Animais, respeito e substituições

| 6 Jul 19

Imagino que este texto não seja do agrado de algumas pessoas e possa até ferir algumas sensibilidades. Assumindo o risco não posso – não podemos – deixar de me interrogar sobre algumas questões que, no mínimo, me incomodam e me desafiam a uma outra reflexão. Começo por contar um breve episódio recente vivido por uma minha familiar.

Preparava-se essa pessoa para ir festejar os Santos Populares com umas amigas quando um acontecimento algo insólito lhes estragou os planos de uma tão desejada sardinhada. Ao abrir a porta da viatura para recolher uma das amigas e sem tempo para esboçar quelquer reação, eis que um cachorro, aparentando ser de raça de grande porte, lhe entra no carro e se instala comodamente. Após várias tentativas meigas para que saísse, o bicho teimava em não abandonar o aconchego do que ele desejaria fosse o seu novo lar. Decidiram então dirigir-se à esquadra mais próxima na esperança de aí deixarem o animal para que lhe dessem o destino recomendado. A noite começava a cair e muitos dos centros de acolhimento de animais já haviam terminado o seu dia. A primeira reação dos agentes foi de surpresa sem saberem o que fazer. Alguns telefonemas para os canis mais próximos cuja resposta foi que não havia lugar para o animal. No entretanto, e face à atrapalhação e incómodo dos agentes, a minha familiar lá foi fazendo uns telefonemas no sentido de encontrar abrigo para o simpático intruso. Ao fim de algumas tentativas lá encontrou, a cerca de 50 quilómetros da capital, um centro disposto a recolher o cachorro. E, já noite dentro, lá foram entregar o ousado intruso. Depois de tamanha aventura, e sem jantar, lá regressaram a suas casas com a consciência de dever de cidadania cumprido e com a frustração de uma noite de santos populares falhada.

Este episódio é merecedor de duas breves notas.

Uma primeira nota tem a ver com o desequilíbrio que se foi instaurando à medida que fomos evoluindo e a urbanidade se foi sobrepondo à ruralidade. Pese embora todas as conquistas, deixámos muito lá atrás uma hierarquia de valores que nos ensinava a respeitar os animais, mesmo se por vezes com um carácter utilitário, sem nunca deixar que ocupassem o espaço relacional próprio dos laços entre seres humanos.

Eu nasci no campo com a ajuda de uma parteira popular a quem a experiência e a queda para o ofício deu competências suficientes para ajudar as parturientes da aldeia a terem uma “boa hora” ou, pelo menos, o mais curta possível. O convívio próximo com os animais, desde os ditos domésticos (não aprisionados), passando pelos répteis que na altura eram frequentes, até aos que tinham uma utilidade na sobreviência da família, fosse na ajuda dos trabalhos do campo, fosse na contribuição para a dieta alimentar. Os cães de guarda e os de pastoreio eram fiéis companheiros de todos os dias. Subi às árvores, andei aos ninhos, cacei pardais e taralhões com costis e utilizando a agúdia como isco. É verdade que às vezes fazíamos algumas tropelias e maldades, mas logo os mais velhos – os mesmos que outrora fizeram as mesmas tropelias – nos chamavam a atenção e nos ensinavam o respeito pela natureza e os limites. Nem tudo era perfeito e é verdade que os novos tempos nos trouxeram uma outra compreensão sobre a natureza e os seres que a habitam, novos olhares e uma outra consciência. Mas, apesar de tudo, penso que lá longe na minha infância aprendi o respeito pelos outros seres, sabendo o lugar de cada um e aprendíamos naturalmente a hierarquia de valores que não eram confundíveis.

Uma segunda nota incide sobre a falta de bom senso quando se pretende apressar as soluções, sejam elas quais forem, sem perceber qual o verdadeiro problema e não apenas as suas consequências. E o episódio acima relatado é a prova disso, ou seja, a sobrelotação dos canis que impede o acolhimento de novos animais. A Lei 27/2016, de 23 de agosto, que proíbe o abate de animais, ao tentar protegê-los, criou um grave problema e passou ao lado do essencial tentando apenas resolver uma das suas consequências. O problema está, por um lado, em instrumentos que controlem as populações de animais e, por outro, num maior controlo e fiscalização e penalizações severas para quem abandone animais. Acresce ainda o facto de muitas pessoas terem animais em casa sem terem as condições para tal, o que significa que também na aquisição deveria existir algum cuidado. Aliás, a Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios (ANMVM) tem chamado a atenção para o problema e as consequências que poderá ter no que à saúde pública diz respeito. Basta pensar que os animais abandonados reproduzem-se sem qualquer controlo. Em conversa na TSF em março último, esta associação estimava que cerca de 60 mil animais sejam anualmente recolhidos, sendo que apenas cerca de 20 mil consegue encontrar uma família de adoção. Antes da entrada em vigor da lei (2018) eram abatidos cerca de 12 mil animais por ano. Embora os cães seja a população animal que logo nos vem à ideia, sublinhe-se contudo que em alguns locais a população de gatos abandonados é considerável tornando-se por vezes mesmo agressivos.

Finalmente, e para que fique claro, importa dizer que eu próprio tenho um cão em casa que foi recolhido ainda cachorro pela minha filha e que em tempos tive um gato também recolhido na rua pela minha filha quando ainda bébé. Embora nem sempre seja fácil e às vezes se torne mesmo um grande aborrecimento, não me passa pela cabeça abandonar o animal.

Uma outra questão que não cabe aqui desenvolver, mas sobre a qual importa reflectir, é como os animais domésticos foram ocupando o espaço relacional entre as pessoas, isolando-as cada vez mais, tendo também aqui o animal doméstico um carácter utilitário de substituição.

Tentem ser felizes em seara de gente.

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