Paz no mundo, unidade e sinodalidade na Igreja – assim se poderiam sintetizar os grandes eixos de preocupações e desafios do Papa Leão XIV, um ano depois de ter iniciado o seu pontificado.
A paz desejada pelo sucessor de Francisco não é um conceito vago, para alimentar uma piedade adocicada e distante dos “dolorosos rastos de morte, destruição e exílio!” (Discurso no Encontro Internacional da Paz). É uma paz “sem vencedores e sem vencidos”, como sonhava Sophia.
Uma paz que, longe de ser mera ausência de guerra, comporta os desafios de uma paz “desarmada e desarmante”. Este conceito traz associado um leque de reptos que envolve a paz interior, relações empáticas e de confiança entre as pessoas, os grupos e os povos, a recusa da resolução dos conflitos pela violência e a denúncia da corrida aos armamentos e das soluções impostas pelo mais forte.
O Papa já começou a provar as consequências da sua persistente aposta nos processos de pacificação e do seu rotundo não às guerras. Os ataques de que tem sido alvo, baseados em mentiras, querem encostá-lo a um papel que ele tem de sacudir – e tem-no corajosamente feito.
Mas a denúncia do Papa vai ter consequências morais para muitos decisores políticos, nomeadamente da Europa, que embarcam em lógicas bélicas e em investimentos na defesa, impossíveis de realizar sem sacrificar as políticas sociais e educativas. Por outro lado, a opção pela via da não-violência ativa vai colocar muitos jovens em situações difíceis, que exigirão redes de discernimento e apoio. A educação para a paz e para a justiça social precisa de ser operacionalizada nas instituições educativas e de formação – a começar, desde logo, pelas escolas e universidades católicas.
Os cristãos têm de se preparar para defender os valores evangélicos, mesmo que isso lhes traga dissabores e acusações. Ser construtor da paz vai exigir uma mobilização da Igreja Católica e de todas as igrejas que seguem o Evangelho de Jesus.
Perante a magnitude dos desafios para os quais o Papa Leão vem alertando, são necessárias comunidades vivas e acolhedoras, atentas aos dramas do mundo e, ao mesmo tempo, aproximando-se de todos aqueles que sofrem, que são descartados para as sete margens da vida, guiadas pelo Evangelho e pelo pensamento social católico. Problemas como as guerras, a emergência climática, o crescimento das desigualdades, o racismo, o tráfico humano, as ameaças à democracia e à liberdade, o acesso à saúde e à educação de milhões de crianças e pessoas, têm de ser aguilhões para a consciência católica e cristã – e Leão não se tem cansado de os referir.
Esta proximidade das pessoas e das comunidades obriga a uma diversidade de respostas, a qual, por sua vez, conduz a diferentes sensibilidades, urgências e modos de traduzir a fé. É desta diversidade de experiências que Leão quer fazer um “laboratório de unidade e comunhão, de fraternidade e reconciliação, para que cada pessoa na Igreja, com a sua história pessoal, aprenda a caminhar junto dos outros” (Homilia na missa da festa de São Pedro e São Paulo).
Numa cultura que promoveu durante tanto tempo a uniformidade definida do centro para a periferia e do alto para a base, mesmo naquilo que não integra o essencial da fé cristã, tende-se a abdicar do discernimento que vem da escuta e do diálogo, para suspirar por uma decisão do Papa que julgue e resolva toda e qualquer dúvida, angústia, problema.
Não é esse o caminho inaugurado pelo Concílio Vaticano II, tal como não vai nessa direção o processo de mudança lançado pelo Papa Francisco e que, tudo o indica, é plenamente assumido pelo seu sucessor na cadeira de Pedro, ainda que num estilo próprio, como é natural.
Fleumático, tranquilo e corajoso como tem dado mostras, Leão sabe certamente que vai enfrentar dificuldades de monta neste caminhar da Igreja, unida e não dividida pelas diferenças ou, mais ainda, construída através dessas diferenças (de experiências, de formas de afrontar os obstáculos, de ritmos, etc).
A sinodalidade, que o Papa abraçou, é entendida como o caminho para viver e edificar essa unidade, avançando nesse esforço de superar polarizações e promover a corresponsabilidade e a participação de todos. Contudo, sobram e acumulam-se as matérias sobre as quais as polarizações não param de se desenvolver.
O modo como respondeu a uma jornalista, no regresso da sua viagem a África, acerca do facto de a Igreja alemã estar a avançar para a bênção de casais de pessoas do mesmo sexo, é interessante e merece reflexão. Ele recordou que a posição do Vaticano é clara e tem estado a ser objeto de diálogo com o episcopado alemão, no quadro mais largo do processo sinodal vivido pela Igreja Católica daquele país. Mas acrescentou, nesse contexto:
“Primeiramente, acho muito importante que a unidade ou divisão da Igreja não gire em torno de questões sexuais. Tendemos a pensar que, quando a igreja fala sobre moralidade, a única questão de moralidade é sexual. E, na realidade, acredito que há questões maiores e mais importantes como justiça, igualdade, liberdade de homens e mulheres, liberdade religiosa, que teriam prioridade acima dessa questão específica.”
Há pelo menos dois pontos que aparentemente decorrem destas palavras. Um é que a sexualidade não reveste necessariamente a proeminência que revestem outras problemáticas, nas quais se jogam os direitos e a dignidade humana. Outro é que, em muitos ambientes católicos, aquilo que o Papa formulou daquele modo poderia ser formulado exatamente ao contrário, o que poderia ser problemático para a unidade da Igreja.
Como esta, há outras matérias na vida da comunidade eclesial que urge afrontar. Como, por exemplo, o lugar das mulheres, o combate aos abusos sexuais e de poder, a formação bíblica, teológica e no pensamento social – relativamente às quais é preferível inscrevê-las na agenda comum, do que evitá-las. Só assim se poderá escutar, aprofundar e caminhar para reformas que se mostrem necessárias.
Tudo isto carece de uma pedagogia da mudança para a qual o processo sinodal pode dar contributos decisivos. Contudo tal processo encontra-se meio paralisado, não tendo saído de uma fase incipiente. Também aqui, Leão tem de dar um passo corajoso.










