Antologia das Escrituras Bahá’ís publicada pela primeira vez em Portugal

| 19 Jan 20

Graças ao trabalho de Marco Oliveira, e à sua paixão pela teologia, pela primeira vez fica disponível, em Portugal, uma publicação com excertos das escrituras bahá’ís. Terapia Divina foi o título escolhido para esta edição, que será apresentada neste domingo, 19 de Janeiro, às 17h30, no Clube Literário Chiado (Rua de Cascais, 57, Alcântara, em Lisboa).

 

Um livro em forma de terapia contra a divisão da humanidade? “Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio. Sê digno da confiança do teu próximo e dirige-lhe um olhar afectuoso e acolhedor. Sê um tesouro para o pobre, uma advertência para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade das tuas promessas. Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e a todos mostra brandura. Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão.”

Se tivesse de escolher um único texto daqueles que seleccionou das Escrituras Bahá’ís, Marco Oliveira optaria por este excerto das Escrituras de Bahá’u’llah, o fundador da fé bahá’í. As razões da escolha serão explicadas, ao longo deste texto, por este engenheiro informático de 56 anos. Casado e pai de dois rapazes adolescentes, Marco Oliveira define-se como apaixonado pela teologia e pelo diálogo inter-religioso. Colaborou já com o 7MARGENS em algumas ocasiões, escrevendo, por exemplo, sobre Báb, considerado o percursor na fé bahá’í, ou acerca do diálogo inter-religioso e das teologias pluralistas.

Graças ao trabalho de Marco Oliveira, e à sua paixão, pela primeira vez fica disponível, em Portugal, uma publicação com excertos das escrituras bahá’ís. Terapia Divina foi o título escolhido para esta edição, que será apresentada neste domingo, 19 de Janeiro, às 17h30, no Clube Literário Chiado (Rua de Cascais, 57, Alcântara, em Lisboa), por Paulo Mendes Pinto, responsável do curso de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

 

Profetas como médicos

‘Abdu’l-Bahá, filho de Bahá’u’llah, fotografado em Dublin (New Hampshire, Estados Unidos) em Julho 1912. Foto © Bahá’í Media bank

 

A explicação do título da obra foi Marco Oliveira buscá-la a um outro escrito de Bahá’u’llah (1817-1892): “Os Profetas de Deus devem ser vistos como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e dos seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida.”

Na introdução de Terapia Divina, Marco Oliveira escreve: “As dores que hoje afectam a humanidade são os sintomas de diversas doenças. Entre estas podemos destacar: diferenças profundas entre ricos e pobres; falta de acesso à educação e aos cuidados de saúde; materialismo desenfreado; poluição; alterações climáticas; guerras étnicas e religiosas; discriminações raciais e de género.”


Um antídoto contra a divisão, portanto: “Vivemos tempos não só de divisão, mas de crispação, uma sociedade cada vez mais crispada. Não estamos a ser capazes de falar das nossas diferenças com serenidade, seja no desporto, na política, na economia, na cultura ou na identidade”, diz Marco Oliveira ao 7MARGENS. “Não temos de existir necessariamente contra outros, temos de existir com outros, que não são necessariamente maus nem inimigos”, acrescenta.

O seu próprio percurso confirma-o nesta asserção: “Aprendi imenso sobre a fé bahá’í no curso de Ciências Religiosas, na Universidade Católica”, que frequentou durante três semestres – não pôde continuar por razões profissionais. E como é isso possível, se o que ali se ensina é teologia católica? “Aprendi a reflectir sobre as escrituras cristãs e esse processo de reflexão tem de ser levado para a comunidade bahá’í”, afirma.

“O bichinho da teologia ficou cá”, afirma, e o trajecto continuou, nos últimos quatro anos, com um curso à distância num instituto bahá’í dos Estados Unidos. Onde aprendeu também a ler os Salmos da Bíblia, a oração do Pai Nosso ou os Dez Mandamentos cristãos numa perspectiva bahá’í.

 

“Semelhante à sarça ardente de Moisés”

Santuário do Báb, em Haifa (Israel): a fé bahá’í surgiu na Pérsia (actual Irão), num contexto de “expectativas messiânicas”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Nelson Évora, campeão olímpico do triplo salto em Pequim (2008) e medalha de ouro nos Europeus de Atletismo em Berlim (2018) professa a fé bahá’í e a sua vitória nas Olimpíadas da China foi uma das raras ocasiões em que se falou deste credo que, em Portugal, é professado por cerca de três mil pessoas – entre os cinco milhões em todo o mundo.

Uma vez por outra, também se fala da perseguição a bahá’ís no Irão – ironicamente, o país de Báb (1819-1850) e Bahá’u’llah, onde esta fé quase sempre oscilou entre épocas “de perseguição e de grande perseguição”, como refere Marco Oliveira. “Nunca houve época sem perseguição” e mesmo actos como comprar um edifício para sede nacional ou um talhão para cemitério levantou sempre problemas e teve de ser feito em nome individual. Actualmente, há uma centena de bahá’ís presos. “Quem dá nas vistas, em universidades, negócios ou noutro âmbito”, acaba por ser sujeito a perseguições.

Trata-se, portanto, de um universo religioso pouco conhecido em Portugal. Por isso, Terapia Divina está organizado como uma obra que introduz também os eventuais interessados nos elementos essenciais da fé bahá’í. Na introdução, Marco Oliveira explica as suas razões para o livro e o que são as escrituras bahá’ís e apresenta curtas biografias de Báb, Bahá’u’llah e do seu filho, ‘Abdul’l-Bahá, que herdou a missão do seu pai e deu um impulso de divulgação à fé bahá’í para fora da região do Médio Oriente.

Monoteísta, a fé bahá’í considera que “todas as grandes religiões mundiais têm a mesma origem divina”. As suas escrituras, entretanto, assumem todos os livros e epístolas escritas, bem como as palestras proferidas pelas suas três figuras centrais. Cujos percursos foram, também eles, marcados pela perseguição: Báb, nascido como Siyyid ‘Ali-Muhammad, num contexto de “expectativas messiânicas”, apelou à regeneração social e começou a ser perseguido.

O clero xiita e as autoridades iranianas consideraram a nova religião como subversiva, Báb foi preso e condenado à morte e muitos dos seus seguidores condenados à morte. Acabou fuzilado, após uma primeira tentativa falhada, em que ele teria desaparecido do local, de acordo com registos de ocidentais nessa altura presentes na Pérsia.

Bahá’u’llah, que Báb reconhecera como novo enviado de Deus, teve uma revelação divina quando estava preso numa masmorra conhecida como “fosso negro”, em Teerão. “Uma experiência mística semelhante à sarça ardente de Moisés, difícil de compreender”, difícil de compreender, diz Marco Oliveira. Preso, condenado a vários exílios (Iraque, Turquia, Grécia, Egipto e Palestina), acabou por morrer em Acre. Antes, deixara, por exemplo, muitas cartas escritas a dirigentes mundiais, nas quais apelava à redução de armamentos e á construção de uma comunidade de nações que garantisse a paz.

 

Não ao sincretismo, não ao exclusivismo

As montanhas onde Bahá’u’lláh esteve, junto a Sulaymaniyyih (Suleimânia), no norte do Iraque. Foto © Bahá’í Media Bank

 

Em seis capítulos, apresentam-se depois textos dos três iniciadores da fé bahá’í sobre Deus, a religião, a sociedade global, os ensinamentos éticos e sociais, a espiritualidade e, ainda, algumas orações.

Ideias como a unidade humana, a preocupação ética ou a universalidade, bem como referências ao islão, judaísmo e cristianismo estão muito presentes. E nesta tradição, os grandes profetas ou iniciadores de outras religiões – Krishna, Buda, Abraão, Moisés, Zoroastro, Cristo ou Maomé – são valorizados e reconhecidos no conjunto dos seus ensinamentos: “a veneração a Deus (ou a uma Realidade Transcendente, a crença numa forma de existência após a morte, o amor ao próximo, a oração, o respeito pelos pais e a família, a protecção aos mais vulneráveis”, escreve o autor.

Estes elementos levam muitas pessoas a pensar que a fé bahá’í é uma espécie de sincretismo religioso, ou religião unificadora. “Não somos nenhum sincretismo nem uma mistura de outras crenças”, afirma Marco Oliveira. “Aceitamos a unidade, mas não se misturam os diferentes credos”, afirma. E, se a leitura dos excertos pode remeter para o universo simbólico do islão, o autor desta antologia diz que isso é natural: “O cristianismo nasceu do judaísmo e a fé bahá’í nasceu num contexto islâmico, é normal, que haja textos com um estilo claramente islâmico.”

Marco Oliveira concorda que o exclusivismo religioso é um desafio fundamental: “É difícil perceber que as convicções de alguém possam ter o mesmo valor das nossas”, admite. “Mas, se todos tivemos bons professores, devemos reconhecer também a experiência dos outros e permitir que ela nos enriqueça, sem perder a nossa identidade nem fazer um qualquer sincretismo universal.”

Na introdução do livro, aliás, chama a atenção para as contradições “evidentes” do exclusivismo religioso. Entre elas, pergunta: “Como pode Deus ser criador de toda a humanidade e dar-Se a conhecer apenas a um grupo restrito e num pequeno momento da história da humanidade?”

 

“Sê um adorno na face da verdade”

Santuário do Báb, em Haifa (Israel), junto do qual se encontra a Casa Universal de Justiça, o corpo governante da fé bahá’í: “Sê um estandarte das hostes da justiça”, escreveu Bahá’u’llah. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A ideia da tradução e antologia nasceu há uns cinco anos, quando Marco Oliveira estava a traduzir um texto para o seu blogue, Povo de Bahá. “Foi uma ideia e iniciativa minha, mas era já uma ambição dos bahá’ís portugueses. O problema é que não havia dinheiro nem pessoas com capacidade para fazer esse trabalho”, explica.

Aproveitou vários outros textos que já traduzira ao longo de anos e lançou-se ao trabalho. Agora, quem queira aceder a alguns textos e conhecer um pouco mais sobre a fé bahá’í, já terá um livro acessível nas livrarias.

O excerto escolhido por Marco Oliveira e referido no início conclui, dizendo assim: “Que a integridade e a rectidão marquem todos os teus actos. Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, uma fortaleza para o fugitivo. Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem. Sê um adorno na face da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma jóia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento da tua geração; um fruto na árvore da humanidade.”

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