Saborear os Clássicos (VII)

Antero de Quental (1842-1891): “Já sossega, depois de tanta luta”

| 24 Out 2021

“…não sei que voz que eu mesmo desconheço

Em segredo protesta e afirma o Bem!”

(Sonetos)

“…a lei moral do homem é o constante aperfeiçoamento e a progressiva santidade” (Antero de Quental)

Casa de Antero em S. Miguel. Foto: Direitos reservados

 

Antero de Quental nasceu numa das mais antigas famílias dos Açores, na ilha de S. Miguel: o avô fora amigo de Bocage; o pai, companheiro de D. Pedro que, em 1832, mandou picar o brasão na fachada do seu palácio [1]. O filho Antero, personalidade ímpar na cultura portuguesa: poeta, jornalista e polemista, filósofo, político, foi o elemento mais importante da célebre Geração de 70, que teve grande impacto no nosso país e da qual se comemoraram os 150 anos em 2020. Destacam-se nas suas obras Sonetos e o ensaio filosófico As Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX: “O mais perfeito dos [ensaios filosóficos] que até aí se escreveram em Portugal”, escreveu José-Augusto França. [1]

Discurso ao luar

(…) Uma noite (…) com as sebentas na algibeira, avistei (…) sobre as escadarias da Sé nova (…) batidas da lua, um homem de pé, que improvisava.  A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro… à maneira siríaca, reluziam, aureolados… e sentados, outros homens… imóveis… escutavam em silêncio e enlevo, como discípulos. (…) cantava o céu, o Infinito, os mundos carregados de humanidade, a luz suprema habitada pela ideia pura… deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada que murmurou: – “ É o Antero…”. Então, perante este céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores (…) sentei-me no degrau (…) a Universidade que em todas as nações era um alma mater… para nós era uma madrasta amarga, carrancuda, (…) geração como a nossa só podia ter uma atitude – rebelião (…) Antero não era só um chefe: era um messias, com um relevo cativante (…) até a bondade iniciadora do seu sorriso… [era] um espelho de sinceridade e rectidão… [2]

Paris, Londres, Berlim

Na Universidade, Antero e outros – núcleo d´O Raio, sociedade secreta estudantil – eram contra as praxes académicas e chegaram a demitir o reitor, através de um abaixo-assinado dos estudantes. Vivia-se um tempo de grandes mudanças na Europa, devido ao desenvolvimento da indústria e da liberdade económica. Em Portugal, predominava ainda uma economia agrária. “Os nomes aureolados [do liberalismo oitocentista] de Fernandes Tomás, Passos Manuel, Mouzinho da Silveira, Alexandre Herculano deram lugar a políticos corruptos e demagogos.”[3] Por outro lado, as novas gerações tomavam conhecimento de novas ideologias. Através das recentes vias férreas e do telégrafo, tudo ficava mais perto: Darwin, Proudhon, Marx, Michelet, Renan, Hegel, Schopenhauer, Balzac, Flaubert… 

Antero de Quental

 

Estado de dúvida, incerteza…

… varrida num instante a minha educação católica e tradicional – recorda Antero – caí num estado de dúvida, incerteza e ansiedade religiosas; [3] () o seu espírito ansioso já começava a martirizá-lo… [4].

“Um dilúvio de luz cai da montanha:/ Eis o dia! eis o sol! o esposo amado! / (…)  Ah! Se Deus a seus filhos dá ventura / Nesta hora santa (…) e eu só posso ser triste (…) / Serei filho, mas filho abandonado!” (in Lamento) [5]

Poesia sem lirismo?… Donde provirá esta enfermidade?…

Esta era a pergunta dos poetas ultra-românticos, com António Feliciano de Castilho à cabeça, face à nova poesia de Antero. Rebenta uma grande polémica, com duelo e tudo. Antero responde através do documento Bom Senso e Bom Gosto, que marcou um novo conceito da poesia, não sentimentalista. Depois, desabafou numa carta a um amigo: () que gente! Que opiniões!… que vida! … sinto entre mim e o meu país a distância e o abismo deste sentimento: desprezo… [1]. 

 Antero, Oliveira Martins, Batalha Reis, Eça de Queirós e outros “revelaram entre si uma capacidade de colaboração que é rara, em Portugal… foi enorme e importante esta tertúlia; uma profunda amizade que continuou, mesmo separados por muitos quilómetros” [6]. 

“O mundo só pela moral será libertado e salvo.” (Proudhon)

Antero era o grande dinamizador. Espírito inquieto… “brilhante, improvisador, oscilante… não conseguiu fixar-se nem numa actividade, nem numa mulher, nem num sítio [6]. Oliveira Martins era o contrário dele; daí a profunda amizade. Em 1866, Antero, seguindo os exemplos de Michelet e Proudhon, parte para Paris tornando-se operário tipógrafo. Depois escreve aos amigos: … que tristeza tenho sentido! Que frio! Que isolamento! O que julguei encontrar… é o que menos se acha, fraternidade… este trabalho é triste, como todo o trabalho moderno… desnatural e injusto…” [3]. Visita Michelet e há uma frase dele que lhe consome o espírito: “Não posso passar sem Deus”. Essa frase irá marcá-lo para sempre. [1]

Conferências do Casino

A Geração de 70: Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quintal, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro

 

1870: Terminados os cursos, muitos rumam a Lisboa. Aí vivem ainda numa juvenil turbulência: é o Cenáculo. Mas Antero aparece, regressado da sua ilha. Logo os organiza, juntamente com Batalha Reis: …começámos a estudar Proudhon, quietos à banca, com os pés em capachos, como bons estudantes [2]. Antero, Oliveira Martins e José Fontana fundam associações operárias, contactam as primeiras organizações revolucionárias socialistas. Durou pouco… o artista, o fidalgo, o filósofo que nele coexistiam, não se entenderam bem com a plebe operária. Sempre sincero… proclamou que só os proletários eram competentes para reivindicar os direitos dos proletários… [2]. 

A Comuna de Paris, em 1871, entusiasmou os ânimos e é então que Antero organiza com os seus amigos as “Conferências do Casino” cujo objectivo era agitar, na opinião pública, a discussão de questões sociais, políticas, filosóficas, literárias, religiosas… Havia um programa, oradores e até um público heterogéneo a assistir. Na sua conferência, “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, considera como causas o fanatismo e o absolutismo – a Inquisição e a centralização monárquica. O conferencista diz-se anticatólico, mas não anticristão; apelava para uma nova situação moral que combatesse a indiferença terrível dos portugueses do séc. XIX” [6]. Mas a Vª Conferência já não se realizou. Uma portaria do Governo interditava a realização das Conferências “por sustentar doutrinas que atacam a religião, as instituições políticas”… [6]. Os muitos protestos dos conferencistas e de outros foram abafados, incluindo os de Alexandre Herculano que apelidou de “idiotismo senil” a atitude do Governo.  

“Sonho que sou um cavaleiro andante. / Por desertos, por sóis, por noite escura, / Paladino do amor, busco anelante / o palácio encantado da Ventura! // Mas já desmaio, exausto vacilante (…) E eis que súbito o avisto, fulgurante / (…) bato à porta e brado: / Eu sou o Vagabundo, o Deserdado (…)  // Abrem-se as portas d’ ouro com fragor / Mas dentro encontro só (…) / Silêncio e escuridão – e nada mais!”. (in O Palácio da Ventura) [5]

Surge o cansaço, após grande actividade. Tal sou eu, que pus ao serviço da grande e forte Ideia este meu pobre espírito, doente e apaixonado, cheio de contrastes e fraquezas, ardente… mórbido, recto e juntamente subtil…  [6].  Em 1877, resolve ir a Paris consultar o célebre Dr. Charcot que lhe recomenda choques de água fria na espinha dorsal numa estância balnear, perto de Paris, Bellevue. Estando em Paris, Batalha Reis foi visitá-lo: “Pareceu-me transformado, estava alegre, expansivo, cheio de planos… o Antero tinha muito que me contar – o seu último romance.” Antero regressa a Portugal, fazendo planos para uma existência familiar com a baronesa Seillière que ele conhecera nas termas. Pouco a pouco, [já Antero em Portugal], as bases dessa edificação começaram a aluir irreconciliáveis com a sua fortuna. [6].

“Adornou o meu quarto a flor do cardo / Perfumei-o de almíscar recendente ( … ) // Ungi as mãos e a face com o nardo / Crescido nos jardins do Oriente, / A receber com pompa, dignamente, / Misteriosa visita a quem aguardo. // Mas que filha de reis, que anjo ou que fada / (…) // … Era flor, / Era a tua lembrança que batia / Às portas de ouro e de luz do meu amor!” (in Visita) [5]

Antero de Quental

Antero procurou Oliveira Martins – assim acontecia quando estava em crise. É Oliveira Martins, o dilecto amigo, que escreve sobre Antero: “(…) mais que tudo: mais que as revoluções falhadas, mais que os systemas derruidos… foram os seus amores, uma vez ceifados pela morte, outra vez pela mesquinhez mulheril que lhe arrastaram a vida para a solução frígida do nada.” Escreve Antero: “começo a estar cansado e é forçoso decidir se morro ou se vivo…”  [6]. Oliveira Martins vem em seu socorro, Antero instala-se no Porto em casa dele e depois diz-lhe: A sua boa e recta razão é… a melhor das hidroterapias morais [6].

“Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram / Ninho e filhos e tudo, sem piedade (…) // Deixá-la ir, a vela, que arrojaram / os tufões pelo mar (… ) // Deixá-la ir a alma lastimosa / Que perdeu fé e paz e confiança / À morte queda, à morte silenciosa…  // Deixá-la ir, nota desprendida / Dum canto extremo … e a última esperança…/ E a vida… e o amor… deixá-la ir, a vida!”. (in Despondency) [5]

Este belíssimo lamento, de grande riqueza fónica, ilustra a impermanência deste mundo e a simpatia exercida no poeta pelo budismo: “Deixá-la ir…”. Associada a este conceito, há também uma atracção pela morte: “Deixá-la ir, a vida!” Os exemplos partem de um ser, “a ave”, que se assemelha nessa situação “à nave” e à “alma” e ao seu canto trágico anunciando a morte: “…nota desprendida de um canto extremo”. 

Mas em 1880 escreve: “Recuei no caminho da negação absoluta em que estava precipitado.” [6]. Antero perseguiu sempre a metafísica, em todos os seu actos, influenciado sobretudo pelo filósofo alemão von Hartmann que desenvolveu a teoria do Inconsciente, antes da psicanálise; e também por Hegel, Kant, Schopenhauer. Em particular, interessou-se e traduziu os românticos alemães: Hölderlin, Lessing, Goethe… [1]. Agora, (…) “regressava ao sonho de um monge, perto da natureza, da simplicidade…o misticismo parecia-lhe corresponder à essência mais funda das coisas” [1].

“Já sossega, depois de tanta luta, / Já me descansa em paz o coração (…) // Não é no vasto mundo (…) que a alma sacia o seu desejo intenso… / Na esfera do invisível, do intangível (…) / Voa e paira o espírito impassível!” (in Transcendentalismo) [5]

Adeus, Santo Antero

A capa de “Sonetos”.

“… Portugal é um povo suicida: terra por fora risonha, e branda, por dentro atormentada e trágica” (M. Unamuno: “Por tierras de Portugal y España)  

Antero de Quental regressa à ilha de S. Miguel da sua infância para aí morrer. No ano em que se suicidou, em 1891, escreve ainda que a situação da vida portuguesa depois do Ultimato e da revolução republicana abortada em 1891 parecia-lhe gravíssima, para não dizer desesperada. [6] Surpreendentemente, ao despedir-se dele no barco, Oliveira Martins cai aos seus pés com uma síncope [6]. Anteriormente, Eça despede-se dele no Porto: Adeus, Santo Antero!”; – Velho amigo, adeus! [2].  

“Eu quisera ter na minha vida a história de um grande, de um real sacrifício.” [1]  

“Na mão de Deus, na sua mão direita / Descansou afinal meu coração / Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita… // Como criança em lôbrega jornada / Que a mãe leva ao colo agasalhada / E atravessa sorrindo vagamente // Selvas, mares, areias do deserto… // Dorme o teu sono, coração liberto / Dorme na mão de Deus eternamente!” [5] (in Na mão de Deus, último soneto publicado pelo poeta, entre 1880-1884). 


Notas

[1] José-Augusto França, O Romantismo em Portugal

[2] Eça de Queirós, Anthero de Quental, In Memoriam

[3] Victor de Sá, Antero de Quental

[4] Antero de Quental, Sonetos, compilação, prefácio e introdução de Oliveira Martins

[5] Antero de Quental, Sonetos

[6] António José Saraiva, A Tertúlia Ocidental.

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

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