Antissemitismo cresce em França

Interior da Sinagoga de Bordéus: os lugares e símbolos judaicos têm sido objeto de vandalismo e ataques vários; foto © Eduardo Jorge Madureira
“Tudo começou com algumas piadas de mau gosto sobre judeus acompanhadas de saudações nazis quando passavam por mim.” Foi assim que uma jovem estudante de medicina descreveu o horror que tem sido a sua vida no campus universitário desde o início do ano letivo, em outubro do ano passado. Em fevereiro deste ano, um cemitério judeu da Alsácia foi vandalizado por um grupo de anónimos que pintou suásticas e insultos em dezenas de campas.
O Presidente francês, Emmanuel Macronvisitou o local, declarando estar “totalmente determinado em combater todas as formas de antissemitismo”. Também a cidade de Estrasburgo foi testemunha de um ato de vandalismo, poucos dias depois. O alvo foi uma pedra memorial que assinalava o local da antiga sinagoga da cidade, incendiada por soldados nazis durante a Segunda Guerra Mundial.
Ao longo do mês de fevereiro, também se registaram vários incidentes em Paris e arredores. O retrato de rua de Simone Veil (sobrevivente do Holocausto, e antiga ministra e presidente do Parlamento Europeu) apareceu vandalizado, pintado com uma cruz suástica. Alguém escreveu a tinta a palavra juden (judeu, em alemão), na porta de um restaurante, propriedade de uma família judia. E as árvores que constituíam o monumento erigido em memória de Ilan Halimi, um jovem torturado e assassinado em 2006, foram cortadas durante a noite.
A palavra antissemitismo ganhou expressão no século XIX, apoiada na ideia de que todos os judeus são ricos e prósperos nos seus negócios, o que gerou ódio racial em certas camadas da população. Foi esta convicção, entre outros fatores, que conduziu Hitler ao genocídio deste povo. Desde aí, são poucos os que se atrevem a declarar-se abertamente antissemita. Contudo, isto não significa que o antissemitismo tenha desaparecido. A prová-lo está esta onda crescente de atos antissemitas em França que, só no ano passado, aumentou 74 por cento em relação ao ano anterior.
Também em fevereiro deste ano, o filósofo francês Alain Finkielkrautse viu obrigado a solicitar proteção policial quando um grupo de denominados “coletes amarelos” lhe dirigiu sucessivos insultos, acompanhados de sérias ameaças. “Senti um ódio profundo” descreveu, nesse mesmo dia, a um jornal francês. “Se a polícia não tivesse estado lá, tinha ficado verdadeiramente assustado.”
Muitas são as questões levantadas sobre a relação entre o aumento da violência contra os judeus e o movimento dos chamados “coletes amarelos”. Segundo declarações de Vincent Duclert, que investiga o antissemitismo em França numa das mais prestigiadas universidades francesas – a École des Hautes Études en Sciences Sociales– este é um problema grave. “Os ‘coletes amarelos’ não são, em si, um movimento antissemita. Mas, a cada sábado, nas manifestações, há uma grande quantidade de expressões antissemitas quer de elementos ligados à extrema-direita, quer de outros ligados à extrema-esquerda. O problema dos coletes amarelos – que começaram como um grupo de protesto contra o aumento de impostos sobre os combustíveis – está em não ter uma liderança forte e concreta. Desta forma, o grupo torna-se vulnerável a que qualquer outro grupo ideológico se aproprie do movimento para fazer passar as suas ideias.
Para dar voz à consternação com que a sociedade francesa tem vivido nestas últimas semanas, houve uma manifestação de protesto contra o antissemitismo, no dia 20 de fevereiro, em Paris, que reuniu figuras comoo primeiro-ministro, Édouard Philippe, a maioria dos membros do Governo e representantes de vinte partidos franceses. A iniciativa pretendia sensibilizar toda a população para este problema que, só no último mês, ultrapassou todos os limites num país que alberga a maior comunidade judaica da Europa, com cerca de 550 mil residentes.
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