Pré-publicação

António Paes Godinho, um bispo heterodoxo no Portugal joanino

| 1 Mai 2024

A capa do livro Parecer e Ser.

A capa do livro Parecer e Ser.

Nomeado em 1716 para bispo da Diocese de Nanquim (capital da província de Jiangsu, no leste litoral da China), António Paes Godinho nunca exerceu o cargo, por causa do difícil relacionamento entre a China e a Santa Sé, com Portugal e França de permeio, na sequência da Querela do Ritos. Em 1720, renunciou ao bispado e tornou ao Alentejo onde se fez provisor da Arquidiocese de Lisboa Oriental, integrando o Conselho do Rei. Em 1730 sagrou a basílica de Mafra. Livre, a seu pedido, de tarefas da corte, regressou ao Alentejo e na quinta de Olhos Bolidos, em Santiago do Cacém, estabeleceu um jardim, recheado de espécies exóticas e com uma casa de fresco, a «chinesa». Acabou por fazer vir o Oriente às terras de Cacém onde acolheu seminaristas chineses e fomentou a introdução da «laranja-da-china». 

Filho de lavradores, nascido em 1668 em Santa Luzia (Garvão, hoje município de Ourique), Paes Godinho era licenciado e mestre pela Universidade de Évora, tendo continuado os estudos, já presbítero, na de Coimbra. Voltou à Arquidiocese de Évora como cura em Alvito e, depois, como confessor e vigário do mosteiro de Jesus, em Viana do Alentejo. Passou os últimos anos nas suas «casas nobres» de Viana, a localidade, de todas aquelas em que viveu, que mais estimou e onde viria a morrer em 1752, com fama de santidade, não sem ter tido de enfrentar a sanha persecutória da Inquisição, devido ao seu perfil espiritual e humanista, pouco afim às práticas do alto clero da época. Em causa, estava o facto de ser «membro destacado de um movimento espiritual radical, profundamente reformador, a Jacobeia, que assumiu as rédeas do poder no tempo de D. João V e foi depois objecto de perseguição por parte do Marquês de Pombal», como refere o autor do livro Parecer e Ser: Excursus Vital de D. António Paes Godinho, Bispo de Nanquim (ed. Associação Orik),o historiador José António Falcão. 

O livro será apresentado no próximo sábado, 4 de Maio, às 16h, na Biblioteca de Ourique, por Vítor Encarnação, escritor, professor do ensino secundário, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas e envolvido em múltiplas actividades de dinamização cultural local. Será seguida, depois, de uma visita pelo centro histórico da vila.

O 7MARGENS apresenta aqui, em pré-publicação, um excerto do livro. 

Bispo de uma terra sempre distante, perseguido pela Inquisição

Nanquim nos inícios do século XVIII (gravura da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra). Direitos reservados.

Nanquim nos inícios do século XVIII (gravura da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra). Direitos reservados.

O percurso realizado em torno do 3.º bispo de Nanquim, tendo como principais referências dois testemunhos inéditos a seu respeito, o Memorial do que pertense às noticias do Exm.o e R.mo Snr. D. Antonio Paes Godinho, escrito a seguir à sua morte, em 1752, e o Nobiliário das Famílias do Santiago do Cacém, posterior cerca de um quarto de século, ainda que baseado nas recordações de quem o conheceu de perto, levou-nos a esboçar uma panorâmica da vida e da actividade de um prelado que ocupou posição destacada no Portugal do tempo de D. João V […]. Foi possível, assim, considerar sob novas perspectivas, à luz dos documentos da época, uma figura, para muitos quase mítica, cuja aura permanece viva, de forma mais ou menos difusa, no imaginário alentejano […].

Nos escritos agora divulgados ressaltam, logo à cabeça, as origens rurais de D. António Paes Godinho, nascido em Santa Luzia, freguesia do antigo concelho de Garvão, e a extracção do meio de que irrompeu, dentro de uma família de pequeno/médios proprietários agrícolas, esparsa pelo Alentejo meridional, viveiro de vocações para a Igreja saída da Reforma Católica. Seguem-se alusões ao trajecto académico, em que avultam os estudos preliminares em Alvito, a formação na Universidade de Évora, alma mater de grande parte do clero alentejano, e a frequência episódica da Universidade de Coimbra, porta de acesso aos círculos do poder. Não faltam também referências aos primórdios da carreira eclesiástica, em Alvito e Viana do Alentejo, terras onde deu provas de qualidades pastorais e de não menor aptidão como orador – e que foram a sua plataforma de lançamento para o episcopado.

Se já reconhecemos, em tudo isso, traços característicos do ambiente religioso da época, a nomeação como bispo de Nanquim, no ano de 1717, confirma a tendência para as mitras ultramarinas serem providas em “quadros” não oriundos da alta nobreza, ao contrário da linha preponderante quanto às dioceses do Reino. Neste âmbito, a escolha de Paes Godinho cabe dentro da norma, mas chama a atenção o facto de pertencer ao clero secular, não ao regular, do qual saiu grande parte dos bispos missionários do Além-Mar. A particularidade ter-se-á ficado a dever a uma fase marcada pela oposição entre membros de ordens e institutos religiosos, num quadro de relações diplomáticas bastante complexas da Santa Sé com a China, o que afectou sobremaneira a acção do Padroado Português do Oriente.

Tendo recebido a sagração, em 1718, foi destinado por Clemente XII, após um tempo de preparação, a seguir com o cardeal Mezzabarba, que largou de Lisboa, em 1720, em direcção a Macau, para reorganizar a missionação no Império do Meio. Apesar de esta ordem vir do próprio papa, D. António não pôde deixar Portugal. Nem agora, nem nas outras três vezes que, ao longo dos anos seguintes, fez todos os preparativos para viajar. Os motivos alegados (problemas de saúde, escassez de bispos no Reino) terão influído nisso, mas a verdadeira razão que o impediu de alcançar a sua apartada diocese residiria, objectivamente, nas sucessivas divergências, provindas da querela dos Ritos Sínicos, em relação à presença cristã em solo chinês. Daí surgiram efeitos colaterais para a actividade política, económica e religiosa do nosso país, demorando a aceitação dos novos bispos pelo imperador Kangxi. Ao confirmar-se a impossibilidade de exercer localmente a cátedra, apresentou a resignação, mas só em 1721 foi liberto do cargo e pôde deixar a corte. Juntou-se, então, ao irmão e à restante família em Santiago do Cacém, onde ficou a morar.

Trabalhos agrícolas na Quinta de Olhos Bolidos, Santiago do Cacém, c. 1900. À esquerda, a casa de regalo, dita “chinesa”; do outro lado, o tanque de cima. Foto © José Benedito Hidalgo de Vilhena, cedida pelo autor do livro.

Trabalhos agrícolas na Quinta de Olhos Bolidos, Santiago do Cacém, c. 1900. À esquerda, a casa de regalo, dita “chinesa”; do outro lado, o tanque de cima. Foto © José Benedito Hidalgo de Vilhena, cedida pelo autor do livro.

A situação de um bispo com “honra”, mas sem “exercício”, não tinha nada de original, revelando-se até útil à estratégia de engrandecimento da Igreja Portuguesa levada a cabo por D. João V. Perante a insuficiência de quadros do alto clero, tal disponibilidade constituía uma mais-valia: podia integrar uma “reserva” dentro do corpo episcopal. Em 1727, por indicação do poderoso cardeal D. José Pereira de Lacerda, bispo do Algarve, ministrou os sacramentos do Crisma e da Ordem nesta diocese. Aqui se encontrava quando o Cabido da Sé de Lisboa Oriental, cuja arquidiocese estava vacante desde a criação do Patriarcado de Lisboa Ocidental, o escolhesse para provisor e governador da mesma – algo que o rei, que distinguia Paes Godinho com o seu favor, viu com bons olhos. Exerceu essas funções durante três anos, a par das de membro do Conselho do Rei, o que implicava a assistência à corte. Assim, fez parte do restrito número de prelados que participaram na sagração da basílica mafrense, em 1730.

Não obstante se aventar o seu nome para bispo residencial de dioceses que iam, entretanto, vagando na metrópole, D. António escusou-se a tal e, quando foi autorizado a fazê-lo, trocou de novo Lisboa pelo Alentejo, onde continuou disponível para, de modo pontual, assumir pontualmente tarefas próprias do múnus episcopal. […] O desinteresse em ascender à divisão da frente do episcopado constitui um traço revelador de uma personalidade singular, que as fontes agora publicadas ajudam a entrever. Circunspecção, modéstia, brandura, paciência, amor ao próximo, singeleza, desapego dos bens materiais, entre outras qualidades evidenciadas pelo religioso, são características que, tal como a piedade de que deu bastas provas, maravilharam os seus contemporâneos, incluindo o monarca. Traços reveladores de intensa espiritualidade, contribuíram para dar-lhe fama de santo varão e predestinado. 

Hoje, vemo-nos impelidos a reconhecer, nestas e noutras manifestações, a influência da Jacobeia, que tanto peso adquiriu em diversos sectores da sociedade joanina, com reflexos nas principais instituições portuguesas. O bispo, que se cruzou com figuras destacadas do movimento em Coimbra e, antes disso, provavelmente em Évora, tê-lo-á não só eleito como “método de vida”, mas também difundido nos círculos e actividades a que esteve ligado. Será esta uma explicação para a “Escada de Jacob” existente no mosteiro vienense de Jesus e cujo sentido a inscrição nela aposta torna assaz notório – realçando o seu grande interesse para a História do Pensamento Religioso em Portugal no século XVIII. Que o nome de Paes Godinho não conste das listas dos jacobeus conhecidos, torna ainda mais aliciante a investigação, agora em aberto, sobre o tema.

Perto do final da vida e a braços com problemas de saúde, D. António teve que responder a uma dificuldade séria, para cuja origem contribuíra, e que envolveu um dilecto parente, hóspede em sua casa, Fr. José de Beringel, orador famoso. Instado por ele a pregar a missão em Viana, numa quadra nada propícia – a das festas de Nossa Senhora de Aires –, o frade defrontou elementos da sociedade local, mormente clérigos e, até, parte da comunidade do mosteiro de Jesus. Isto valeu-lhe a denúncia ao Santo Ofício de Évora, por defender teses supostamente heréticas, as quais vemos alinhadas com o ideário reformador jacobeu. […] Sinais de uma fase crepuscular do reinado do Magnânimo, em que a influência de Fr. Gaspar da Encarnação decrescera consideravelmente e outros poderes se encarniçavam contra os defensores da reforma.

Túmulo de D. António Paes Godinho na igreja matriz de Viana do Alentejo. Fotografia © Carlos Marques, cedida pelo autor do livro. 

Túmulo de D. António Paes Godinho na igreja matriz de Viana do Alentejo. Fotografia © Carlos Marques, cedida pelo autor do livro.

Tanto o Memorial como o Nobiliário, a par de outros documentos elencados, permitem igualmente observar a profunda ligação do antigo bispo de Nanquim ao território alentejano, do qual não se quis desapegar, assim como fez questão de evocar a sua ascendência (quase) humilde. Um fenómeno inseparável, sublinhámo-lo, do papel que desempenhou no acompanhamento e na promoção da família, algo retribuído por alguns dos seus membros, há que assinalá-lo, em termos bastante gratos. Deste modo, se a Santa Luzia natal, lado a lado com a fronteira Vale de Santiago, configuraram, essencialmente, pontos de partida, o mesmo sucedendo, em certa medida, com Alvito, já as permanências em Viana do Alentejo e Santiago do Cacém foram etapas marcantes na vida do religioso. 

Acabou por ser em Santiago […] que essa memória, afinal, continuou mais viva: aqui perduram […] as “casas nobres” do prelado, abrindo para a artéria que ficaria a chamar-se Rua do Bispo; e a vicejante Quinta de Olhos Belidos, referência-chave do património cultural e natural do concelho. Não ficaram esquecidos, ainda, episódios em que participou, uns bem documentados, como a procissão do Santo Lenho, para implorar à misericórdia divina a chuva indispensável à subsistência das populações, ou o baptismo de um sino da antiga torre da igreja matriz, outros apenas conservados pela traditio oral, como a introdução da laranja-da-china nas quintas de Escatelares ou o acolhimento de seminaristas chineses na residência da Rua do Bispo. […]

 

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