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P. António Vaz Pinto em entrevista ao Ponto SJ, em final de Maio de 2022, poucos dias antes de completar 80 anos (2 Junho). Foto © Ponto SJ

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

| 01/07/2022

António Vaz Pinto, em Maio deste ano: “Levo desta vida uma vida que valeu a pena viver, com muita alegria e muitos amigos.” Foto © Ponto SJ

 

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia naquela que seria a sua última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

O anúncio foi feito pela Companhia de Jesus, que recorda a “vida cheia” de Vaz Pinto, jesuíta há 57 anos. “Se morrer daqui até aos 80 anos, ou logo a seguir, levo desta vida uma vida que valeu a pena viver, com muita alegria e muitos amigos. Estou muito grato a Deus pela vida que me deu”, dizia, na entrevista referida, onde também manifestava uma “óptima relação com a morte”, que nunca o “assustou”: “A morte é a porta da ressurreição. Por isso, se me disserem que eu vou morrer amanhã, não me afecta nada, não preciso de mais de um quarto de hora. É só mudar de casa.”

Quando regressou da formação teológica complementar na Alemanha, com os seus companheiros Vasco Pinto de Magalhães e Alberto Brito, o provincial dos jesuítas em Portugal pediu-lhes que fundassem o Centro Universitário Manuel da Nóbrega (CUMN), em Coimbra, em 1975. A experiência tornou-se rapidamente um espaço de encontro, debate plural e diálogo entre a fé cristã e a cultura, a dois passos das faculdades da Universidade de Coimbra.

Em 1984, Vaz Pinto, agora sozinho, é nomeado para replicar a experiência em Lisboa, nascendo o Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV). Não pararia por ali, o padre dinamizador: dois anos depois, nascem os Leigos para o Desenvolvimento, uma ONG vocacionada para a cooperação sobretudo com países lusófonos; em 1992, está na criação do primeiro Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) e, em 2002, do Centro São Cirilo, no Porto, que acolhe migrantes e pessoas em situação de fragilidade social.

Isabel Jonet, actual presidente do BACF, dizia na TSF que António Vaz Pinto “tocou muitas vidas” e que pessoas como ele são “raras”, porque tocam os outros, mas deixam-se também tocar por eles.

Ainda em 2002, o Governo liderado por Durão Barroso convida-o para dar uma nova dimensão ao Alto Comissariado para as Migrações (ACM), que António Guterres criara anos antes. A nomeação foi polémica, por ser um cargo político ocupado por um padre. Mas, tal como prometeu no início, sairia ao fim de três anos, cumprido o mandato, e passando o lugar a Rui Marques.

Vaz Pinto revelou, disse Rui Marques também à TSF, um “profundo compromisso com o seu tempo e dando as respostas que em cada circunstância pareciam ser as mais necessárias e as mais relevantes”.

Este espírito empreendedor vinha-lhe da família, “onde muita gente fazia coisas importantes e significativas”, mas sentiu também que deveria “fazer qualquer coisa no mundo e na história”, mas sempre percebendo que “precisava dos outros para, em conjunto e comunitariamente – fossem leigos, leigas, padres”, poder responder “às necessidades que via” à sua volta.

 

“Sentia que o país tinha que dar uma volta colossal”

Vaz Pinto na celebração dos 25 anos dos Leigos Para o Desenvolvimento, em 2011: “Sentia que Portugal tinha que dar uma volta colossal.” Foto © Ponto SJ

 

A vida cheia de António Vaz Pinto fez-se por muitos mais lugares e responsabilidades: entrou para a Companhia de Jesus em 1965, pondo fim a uma relação de namoro. “Para ela foi trágico” no momento, mas depois ambos ficaram amigos no resto da vida, recordava ele na entrevista referida, na sequência do que também contara no livro de memórias A História de Deus Comigo (2006).

Os estudos sucederam-se: quatro anos de Direito na Universidade Clássica de Lisboa, licenciatura em Filosofia, em Braga, e em Teologia em Frankfurt, Alemanha, onde foi aluno de Joseph Raztinger, o futuro Papa Bento XVI. Ordenado padre em 1974, dedicaria grande parte do seu tempo à formação cristã de universitários e de vários grupos acompanhados pelos jesuítas, incluindo na orientação de cursos, retiros e “exercícios espirituais”, o encontro de espiritualidade com o método jesuíta.

O 25 de Abril de 1974 apanhou-o na Alemanha. “É evidente que eu, como tanta gente em Portugal, sentia que o país tinha que dar uma volta colossal”, dizia, na entrevista do Ponto SJ. “Recebi o 25 de Abril com uma grande alegria e esperança. Mas, passado pouco tempo, comecei a perceber que as coisas não se estavam a encaminhar muito bem e foi nessa altura que, com autorização dos meus superiores, vim para Portugal para me meter nas coisas.”

Desempenhou vários cargos de responsabilidade nas estruturas e casas dos diversos lugares onde a Companhia de Jesus está presente em Portugal, incluindo a direcção da revista Brotéria. Foi ainda reitor da Igreja de São Roque e capelão da Misericórdia de Lisboa, assistente da Rádio Renascença e participou no projecto inicial da TVI.

Autor de vários livros sobre teologia, filosofia e vida cristã, além de memórias, os jesuítas eram para Vaz Pinto, a sua casa, como dizia também na sua última entrevista.

Desde 2019, estava em Évora, onde desempenhava o cargo de capelão da Santa Casa da Misericórdia e acompanhava grupos e pessoas. O funeral realiza-se segunda-feira, com a missa exequial às 10h, presidida pelo cardeal-patriarca na Igreja do Colégio de São João de Brito, seguida do funeral para o cemitério do Lumiar, em Lisboa. Antes, neste sábado e domingo, decorrem orações e celebrações de açção de graças em Coimbra, Lisboa, Braga, Porto e Évora, cujos horários podem ser consultados no Ponto SJ, o portal dos jesuítas em Portugal.

Claramente aberto a mudanças no interior da Igreja, mesmo se entendia que elas deveriam ser feitas com moderação, Vaz Pinto olhava para o Papa Francisco como alguém que “aborda as coisas de uma maneira muito nova e corajosa, sacode muito a Igreja”. Esta tem “problemas de corrosão e esta coisa horrível e nojenta do abuso infantil”. Francisco “está a fazer uma obra formidável e o próximo Papa já vai ter que ser papa de outra maneira”. E concluía: “Já não é possível ser-se papa como antes deste. O estilo de vida, o não viver no palácio, marcou definitivamente este estilo e é muito mais próximo do Evangelho. Muito exigente e muito positivo.”

Muito exigente e muito positivo era também a marca de António Vaz Pinto.

 

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