António Vaz Pinto – a ação com graça

| 14 Jul 2022

P. António Vaz Pinto em entrevista ao Ponto SJ, em final de Maio de 2022, poucos dias antes de completar 80 anos (2 Junho). Foto © Ponto SJ

P. António Vaz Pinto em entrevista ao Ponto SJ, em final de Maio de 2022, poucos dias antes de completar 80 anos (2 Junho). Foto © Ponto SJ

 

«Nunca me entendi a viver dos rendimentos. Pouco a pouco, fui olhando para fora da minha família, para o mundo, a realidade e fui percebendo que era chamado – e isto não tem nada a ver com a vida religiosa e ser padre – a fazer qualquer coisa no mundo e na história.» «E tenho uma graça enorme que foi ter nascido na família em que nasci, onde muita gente fazia coisas importantes e significativas. E isso foi muito inspirador para mim.» As palavras são do padre António Vaz Pinto, S.J., pouco antes de nos deixar.

Era assim este militante de uma vida empenhada e entusiasta. Mounier dizia, por isso, que o acontecimento era o nosso mestre interior. Sempre que o encontrei nessa atitude de procura permanente, e foram muitas vezes, durante um período muito alargado, num trabalho persistente de pensar, refletir e, sobretudo, de acompanhar a direção da Brotéria (depois de ter tido, há mais tempo, uma outra experiência, diferente, mas igualmente profícua com o saudoso padre Luís Archer). Para o Padre António não fazia sentido agir sozinho e ele foi sempre a prova permanente disso mesmo. A equipa, a partilha, o encontro e as diferenças, eram necessários. As noites da Brotéria, na Rua Maestro António Taborda, que fora a casa do Padre Manuel Antunes, onde este se multiplicava a tratar dos mais diversos temas, ainda hoje atuais – desde a filosofia e da literatura à política internacional e à sociedade – eram sempre muito inspiradoras, como há dias me recordava Manuel Braga da Cruz, graças à orientação do então diretor. Desde o pensamento à análise dos acontecimentos recentes, além das artes, do cinema, da educação ou da saúde, tudo tinha lugar. «A ideia de construir (costumava dizer António Vaz Pinto) aproxima-se muito da ideia de gerar, produzir ser e realidade humana». E as ideias fluíam, naturalmente, num equilíbrio entre a urgência e a reflexão, tão necessário, e tantas vezes esquecido. 

A leitura dos dois volumes de A História de Deus Comigo (Aletheia) é importante, e de algum modo singular. Não é comum na tradição jesuíta; compreende-se, porém, a necessidade dessa convergência entre a espiritualidade e a ação – e a vitalidade que pressupunha. Não esqueço, na igreja de S. Roque, na proximidade dessa obra-prima da arte em todo o mundo que é a capela de S. João Batista, um dia, o ter-me feito regressar, com o espírito jovial de quem visitava um lugar mágico, junto ao túmulo de Francisco Suarez, cuja memória ambos admirávamos ou a lembrança do tempo em que ali mesmo o Padre António Vieira levava os fiéis do seu tempo a levantarem-se de madrugada para ir pôr tapete a S. Roque, para ouvir os sermões inspirados do genial orador sagrado. «Na arte de persuadir, disse Vieira em 1644, a arte tem mais de natureza do que de arte, porque no pregar hão de cair as coisas e hão de nascer, tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo». E assim do modo mais natural, havia em António Vaz Pinto uma paixão natural pela história e pelas raízes, sendo o tempo um lugar da sua permanente familiaridade. Leia-se o seu livro sobre a Casa do Burgo em Arouca. O estudo das raízes genealógicas de seus antepassados em Vila Meã do Burgo corresponde a uma investigação cuidada e esclarecedora. Tudo sem esquecer a lembrança de seu avô, o poeta Eugénio de Castro ou de seu tio D. Manuel Bastos Pina, bispo de Coimbra e confessor da Rainha D. Amélia… 

Curiosidade insaciável

A curiosidade insaciável e a descoberta dos mistérios do passado faziam parte da sua personalidade atenta e sempre disponível. Ao percorrermos a sua biografia, encontramos uma vocação religiosa profundamente ponderada. Regressado de estudos teológicos na Alemanha, foi ordenado presbítero em 1974, começando a sua vida na Companhia de Jesus, atento à realidade da juventude universitária, criando os Centros de Coimbra e de Lisboa – o que conduzirá à organização do Forum Estudante, que terá uma importância fundamental na multiplicação de iniciativas nos meios estudantis. A formação da juventude e a mobilização de militantes capazes de ligar a reflexão e a ação no terreno num novo modo de evangelização ocuparam sistematicamente o seu múnus. 

Profundo conhecedor da espiritualidade de Santo Inácio de Loiola, procura aplicá-la aos dias de hoje, ligando, com inteligência, tradição e modernidade. A pastoral da cultura e da inteligência não poderiam, porém, ficar-se pela abstração, uma vez que a sua vida sempre se fez com os pés bem assentes na terra. E neste ponto liga-se a consciência social, e a perceção de que as injustiças e desigualdades não poderiam estar fora das preocupações fundamentais da atualidade. As injustiças, os problemas dos refugiados, o agravamento das desigualdades, as consequências das guerras tudo obrigaria a planos de ação suscetíveis de obter resultados práticos. Não esqueço o diálogo que tivemos sobre a encíclica de Bento XVI Deus Caritas Est e sobre a ligação às modernas políticas de desenvolvimento, que depois foram tratadas pelo Papa Francisco em Laudato Si’. 

Numa preocupação permanente, em prol de uma sociedade mais justa, ajuda a criar o Banco Alimentar contra a Fome, como estrutura inteligente, eficaz e prática para responder às limitações do consumismo e mercantilismo. Pensando nos países em desenvolvimento, lança os Leigos para o Desenvolvimento, que mobiliza centenas de jovens para o terreno difícil das novas nações africanas, em missões suficientemente prolongadas para poder ter resultados positivos e duradouros. Pensando nos países do leste europeu e nos seus migrantes cria o Centro de S. Cirilo, no Porto. Por outro lado, colabora com a Fundação Pro-Dignitate, presidida por Maria Barroso e aceita assumir as funções de Alto-Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, onde prosseguiu o trabalho que vinha desenvolvendo em prol da justiça e do desenvolvimento. Trabalhou, pensou, continuou a idealizar novas soluções e iniciativas até ao fim. O padre António Vaz Pinto deixou-nos uma herança de esperança e de entusiasmo, de justiça e paz, que não esqueceremos.

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total”

Diretor d'A Economia de Francisco, em Assis, ao 7M

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total” novidade

Professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma, e consultor do Dicastério para os Leigos, Luigino Bruni é um apaixonado pela Bíblia e pelo cruzamento entre disciplinas como a Ética e a Economia. No final do encontro global d’A Economia de Francisco, que decorreu entre os passados dias 22 e 24 de setembro em Assis, falou ao 7MARGENS sobre o balanço que faz desta iniciativa, e deixou alguns conselhos aos organizadores da Jornada Mundial da Juventude 2023, que irá realizar-se em Lisboa.

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Breves

 

Índia

Carnataca é o décimo Estado a aprovar lei anticonversão

O Estado de Carnataca, no sudoeste da Índia, tornou-se, no passado dia 15 de setembro, o décimo estado daquele país a adotar leis anticonversão no âmbito das quais cristãos e muçulmanos e outras minorias têm sido alvo de duras perseguições, noticiou nesta sexta-feira, 23, o Vatican News, portal de notícias do Vaticano.

Neste sábado, em Lisboa

“Famílias naturais” em convívio contra a ideologia de género

Prometem uma “tarde de convívio e proximidade”, um concerto, diversão e “múltiplas actividades para crianças e adultos: o “Encontro da Família no Parque” decorre esta tarde de sábado, 24 de Setembro, no Parque Eduardo VII (Lisboa), a partir das 15h45, e “pretende demonstrar um apoio incondicional à família natural e pela defesa das crianças”.

Gratuito e universal

Documentário sobre a Laudato Si’ é lançado a 4 de outubro

O filme A Carta (The Letter) será lançado no YouTube Originals no dia 4 de outubro, anunciou, hoje, 21 de setembro, o Movimento Laudato Si’. O documentário relata a história da encíclica Laudato Si’, recolhe depoimentos de vários ativistas do clima e defensores da sustentabilidade do planeta e tem como estrela principal o próprio Papa Francisco.

Prémio D. António Francisco homenageou pediatria e Serviço Nacional de Saúde

Ala pediátrica do São João e Centro Materno Infantil

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A ala pediátrica do Centro Hospitalar Universitário de São João e o Centro Materno Infantil do Norte (CMIN) receberam, ao início da tarde desta segunda-feira, o Prémio D. António Francisco correspondente à edição deste galardão para o ano de 2020. Em virtude da pandemia, o prémio só agora foi entregue, em cerimónia que decorreu no Palácio da Bolsa, no Porto. Ambas as entidades foram consideradas pelo júri como cumprindo “de forma exemplar os valores do Prémio”, que com esta atribuição fqaz também um “reconhecimento público ao Serviço Nacional de Saúde, pelo esforço desenvolvido na resposta à pandemia”.

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