O António Barbedo de Magalhães (a quem a partir de agora chamarei António) partiu e deixou-nos bem ricos com o peso da sua profunda e infindável obra. Bem hajas, António.
Conheci-o em 1961, quando ambos entramos na Universidade do Porto, ele na Faculdade de Engenharia e eu na Faculdade de Economia. Os nossos primeiros encontros verificaram-se nos corredores da Juventude Universitária Católica (JUC) e foi a partir daí que se desenvolveram as nossas cumplicidades.
O seu grande empenhamento e porventura o mais conhecido foi com a Causa de Timor, mas o seu esgravatar multifacetado estendia-se a muitas outras áreas desde que lá estivessem presentes os valores da justiça e da liberdade. Apesar disso, nunca descurou a importância de ser um aluno de excelência.
Era o penúltimo filho de uma irmandade de sete e com muita afetividade tratado a maioria das vezes por Toninho. Por razões várias a minha vida e a dele vieram a encontrar caminhos comuns que ainda hoje permanecem.
Durante a permanência na universidade moldamos as nossas consciências e enraizamentos em torno dos grandes debates da Igreja, do Concílio Vaticano II, das lutas que atravessavam o rasgar das roupagens e grilhetas da ditadura, bem como do trabalho de tecelagem dos movimentos associativos dos estudantes.
Como aluno brilhante que era, aos seus professores não escapou o incentivo que deveria receber para preparar o doutoramento em engenharia mecânica. Foi para Gent, na Bélgica. Eu, mais ou menos na mesma altura, fui para Paris fazer estudos de pós-graduação em economia do desenvolvimento no Instituto criado por François Perroux. Verdade seja dita que por trás destes envolvimentos estava uma recusa disfarçada da guerra colonial.
O Tónio em Gent e eu em Paris fomo-nos contactando com regularidade trocando o conhecimento do que andávamos a fazer com as nossas vidas. Entretanto nasceu o seu primeiro filho, o Samú. Eu e a Fátima tivemos a alegria de ser convidados para seus padrinhos. Fomos a Gent e aí num ambiente familiar de exceção festejamos o batizado.
Algum tempo depois regressamos à “mãe-pátria”. O Tónio para a Faculdade de Engenharia e eu para o ISCEF, hoje ISEG e começamos a trilhar caminhos um pouco mais distanciados. Ele foi, entretanto, mobilizado para Timor onde se dedicou de alma e coração à construção e independência da nação timorense. A descrição deste seu grande empenhamento fê-lo, há dias, no 7MARGENS e melhor que ninguém a Luísa Teotónio Pereira.
Eu permaneci fora das lides militares mais algum tempo, embora envolvido em “outras guerras”. Depois do 25 de abril fomos permanecendo, sempre, em contacto um com o outro, embora a distância física que nos separava nos levasse a que o nosso diálogo passasse a ser menos frequente.
O Tónio partiu, mas ficou connosco a sua memória, as memórias que a obra resultado da indomável força da sua vontade nos deixou. Obrigado, António.
Manuel Brandão Alves é professor catedrático (aposentado) do ISEG, Universidade de Lisboa.










