Islão em Lisboa

Antropóloga americana estuda religiosidade da diáspora guineense em Portugal

| 25 Mai 21

Mesquita de Lisboa

Muçulmanos guineenses em Lisboa – especialmente os que sabem ler árabe, fizeram a peregrinação a Meca e assistem às orações de sexta-feira na Mesquita Central de Lisboa – aspiram a ser muçulmanos cosmopolitas. Foto © Khalid Jamal, cedida pelo autor.

 

Acaba de sair nos Estados Unidos o livro de uma antropóloga, Michelle C. Johnson, que estuda a experiência religiosa (muçulmana) da diáspora da Guiné-Bissau na zona de Lisboa.

O livro, intitulado Remaking Islam in African Portugal: Lisbon–Mecca–Bissau (“Refazer o islão no Portugal africano – Lisboa-meca-Bissau, em tradução livre) foi editado ainda em 2020, pela Indiana University Press, e baseia-se no trabalho de campo que aquela investigadora realizou no nosso país.

A investigação sobre a comunidade guineense em Portugal é tida como a menos significativa de todas as comunidades das diásporas das ex-colónias portuguesas, o que confere a este trabalho uma importância acrescida.

Uma recensão de Dimitri Almeida na revista Iberomania (vol. 92, 2021) formula deste modo a questão investigada na obra: “De que modo práticas e identidades religiosas (neste caso islâmicas) são renegociadas e transformadas num contexto migratório?”

No caso de comunidades muçulmanas, refere Dimitri Almeida, “a resposta comum a esta questão tem consistido em realçar a oposição entre um islão transnacional, de um lado, e crenças e devoções locais não-canónicas, do outro. A experiência diaspórica é geralmente vista como favorável à consolidação de uma certa ortodoxia e ortopraxia religiosas e ao concomitante enfraquecimento de religiosidades tradicionais”.

Capa de Remaking Islam in African Portugal.

A abordagem de Michelle Johnson não vai por aí. Segundo ele, a autora distancia-se de um binarismo global/local: “o modo como os imigrantes mandingas reinterpretam e reformulam a sua etnicidade e religiosidade revela uma gama extraordinariamente ampla e complexa de estratégias identitárias”, de que o género constitui aspeto essencial.

Como refere a apresentação do livro, “muitos homens, em particular, começam a separar os costumes africanos do Islão global (…). Os homens muçulmanos guineenses em Lisboa – especialmente aqueles que sabem ler árabe, fizeram a peregrinação a Meca e assistem às orações de sexta-feira na mesquita central de Lisboa – aspiram a ser muçulmanos cosmopolitas. Por contraste, as mulheres guineenses – muitas das quais nunca estudaram o Alcorão, não lêem árabe e sentem-se excluídas da mesquita – permanecem mais confortavelmente enraizadas nos costumes africanos. Em resposta, essas mulheres criaram um ‘clube de cultura’ como espaço muçulmano alternativo, onde podem celebrar rituais do percurso de vida e feriados muçulmanos à sua maneira”.

 

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