Foi o massacre mais grave ocorrido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial: a 11 de julho de 1995, no enclave de Srebrenica (Bósnia), pelo menos 8.372 homens – na sua maioria muçulmanos – foram assassinados pelas tropas do general sérvio-bósnio Ratko Mladic. Passados trinta anos, com muitas feridas ainda abertas naquela região, a Igreja Católica “quer cumprir a sua missão de reconciliação”, e também assegurar que a memória não se perde, para que o mal não torne a vencer.
Para o padre católico Dražen Kustura, jornalista e porta-voz da arquidiocese de Sarajevo, o aniversário do massacre de Srebrenica “é um lembrete de como o mal pode ser poderoso”. Mas, explica o presbítero em declarações à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), “infelizmente, ainda não existe uma ideia generalizada de que todos os crimes, independentemente de quem os cometeu, devem ser condenados; que todas as vítimas têm o mesmo valor e que a dor das suas mães é igualmente profunda. Por isso, em vez de uma oportunidade de expiação pessoal e coletiva, estes aniversários do genocídio de Srebrenica tornaram-se um foco de novas divisões e de reabertura de feridas do passado, tornando ainda mais difícil a reconciliação e o perdão”.
A Igreja Católica, acrescenta o porta-voz da arquidiocese de Sarajevo, tem defendido sempre o diálogo como “a única forma moralmente aceitável de resolver os desacordos”. “Os bispos da Bósnia-Herzegovina sempre mantiveram este princípio e nunca se recusaram a encontrar-se com qualquer líder religioso. A Igreja tem seguido este caminho desde a guerra, alertando sempre para as consequências de uma paz injusta, que legitimaria a limpeza étnica”, refere o padre Dražen Kustura.
Um caminho feito de iniciativas concretas como o projeto “Caminhar juntos”, promovido pelo Centro de Pastoral Juvenil João Paulo II, que há mais de uma década reúne jovens das três principais confissões religiosas. “Através de atividades educativas, desportivas e outras, procura-se ultrapassar as divisões e encorajar os jovens a construir pontes”, explica a Fundação AIS.
Isto sem deixar de olhar para o passado, tendo em conta que “estas tragédias podem também tornar-se uma lição para o futuro, para que as novas gerações não repitam os erros dos seus antepassados”. “Srebrenica é um lembrete de quanta dor os seres humanos podem infligir uns aos outros quando estão cheios de ódio. (…) Por muito que Srebrenica seja um lugar de ódio e de sofrimento, pode também tornar-se um lugar de reconciliação e de conversão. Daqui pode irradiar uma mensagem clara: que nada de bom resulta da guerra e do crime e que, em vez disso, vale a pena lutar pela paz e pelo respeito mútuo, na diversidade e na justiça”, diz, em conclusão, o padre Dražen Kustura.

O padre Dražen Kustura, porta-voz da arquidiocese de Sarajevo. Foto © Katolicki tjednik
Amnistia Internacional denuncia “novos esforços para negar os crimes”
Assinalando também o trigésimo aniversário do massacre, a Amnistia Internacional assinala por seu lado que, enquanto as famílias das vítimas “lutam contra um trauma duradouro, enfrentam também novos esforços por parte de altos funcionários – em algumas partes da região – para negar os crimes e glorificar indivíduos condenados por genocídio e crimes contra a humanidade”.
“A negação do genocídio não é apenas um profundo insulto às vítimas e às suas famílias, é também uma rejeição das decisões definitivas dos tribunais internacionais que estabeleceram, sem margem para dúvidas, que os atos cometidos em Srebrenica constituíram genocídio”, afirma a diretora regional adjunta da Amnistia Internacional para a Europa, Dinushika Dissanayake, citada num comunicado enviado esta sexta-feira ao 7MARGENS.
“Embora muitos perpetradores tenham sido levados à justiça, o aniversário é uma lembrança dolorosa de que quase 1.000 pessoas presumivelmente mortas em Srebrenica, em 1995, ainda estão desaparecidas. As suas famílias continuam a viver sem respostas, incapazes de enterrar os seus entes queridos ou obter algum sentido real de encerramento”, acrescenta a responsável.
“Ao assinalarmos este marco solene e honrarmos a memória das vítimas, prestamos também homenagem às suas famílias e a organizações como as Mães de Srebrenica, que passaram as últimas três décadas numa busca incansável pela verdade, justiça e reparação”, conclui.
O massacre foi formalmente reconhecido como genocídio pelo Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ). No ano passado, a Assembleia Geral da ONU proclamou o dia 11 de julho como o Dia Internacional de Reflexão e Memória do Genocídio de Srebrenica de 1995.
Esta terça-feira, na Assembleia Geral das Nações Unidas, sobreviventes do genocídio de Srebrenica juntaram-se a altos responsáveis da ONU para assinalar o aniversário. Em nome do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o chefe de gabinete, Courtenay Rattray, prestou homenagem às vítimas e à coragem das suas famílias. “Hoje recordamos e homenageamos as vítimas. Prestamos tributo à força, dignidade e resiliência dos sobreviventes”, afirmou.
Na sua mensagem, Guterres insistiu que a comunidade internacional deve continuar a combater o ódio, a divisão e a negação. “Apenas reconhecendo o sofrimento de todas as vítimas poderemos construir entendimento mútuo, confiança e uma paz duradoura”, afirmou. “Devemos garantir que as vozes dos sobreviventes de Srebrenica continuem a ser ouvidas — combatendo a negação, a distorção e o revisionismo”.










