode facilmente desvanecer-se”. É, por isso, necessária “uma nova orientação”, fundada na “tomada de consciência dos nossos alicerces espirituais”, único lugar de onde “pode surgir uma nova esperança” alimento de uma resposta responsável aos “três desafios perante os quais nos encontramos”.

Guerra, justiça social, ódio e crise climática

na ucrania, uma criança observa os edifícios destruídos pela guerra, Foto © UNICEF/Diego Ibarra Sánchez

Nova situação geopolítica deve levar a Alemanha a investir mais em armamento, defende Merkel. Na imagem, na Ucrânia, em dezembro de 2022, uma criança observa os edifícios destruídos pela guerra, Foto © UNICEF/Diego Ibarra Sánchez.

Ao abordar a nova situação geopolítica, Merkel refere as guerras mais recentes (Gaza e Irão), mas centra-se na invasão da Ucrânia e nas alterações derivadas das novas posições dos EUA de Donald Trump para concluir sobre a necessidade da Alemanha investir mais dinheiro na sua segurança interna e externa. Isso significa, conclui, investir mais em armamento e, em consequência, “os recursos financeiros terão de ser redistribuídos na sociedade”.

Perante este desígnio, afirma: “os cristãos devem participar de forma construtiva no debate sobre como esta redistribuição pode ser organizada de forma justa”, [sem cair no logro de] “recusar qualquer proposta de alteração do status quo quando nos diz respeito e apontamos o dedo aos outros, ou descarregamos os custos sobre as gerações futuras através de um endividamento cada vez maior.”

O segundo desafio que os cristãos enfrentam na sociedade alemã provém da transformação “dos chamados meios de comunicação social e das possibilidades sempre novas oferecidas pela inteligência artificial”, revoluções que “exigem regras para a sua utilização, de modo a que estejam ao serviço do ser humano e não o subjuguem”.

O desfecho dessa luta política para impor tais regras não é certo. Dúvida que leva a ex-chanceler a partilhar as suas interrogações: “Como sociedade, temos força para impor essas regras, mesmo que outros no mundo não o façam? Estamos dispostos a opor-nos com determinação ao ódio, à difamação e ao incitamento ao ódio contra outras pessoas na Internet? Somos suficientemente fortes para nos rebelarmos quando as verdades são atacadas como sendo mentiras e as mentiras são propostas como verdades?” Mas, apesar destas dúvidas, certo é, para ela, que “os cristãos deveriam ser corajosos nestes debates, defender as pessoas marginalizadas e promover a coesão de todos os democratas”.

A salvaguarda da criação, a luta contra o aquecimento global, contra a extinção de espécies animais e vegetais e a proteção dos oceanos constitui o terceiro desafio premente a que há que dar resposta. É um tema para o qual Merkel reconhece ter contribuído no seu tempo de chanceler com várias iniciativas, embora hoje sinta que pesa sobre ela o facto de tudo isso “não ter sido suficiente para proteger o mundo dos efeitos catastróficos do aquecimento global.”

Neste campo não se pode ignorar aquilo que todos os dados mostram: as alterações climáticas progridem e agudizam-se as suas catastróficas consequências. Pergunta Merkel: “Contribuímos para ignorar estes factos, pensando que de qualquer forma não podemos mudar nada, ou estamos dispostos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para cumprir os compromissos assumidos com o Acordo de Paris (…), garantindo assim as condições de subsistência para os nossos filhos e para os filhos dos nossos filhos?” E remata: “Como cristãos, temos de empenhar-nos pela salvaguarda da criação.”

Os três desafios que a ex-chanceler escolheu para atualizar a responsabilidade dos cristãos em responderem, hoje, ao convite de Paulo para “renovar continuamente o modo de pensar” e não se contentarem “com o mundo tal como ele é e a compreender qual é a vontade de Deus” são também caminhos para algo mais. “Trata-se nem mais nem menos do que defender a nossa ordem democrática, porque só ela nos permite viver em liberdade” e essa ordem democrática fundamenta-se no “Estado liberal e laico que vive de pressupostos que não pode garantir por si só”. Para o preservar “é necessária também a cooperação dos seus cidadãos e das suas cidadãs”.

 

As citações incluídas neste texto foram feitas a partir da tradução publicada no jornal Avvenire assinada pelo italiano Alessandro Bellino, investigador da Universidade Católica.

Últimas Notícias

Últimas Notícias

O estranho “suicídio” do pastor Zedequias Manganhela

Livro sobre a PIDE

O estranho “suicídio” do pastor Zedequias Manganhela novidade

O livro será apresentado nesta quarta-feira, 16, a partir das 18h30, no auditório do Liceu Camões, em Lisboa, com intervenções da historiadora Maria Inácia Rezola, responsável da Comissão Comemorativa 50 anos do 25 de Abril, e por Fernando Marques Mendes, antigo padre do Macúti, um dos que denunciou os massacres cometidos pelo Exército português na então colónia de Moçambique.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This