António, um rapaz de Lisboa. Roteiro para uma peregrinação popular

| 15 Jun 19

A igreja onde vão celebrar de propósito ou a capela a que ninguém liga. Um painel numa estação ou uma escultura num hospital, a capital guarda locais improváveis de memória do rapaz de Lisboa.

Faltam minutos para as nove da manhã e já o ritmo vai acelerado naquele pedaço de Lisboa, um dos recantos da cidade tomado de assalto por turistas de todo o mundo, que chegam em autocarros, tuk-tuks, táxis e algumas bicicletas e mais uma trotineta, por entre quem anda na vidinha do costume. É o retrato da Lisboa que todos querem ver – e há uns quantos que ali vão de propósito. Querem ir, querem entrar na “casa do santo”.

Estamos junto à Sé Patriarcal, o tal recanto antigo da capital, na Igreja de Santo António, em Lisboa, o primeiro ponto de paragem obrigatória de um roteiro de António por Lisboa, e há um intenso formigueiro de gente que sobe as escadas do templo. Ouve-se italiano, sussurra-se francês, há um casal americano e outros alemães.

No altar-mor há uma mulher que cuida da limpeza, um balde de água verde e a vassoura, e num dos altares laterais é um homem que trata de pequenos arranjos, empoleirado num escadote. “Ai, a ferrugem”, ouve-se a meia voz, mas não há quem lhe preste atenção. Ou à mulher lá em cima.

Uma funcionária limpando o interior da Igreja de Santo António Foto © Miguel Marujo

 

É aqui que vêm muitos devotos do franciscano, que terá nascido neste local em 1195, no dia 15 de agosto – as contradições sobre o seu nascimento são muitas e apesar de comummente ser esta a data apontada, há quem defenda que Fernando de Bulhões, assim se chamava, nasceu em 1191 ou mesmo em 1188, na Rua das Pedras Negras, que hoje tem o nome de Santo António da Sé. Na igreja, que é propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, a informação é assertiva: “Aqui nasceu Santo António” – e as setas indicam-nos o caminho para a cripta em dez línguas. À cripta, há quem chegue bem cedo, logo pela hora da abertura, para rezar, “conversar com o santo”, conta Pedro Ferreira, que zela pela igreja. “Pedem para estar uns cinco minutos.” Outros apressam-se mais, perante o pequeno altar separado dos fiéis por uma grade. Em cima, uma placa diz que “nesta Casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa morada do Céu”.

Um italiano ensaia-se a ler esta frase em português. “Ah, é a sua casa”, diz para uma mulher. Benze-se apressadamente e sai. Ali vai “por devoção”, confirma Tommaso, sem muita vontade de se explicar mais, dizendo que não fala português. Outro homem também fez questão de ir ali abaixo, a 12 de maio de 1982, para rezar. “O santo padre João Paulo II por sua iniciativa e devoção visitou e orou neste lugar onde nasceu Santo António.”

Num livro de visitas da igreja, alguém do grupo deste homem alto, com mais de 60 anos, auricular nos ouvidos para escutar o guia, deixa uma prece: “Reza por todos nós e sobretudo os doentes.” Outro casal assinala a sua presença. “Angelo e Teresina estiveram aqui. Santo António protege toda a nossa família.” “Por devoção e para rezar”, explicam-se tão apressados quanto o seu outro compatriota. António de Lisboa e de Pádua, a quem invocam, “é um homem bom”.

Isto da fé é coisa que nem sempre se explica ou se confessa a um jornalista. Quando questionado, o alemão prefere repetir-se “schönschön“, às perguntas do porquê de estar ali. É bonito, para ele, e nada mais se consegue perceber. Italianos, polacos, brasileiros, são os que mais peregrinam ali. “Há um encanto” para com este templo, defende o colaborador da igreja. “Pedem para celebrar ou concelebrar”, conta Pedro Ferreira, que acrescenta que há missais em “muitas línguas” que permitem essas celebrações. “Os libaneses gostam muito de vir celebrar” na Igreja de Santo António. Há celebrações de rito caldeu ou maronita, do Oriente, e também os patriarcas de Constantinopla e da Síria fizeram “questão de vir aqui”.

O Museu de Lisboa – Santo António, reaberto em 2014, paredes-meias com a igreja, coleciona peças sobre o homem que nasceu Fernando. A peregrinação aqui é artística, numa viagem que passa pela relação entre o jovem e a cidade onde viveu até aos 20 anos, com peças de coleções públicas e privadas e diferentes museus nacionais.

A tradição popular tomou António como um santo de especial devoção. E o roteiro que aqui se propõe tropeça numa exposição temporária – disponível até 30 de junho, junto ao museu – de uma procissão de Santo António, 300 peças dos irmãos Baraça, representantes da típica cerâmica de Barcelos, que fotografaram uma das procissões (que acontece todos os 13 de junho e a ela se juntam os santos das igrejas por onde passa). A partir das fotos, os ceramistas reproduziram todos os seus participantes, escuteiros, bombeiros, polícias, padres e populares e o andor no carro.

Santo António no carro dos bombeiros, representado no barro dos irmãos Baraça. Foto © António Marujo

 

Do lado de fora da igreja, também há quem entregue a sua devoção junto da pequena estátua de Santo António, inaugurada “pelo Papa João Paulo II”, no dia em que o Papa foi ali rezar. Na base, junto a esta inscrição, repousa o brasão do papa polaco.

As velas estão apagadas e a estátua quase fica escondida por entre a parafernália de uma estação televisiva que ali faz um programa dedicado aos santos populares. Tudo em volta é feérico e mesmo um outro Santo António, de cerâmica, pintado de cor-de-rosa, colocado junto à entrada do museu, submerge na confusão em volta. É um ícone pop.

Pelas ruas de Alfama, sobejam gift shops souvenirs, por entre balcões e barraquinhas improvisadas que abastecem as noites dos santos, onde se inscrevem versos magoados, como o de que “Alfama não cheira a fado/ Cheira a povo, a solidão/ Cheira a silêncio magoado/ Porque querem matar a tradição”. E resiste um pequeno azulejo com a imagem clássica do santo, de criança ao colo e ar contristado. Estamos na Rua de São Miguel, multiplicam-se os templos fechados, o desta rua, mas também o de Santo Estêvão. Só num pátio escondido da Rua das Escolas Gerais, o elétrico 28 a serpentear a colina cheio de turistas ali acima, encontramos um outro painel, gasto e tosco, uma auréola no santo e outra na criança de colo, entalado entre duas janelas num prédio pintado de amarelo. E dois americanos, enormes, a fumar a vapor e a ouvir música no telemóvel a olhar para o casario, sem ligar peva.

Um painel gasto e tosco, auréola em Santo António e outra na criança. Foto © Miguel Marujo

 

Embrenhando-se pelo bairro, não há sinais dos tronos de Santo António, antiga memória dos peditórios que ajudaram à reconstrução do templo depois do terramoto de 1755. Esta arte efémera começava a ser armada de forma espontânea pelos moradores do bairro, em finais de maio, nos pátios e às portas das casas, e eram os tronos o primeiro sinal das festas de junho. E com eles vinham os miúdos a pedirem uma moedinha para o santo. Num café, às Escolas Gerais, ali abaixo de São Vicente de Fora, pergunta-se pelos tronos. “Ah, eram tradição, agora só há alojamentos locais”, responde-nos o homem com uma bica. Nem tudo se perdeu, agora promove-se um concurso de tronos e figuras, que começaram a ser expostos no fim de semana (e ficarão durante o tempo que apetecer aos seus autores).

Um trono de Santo António, num das ruas de Alfama, em 2018. Interior da Igreja de Santo António. Foto © António Marujo

 

Nem só de arte temporária e efémera se faz um roteiro de António por Lisboa: no Museu Nacional de Arte Antiga pode espreitar-se um Santo António pregando aos peixes, de Vieira Lusitano, do século XVIII, um São Francisco e Santo António, uma pintura a óleo do mestre da Lourinhã, do primeiro quartel do século XVI, e o Livro de Horas de D. Manuel, também do século XVI. Mais à mão, para viajantes apressados, na Estação do Rossio, há um painel de azulejos com Santo António junto à Sé, de Lima de Freitas, deslocado no tempo, com um elétrico e namorados e candeeiros.

Regressa-se a Alfama, seguindo por Santa Clara e chegando à colina que sobe para Sapadores, Santa Apolónia dos comboios ali abaixo. Vamos a caminho da Capela do Vale de Santo António, na rua com o mesmo nome. Estamos numa zona que é uma amálgama arquitetónica e, encravada no casario incaracterístico, a capela branca, de linhas simples e uma curta torre sineira.

A Capela do Vale de Santo António, entalada entre prédios. Interior da Igreja de Santo António. Foto © Miguel Marujo

Também conhecida por Ermida de Santo António do Vale e Nossa Senhora da Assunção, esta capela foi edificada em 1780 (e há uma pequena placa que assinala o “II Centenário da edificação”). O santo casamenteiro está embutido num pequeno nicho, por cima do n.º 84, numa porta lateral da capela. Mais acima, na fachada principal, um vitral revela António.

Foi aqui que, diz a tradição, o franciscano descansou quando se dirigia ao rio Tejo, vindo do Convento de São Vicente, para embarcar em direção às costas do Norte de África. Agora não há quem pare, as portas estão fechadas. Há uma ranhura onde se lê “pão de Santo António”, para esmolas, que remete para a tradição antoniana de colocar nas igrejas uma caixa para o “pão dos pobres”.

No antigo Convento dos Capuchos instala-se hoje o Hospital de Santo António dos Capuchos, onde no pátio de entrada está uma referência escultórica ao monge. O nome do estabelecimento, ao Campo de Santana, vem do século XVI quando ali se ergueu um convento com o nome do doutor da Igreja, que foi entregue aos padres recoletos da Custódia de Santo António. É o Patriarcado Latino de Jerusalém que nos conta que o homem de Lisboa e Pádua “é venerado de forma especial pela comunidade dos franciscanos da Terra Santa”.

Este roteiro da Lisboa de António termina já longe do centro, em plena Praça de Alvalade, onde uma enorme estátua do escultor António Duarte ali foi erigida e inaugurada em outubro de 1972. De cada um dos lados, faz-se o percurso de António, “padroeiro de Portugal 1195-1231”, que viveu em “Lisboa 1195-1213”, esteve a estudar em “Coimbra 1213-1221” e, por fim, morreu em “Pádua 1231”. Por entre carros apressados, e sem passadeira para a placa central, há quem ali vá venerar o santo: lá estão vasos de flores e, estamos em junho, um grande manjerico.

A estátua de Santo António, na Praça de Alvalade. Foto © Miguel Marujo

 

(Texto reproduzido da edição digital do Diário de Notícias)

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