Há frases de Jesus que parecem simples até ao dia em que nos atingem pessoalmente. «Não julgueis, para não serdes julgados» (Mt 7,1). Sempre a escutei como um apelo à tolerância. Mas, ao reler o texto com atenção, percebi que não se trata apenas de tolerância, trata-se de uma conversão do olhar.
«Porque vês o cisco que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu?» (Mt 7,3). É curioso como vemos com tanta nitidez as falhas alheias e, ao mesmo tempo, mantemos uma surpreendente cegueira quanto às nossas próprias. O cisco do outro parece-nos escandaloso; a nossa trave, quase invisível. Talvez porque julgar seja mais confortável do que examinar o próprio coração.

Monte das Bem-aventuranças, Israel. Foto © Peter vander Sluijs / wikimedia-Commons
Este ensino integra o chamado Sermão da Montanha (Mt 5-7), núcleo programático da ética do Reino. O paralelismo com Lucas 6,37-42 mostra que a tradição sobre esta palavra de Jesus circulava amplamente nas primeiras comunidades. No contexto do judaísmo do século I, o julgamento não era uma questão marginal. A Lei previa discernimento e responsabilidade moral. O próprio Jesus não elimina o juízo enquanto tal, pois fala de frutos bons e maus (Mt 7,16-20) e de decisões que revelam o coração humano. O que Jesus denuncia é outra coisa: o juízo que nasce da autossuficiência, não da humildade.
A imagem do cisco e da trave pertence ao estilo hiperbólico semita. A desproporção é intencional: a exagerada diferença de escala expõe a desproporção real entre a nossa severidade para com os outros e a indulgência para connosco próprios.
«Segundo a medida com que medirdes sereis medidos» (Mt 7,2). Esta frase introduz um princípio de reciprocidade que atravessa a Escritura. Não como intimação ou ameaça, mas como coerência espiritual e revelação: a forma como olhamos o outro molda também a forma como nos colocamos diante de Deus.
Este princípio é reforçado por uma das bem-aventuranças: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5,7). O Evangelho constrói assim uma lógica interna: quem vive segundo a misericórdia entra na dinâmica da misericórdia divina; quem vive segundo o julgamento rígido coloca-se sob essa mesma rigidez.
Julgar pode dar-nos uma sensação momentânea de superioridade. Mas fecha-nos à misericórdia. Quem vive permanentemente a medir os outros, acabará por viver sob a lógica da própria medida, e nenhuma medida humana é suficientemente ampla para abarcar a complexidade de uma vida.
Jesus não diz: “Ignorai o mal.” Diz: “Começa por ti.” «Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho» (Mt 7,5). O advérbio “primeiro” é decisivo. Não elimina a correção fraterna, mas estabelece a ordem: a purificação interior antecede qualquer intervenção sobre o outro.
A palavra «hipócrita» não designa apenas alguém moralmente incoerente; remete para o ator que representa um papel. O hipócrita julga a partir de uma máscara, como se estivesse fora da condição comum. Fala como se fosse juiz, esquecendo-se de que é igualmente réu. No entanto, a Escritura lembra-nos essa partilha universal da fragilidade: «Tu, que julgas, praticas as mesmas coisas» (Rm 2,1). Paulo retoma o mesmo princípio de coerência moral: ninguém está numa posição neutra ou superior.
Quantas vezes o julgamento serve para proteger a nossa própria vulnerabilidade? Ao sublinhar a falha alheia, desviamos a atenção da nossa. A crítica transforma-se em mecanismo de defesa. Mas o Evangelho desmonta essa estratégia. O texto não nos convida à passividade moral, mas à lucidez humilde. Não se trata de abdicar da verdade, mas de reconhecer que a verdade começa por nos atravessar. Talvez a pergunta que este texto nos coloca não seja: “Tenho o direito de julgar?” Mas antes: “Com que coração julgo?”
Vivemos num tempo em que o julgamento é quase instantâneo. Redes sociais, debates públicos, comentários rápidos, tudo favorece veredictos sumários. O Evangelho, porém, propõe uma pausa. Um silêncio. Um exame interior.
Antes de falar, olhar para dentro.
Antes de corrigir, examinar o coração.
Antes de medir, perguntar pela própria medida.
Não é um convite fácil. É uma disciplina espiritual. Exige humildade, mas também coragem. Porque reconhecer a própria trave é sempre mais exigente do que apontar o cisco alheio. E talvez seja precisamente aí que começa a verdadeira visão.
Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário.
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