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António Lobo Antunes, escritor, Literatura
António Lobo Antunes (1943-2026) em Frankfurt am Main (Alemanha), em 20 de Outubro 2005. Foto © Peter Peitsch / peitschphoto.com, cedida por Publicações Dom Quixote.

A morte aos 83 anos (1943-2026)

António Lobo Antunes: escritor-poeta, zangado com Deus, necessitado de Deus

| 05/03/2026

Partiu finalmente o nosso escritor-poeta. Digo “finalmente” porque a mente já tinha partido, agora foi o corpo, para que ele ficasse na liberdade total. Sim, porque António Lobo Antunes (1943-2026) era um homem livre. Era, como disse uma amiga minha, um “caçador de palavras”, um escritor permanentemente insatisfeito com a sua escrita. Numa entrevista ao Diário de Notícias (2/10/2011), António Lobo Antunes revelou a humildade com que abordava a escrita: “Tenho sempre medo de desiludir as pessoas e, sobretudo, de me desiludir a mim mesmo.” Isabel Lucas (Público, 5/03/26) refere que ele jogava “com cinco ou seis vozes diferentes”, chamando-lhes uma “polifonia da narrativa”.

António Lobo Antunes é (era) um lisboeta de gema, nado e criado em Benfica, o mais velho de uma família de cinco irmãos, médico psiquiatra que “abandonou” a psiquiatria para se dedicar à literatura. A sua formação como médico determinou muito cedo aquilo que escreveu: veja-se a Memória de Elefante (1979) sobre a vida num hospital psiquiátrico.

Explicava ele: “A formação em psiquiatria é uma aprendizagem técnica, um exercício de lucidez e rigor. Ela deu-me um raciocínio diferente, uma maneira particular e talvez mais aguda de encarar o mundo. […] Além disso, a psiquiatria dá-nos um contacto intenso com o sofrimento e a morte. Isso enriqueceu-me e fez-me ver que poucas coisas realmente valem a pena nesta vida. Ela ajudou-me também a ver como relativos o sucesso e o insucesso. É claro que a literatura é importante, mas existem coisas muito mais importantes.”

Terno e frágil, António refere-se ao avô como uma personagem determinante na sua infância e juventude. A sua família possuía uma casa de férias em Nelas evocando-a nos seus livros, sempre em interação com o relacionamento privilegiado com o avô: “Ainda hoje não passo uma semana sem que o lembre, em que nitidamente o vejo, as mãos, o sorriso, o olhar, a voz. Era monárquico, católico, conservador, salazarista. Achava o facto de eu escrever uma mariquice pegada…”:

Lobo Antunes afirma que a sua escrita fala nas “feridas da alma e na depressão que nos habita: “Sempre imaginei que um livro resgatava tudo: não resgata. E no entanto continuo a escrever, como se esse acto contivesse em si a minha salvação. Sei bem que chegará um tempo em que apenas os livros hão-de contar porque eu, enquanto pessoa, não tenho importância alguma, às vezes nem para mim mesmo. Vou-me olhando de forma cada vez mais distanciada e sem indulgência. (…) Sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê.”

 

Ousar escrever sobre a guerra colonial

António Lobo Antunes, escritor, Literatura

António Lobo Antunes esteve 27 meses em Angola a fazer a guerra colonial; mais tarde, seria um dos primeiros a escrever sobre ela. Foto: Direitos reservados.

António Lobo Antunes foi um dos primeiros escritores portugueses que ousou escrever sobre a guerra colonial, onde esteve entre 1971-73 (em Angola, 27 meses). Durante anos reunia-se regularmente com os seus parceiros na guerra de Angola, o pelotão de que cuidou enquanto médico, sob a proteção de Melo Antunes, à altura comandante do batalhão, para quem o objetivo fundamental era levar todos os “seus” homens sãos e salvos “de volta a casa”. A guerra colonial foi marcante, direi definitiva na sua obra. Li Os Cus de Judas (1979) logo que foi publicado e fui profundamente interpelada pela lucidez crítica e pela revolta contra essa guerra inútil. José Manuel Pureza afirma que António Lobo Antunes “conseguiu com honestidade crua denunciar a brutalidade da guerra colonial, mas também dar a conhecer recantos escondidos da humanidade. Perdemos todos com a sua morte”.

O tema da guerra colonial continuou a “assombrar” muito do que escreveu, regressando novamente a ele no seu último livro, Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água (2017): “Drogaram-nos a comida, ficámos meio alucinados. No barco, havia uns que choravam, outros que gritavam pela mãe, outros que queriam atirar-se ao mar. Quando chegámos ao cais de Luanda, junto à baía, havia altifalantes por todo o lado dos quais saía uma voz ameaçadora que dizia em surdina: ‘Angola. É nossa. Angola. É nossa’. Aquilo metia medo.”

As crónicas de Lobo Antunes na revista Visão tornaram-se conhecidas pela profunda humanidade e melancolia, eivada pelo inteligente sentido de humor de um homem angustiado, numa imensa ternura pela família, pelas pessoas, pelos lugares. Publicou 29 romances e cinco volumes com as suas crónicas; suas cartas de guerra dirigidas à mulher foram publicadas pelas filhas e deram origem a um filme (Cartas de Guerra, de Ivo Ferreira).

Considerava que tinha poucos amigos, mas sabemos de José Cardoso Pires, Daniel Sampaio, Nelson de Matos, Mariane Eyre e Ernesto Melo Antunes. Foi reconhecido nacional e internacionalmente como um dos grandes escritores dos tempos de hoje. Recebeu, entre outros, o prémio Camões (2007), o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1985), o prémio Melhor Livro Estrangeiro publicado em França (1997), o Prémio União Latina, (2003, o prémio Rosalía de Castro. Recebeu ainda diversas condecorações: Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, Grã-Cruz da Ordem Camões, Ordem das Artes e Letras, etc. Foi um eterno candidato ao Nobel da Literatura. Mas era avesso a homenagens, entrevistas (apesar das muitas que deu), sessões de lançamento dos seus livros.

 

“Necessito tanto que Deus se preocupe comigo…”

António Lobo Antunes, escritor, Literatura

“Há alturas em que necessito tanto que Deus se preocupe comigo…” Foto: Direitos reservados.

Deus, para António Lobo Antunes, é uma presença imanente a tudo. Desabafa: “Há alturas em que necessito tanto que Deus se preocupe comigo…” Tinha um espírito “naturalmente religioso” e via a fé como uma certeza natural. A sua visão não estava ligada a esta ou aquela igreja, mas sim a uma compreensão pessoal e direta: a escrita sobre a condição humana, a dor, o envelhecimento e a morte cruzam-se com a sua visão de “uma espiritualidade sentida e profunda”.

Numa das suas poucas entrevistas afirma que “a minha relação com Deus tem sido sempre tumultuosa, cheia de desacordos e discussões: longos períodos em que me afasto, alturas em que me aproximo, amuos, quase insultos, discussões. Creio firmemente que, nos livros que escrevo, é Ele que guia a minha mão e não passo de um instrumento da Sua vontade” (…).

Esta afirmação é a de um homem que fez de Deus o centro da sua vida: “É Ele que guia a minha mão quando escrevo”. Descreve: “quantas vezes me vem à cabeça aquele pequenino poema de Sebastião da Gama: ‘A corda tensa que eu sou/ o Senhor Deus é quem/ a faz vibrar (…) ai linda longa melodia imensa/ pelos dedos passa Deus e então /já sou apenas som/ e ninguém se lembra mais da corda tensa’. É que não escrevo assim tão bem, trabalho sem plano e quase me limito a assistir ao que vai ficando no papel. O meu único mérito é fuçar o dia todo, até ser apenas som”.

Explica que a sua escrita é um diálogo com Deus nem sempre harmonioso: “Componho [os meus livros] numa espécie de febre, no fundo de um abismo em que me perco, cego e surdo, não resultam nunca de uma deliberação mental, um propósito, um plano definido…  há alturas em que o sinto [Deus] tão fortemente em mim, alturas em que o sei tão longe. Os meus livros são isso: as lágrimas daquele homem, os passos daquela mulher. No caso de se aproximarem mais das páginas é o que realmente verão, em lugar de palavras impressas. E talvez vejam também o cretino [eu] a espreitar, comovido, pelas grades da porta”.

“É claro que eu me zango com Deus, é uma relação de zanga também porque Ele permite sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não consigo atingir. O sofrimento sempre me foi incompreensível e acho que, como disse há pouco, nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa e não estou a falar de igrejas, mas de Deus. Não acredito quando as pessoas me dizem que são agnósticas ou ateias! Não acredito nisso; não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela, em qualquer ponto, há algo. Uma vez perguntaram ao Hemingway se ele acreditava em Deus e a resposta foi: “Às vezes, à noite” (entrevista, 20 de outubro de 2009).

 

“Morrer é quando há um espaço a mais na mesa”

António Lobo Antunes, escritor, Literatura

António Lobo Antunes (1943-2026) em Frankfurt am Main (Alemanha), em 20 de Outubro 2005. Foto © Peter Peitsch / peitschphoto.com, cedida por Publicações Dom Quixote.

Citado por Alfredo José Teixeira, Lobo Antunes entendia a morte de uma forma muito bela e aparentemente simples: “Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar; percebe-se o desconforto da ausência porque o quadro mais à esquerda e o aparador mais longe, sobretudo o quadro mais à esquerda e o buraco do primeiro prego, em que a moldura não se fixou, à vista, fala-se de maneira diferente esperando uma voz que não chega, come-se de maneira diferente, deixando uma porção na travessa de que ninguém se serve, os cotovelos vizinhos deixam de impedir os nossos e faz-nos falta que impeçam os nossos.”

No dia da morte, o Expresso relembra as suas palavras: “É muito curioso, os nossos mortos continuam a mudar dentro de nós. Continuam a dialogar e a inquirir-nos. Depois finalmente há uma altura em que ficamos em paz, se conseguirmos”.

Amigo António, que continues a dialogar e inquirir connosco. Que nos desinstales e questiones ainda que experimentemos mais longe e solidão. Queremos ficar em paz contigo: mas que não mude a ternura e fragilidade imensas, a compaixão. Que tenhamos aprendido a não ter medo de “olhar o nosso espelho interior”. Que não tenhamos pudor em chamar “mãe!” quando estamos aflitos. Ou Deus.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)

 

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