Antiga sobrevivente do nazismo desafia extrema-direita nos 76 anos da libertação de Auschwitz e Papa alerta

| 28 Jan 21

Nazismo. Berlim. Memorial. Holocausto

Memorial Gleis 17 (Cais 17), junto à estação de S-Bahn de Grunewald, em Berlim. Daqui partiam muitos judeus para os campos de concentração ou extermínio. Foto © Helena Araújo

 

Sobrevivente do período nazi e antiga presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Charlotte Knobloch esteve nesta quarta-feira, 27, no Bundestag (Parlamento) alemão, na cerimónia que assinalou o Dia de Memória das Vítimas do Nazismo.

“Não podemos esquecer” a fragilidade da democracia e dos progressos já alcançados nas sociedades, afirmou, mas o ódio e o antissemitismo estão “em crescimento”, disse, e esse é um fenómeno que “toca o coração da sociedade”, afirmou.

Nascida em 1932 em Munique, como recorda Helena Araújo no blogue Dois Dedos de Conversa, Charlotte Knobloch contou aos deputados alemães alguns dos episódios de perseguição e violência de que foi vítima no período nazi.

Apresentando-se “como mãe, avó, bisavó, muniquense, bávara, alemã, europeia, judia, ser humano”, Charlotte Knobloch voltou-se, no final da sua intervenção, para os deputados da AfD (Alternativa pela Alemanha, extrema-direita) dizendo: “Não posso ignorar que me perturba o facto de estarem aqui sentados.” E acrescentou duas frases sublinhadas por aplausos dos restantes deputados: “Vocês vão continuar a lutar pela vossa Alemanha, e nós vamos continuar a lutar pela nossa Alemanha. Vocês perderam a vossa luta há 76 anos.”

(o vídeo do discurso pode ser visto a seguir, em alemão, com tradução simultânea em inglês)

 

Esta cerimónia de evocação da libertação de Auschwitz e das vítimas dos crimes nazis acontece no Parlamento alemão há 25 anos. Nela se têm sucedido, como convidados a fazer o discurso de memória, sobreviventes de Auschwitz ou líderes mundiais.

A Deutsche Welle (DW) recorda vários desses intervenientes que, ao longo dos anos, alertaram também, muitas vezes, para ameaças contemporâneas e para a possibilidade de situações como a da Shoah se repetir de novo.

Começando por definir do que se fala, a DW pergunta: “Genocídio: é esta a palavra apropriada para descrever o extermínio sistemático de seis milhões de judeus entre 1939 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial? Claramente, não. Em Israel, o maior crime contra a humanidade é designado Shoah e significa ‘catástrofe’ ou ‘grande infortúnio’. Fora do Estado judaico, que foi fundado em 1948, a maioria das pessoas fala em Holocausto. O termo, derivado do grego, significa ‘completamente consumido pelo fogo’.”

“A tentativa de colocar em palavras a violação de humanidade cometida pelos alemães será sempre um desafio”, acrescenta o artigo do canal de radiotelevisão. “Isso também se reflecte no nome oficial do Dia em Memória das Vítimas do Nacional-Socialismo, introduzido em 1996 pelo então Presidente alemão Roman Herzog. Ao lançar a data há 25 anos, Herzog explicou que chamá-las de ‘vítimas do Holocausto’ seria usar ‘um termo muito limitado, porque a política racial nazista afetou outras pessoas além dos judeus’.”

O dia 27 de Janeiro assinala a libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz pelos soldados soviéticos, em 1945. Em 1998, nesse mesmo dia, o historiador israelita Yehuda Bauer lembrou outros genocídios que marcaram o século XX: Ruanda (1994), Camboja (1975-79) e Arménia (1915-16), localizados em geografias concretas. Mas “o assassinato dos judeus foi universal, pensado mundialmente”, afirmou, alertando de novo para a possibilidade de tragédias semelhantes se repetirem. “E eu não sei dizer quem serão os judeus e quem serão os alemães da próxima vez.”

O primeiro sobrevivente de Auschwitz a falar na cerimónia do Bundestag foi Elie Wiesel, escritor romeno naturalizado americano, em 2000. Falo sem ódio nem amargura”, disse. “As minhas palavras humilhar-vos-ão? Como podem entender o culto ao ódio e à morte que reinou em seu país?” Afirmando não acreditar na culpa colectiva, avisou também para o perigo de querer arrumar o tema nas prateleiras do esquecimento: “Quem permite que a memória das vítimas seja obscurecida, mata-as pela segunda vez.”

 

Os avisos do Papa e as “pedras de tropeçar” em Lisboa
Nazismo. Berlim. Memorial. Holocausto

Stolpersteine (“pedras em que se tropeça”), memorial de vítimas do nazismo, na Zimmerstrasse, em Berlim Mitte. Foto © Berihert/Wikimedia Commons.

 

Também o Papa Fransicso se referiu à data, avisando contra “propostas ideológicas” que ameaçam a humanidade: “Tenham atenção, vejam como começou esta estrada de morte, de extermínio, de brutalidade”, disse Francisco, no final da audiência geral das quartas-feiras, transmitida por canais vídeo a partir da biblioteca do Palácio Apostólico.

“Evocamos as vítimas da Shoah e todas as pessoas perseguidas e deportadas pelo regime nazi”, referiu o Papa. “Recordar é uma expressão de humanidade. Recordar é um sinal de civilização. Recordar é condição para um futuro melhor, de paz e de fraternidade. Recordar é também estar atentos, porque estas coisas podem acontecer, de novo, começando por propostas ideológicas que querem salvar um povo e que acabam por destruir um povo e a humanidade”, acrescentou, citado pela Ecclesia.

Precisamente com a ideia de não apagar a memória, Luciano Waldman, activista da associação cultural Rua da Judiaria, quer trazer para Lisboa o projeto do artista alemão Gunter Demning visível em diversas cidades europeias que consiste na colocação no piso de pedras salientes com o nome e algumas outras referências de vítimas do nazismo.

Stolpersteine é o título em alemão daquela instalação urbana, o que em português se pode traduzir por “Pedras em que se Tropeça”. A notícia foi veiculada pelo Público, jornal a que Gunter Demning confirmou a recepção do pedido, mas recordou serem exigidos vários requisitos, confirmações e envolvimento das famílias das vítimas para se poder avançar para a concretização da ideia em Lisboa. (ligação disponível apenas para assinantes)

Num curto comunicado, o Presidente da República assinalou também a data, lembrando a “responsabilidade colectiva de recordar e agir na prevenção do ódio e da segregação”.

Ao mesmo tempo, Marcelo Rebelo de Sousa reafirmou também “o compromisso com o legado de Aristides de Sousa Mendes, mantendo-nos fiéis aos valores que a sua memória representa na defesa da dignidade da pessoa humana, no combate ao estigma e à discriminação racial ou religiosa”. O PR saudou ainda a edição especial do Diário da República Amarelo de dia 27, na versão em papel, como forma de homenager “todas as vítimas do Holocausto”.

 

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