Por uma rara coincidência de calendário, a Quaresma cristã, o Ramadão muçulmano e o Ano Novo tibetano iniciam-se este ano praticamente ao mesmo tempo. Esta quarta-feira é o primeiro dia do tempo de preparação para a Páscoa, para católicos e protestantes (para a maior parte dos ortodoxos, que seguem um calendário com pequenas diferenças, ela só se inicia na próxima segunda-feira, 23). O mês sagrado dos muçulmanos começou nesta terça à noite com uma oração nas mesquitas e o primeiro dia de jejum é durante a quarta-feira, 18. E o Ano Novo tibetano (2153) inicia-se também nesta quarta, 18, coincidindo neste ano com o ano novo chinês (4724).
Sendo o calendário islâmico de base lunar, o início do Ramadão é definido pela observação da lua nova em qualquer parte do mundo, explica Mohammed Ibrahim, muçulmano e colaborador do 7MARGENS.
Cada país estabelece os seus critérios para marcar o início do Ramadão, acrescenta Ibrahim: há os que optam pelo momento em que a lua é visível no seu país, e outros que tomam como referência o momento em que a lua nova é visível na Arábia Saudita, onde se localizam as cidades santas de Meca e Medina. Em Portugal, é este o critério e, uma vez que às 15h00 desta terça-feira a lua nova foi avistada naquele país, o início do Ramadão ficou estabelecido para o final da tarde. Daqui a quatro semanas, quando a lua nova voltar a ser avistada, a festa do Eid al-Fitr assinalará o fim do mês sagrado de Ramadão. Na manhã seguinte, uma celebração matinal decorre nas mesquitas, enquanto as casas são decoradas e as famílias oferecem presentes aos mais novos.
Este mês mais sagrado do islão “assinala o início da revelação do Alcorão”, o texto sagrado islâmico, explicava Mohammed Ibrahim no texto antes citado. Por isso ele apresenta-se “como um período de regresso ao essencial – à fé, à consciência e ao propósito” e, durante este mês, “cumpre-se o terceiro pilar do Islão: o jejum”, ao mesmo tempo que os crentes procuram ir mais às mesquitas para rezar em comunidade.
O jejum é obrigatório para todos os crentes adultos, homens e mulheres, que tenham condições físicas para o cumprir, mas ficam isentos “os doentes crónicos, as grávidas, as crianças, os viajantes e todos aqueles que, por razões de saúde, não o consigam fazer, podendo, conforme o caso, compensar os dias mais tarde ou contribuir com uma compensação simbólica destinada a apoiar pessoas em situação de necessidade”.
Durante este mês, os muçulmanos devem abster-se de comer, beber, fumar e ter relações conjugais entre o nascer e o pôr do sol. Nono mês do calendário islâmico, ele é um “tempo considerado sagrado para os muçulmanos, pois acredita-se que durante esse período o Arcanjo Gabriel entregou os primeiros versículos do Alcorão ao Profeta Muhammad [Maomé]”, acrescenta Mahomed Yiossuf Adamgy, na página Al Furqán, de reflexões islâmicas, que o próprio dirige.
Jejum e solidariedade

A Quaresma, tal como o Ramadão, apela a uma experiência de ascese, jejum, oração e vivência da caridade,Foto © Unona Art
O mesmo ritmo e perspectivas semelhantes marcam a Quaresma cristã, que católicos, anglicanos e protestantes iniciam nesta quarta-feira e os ortodoxos na próxima segunda. A Quaresma, tal como o Ramadão, apela a uma experiência de ascese, jejum e oração mais intensa. Também o desafio à vivência da caridade está mais presente, sendo hoje habitual que os cristãos sejam convidados a renunciar a bens supérfluos em favor de necessidades urgentes. As diferentes dioceses católicas portuguesas costumam destinar a verba recolhida na “renúncia quaresmal” a alguma finalidade sobretudo de carácter social.
Neste ano de 2026, várias dioceses destinam a totalidade ou parte do produto dessa verba para apoiar as populações afectadas pelas tempestades das últimas semanas. É o caso de Coimbra, Funchal, Portalegre-Castelo Branco, Porto, Setúbal, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu, de acordo com um rápido levantamento feito pela Ecclesia.
Também Angra se junta essa lista. Já em Santarém e Aveiro parte das verbas irá para os cristãos do Sudão, enquanto o Porto incluirá projectos missionários em Angola e Moçambique nas suas intenções de partilha, acrescenta a mesma fonte.
Outra coincidência de calendário é que a Páscoa – este ano a 5 de Abril – se celebra nos dias em que os judeus assinalam Pessah, a Páscoa judaica que celebra a saída do regime de escravidão no Egipto, ocorrida no século XV a.E.C. (ou século XIII, segundo outras teses).
Durante a Quaresma e o Ramadão, “tanto os muçulmanos como os cristãos dedicam-se à oração, ao jejum e à caridade, ao mesmo tempo que comemoram momentos-chave das suas respetivas histórias religiosas”, explica a teóloga e estudiosa das relações entre muçulmanos e cristãos e do diálogo inter-religioso, Jordan Denari Duffner, no America Magazine, dos jesuítas americanos.
“Enquanto os cristãos aguardam a Paixão, morte e ressurreição de Jesus, os muçulmanos celebram a revelação do Alcorão ao Profeta Maomé.”
Mas há mais coincidências, neste ano de 2026: “A convergência destes períodos ocorre numa altura em que o preconceito e a discriminação contra os muçulmanos” estão a aumentar. Por seu lado, os católicos “continuam a reflectir sobre o 60º aniversário da Nostra Aetate, o documento de 1965 do Concílio Vaticano II que revolucionou a relação da Igreja com pessoas de outras religiões, incluindo os muçulmanos”, nota a teóloga.
Membro do Conselho Consultivo Católico da organização Igrejas pela Paz no Médio Oriente e da estrutura de Diálogo Nacional Católico-Muçulmano, dos EUA, Duffner acrescenta que “este momento singular oferece aos católicos a oportunidade de aprofundar os seus laços com os muçulmanos e reafirmar o seu compromisso de estar ao seu lado perante a injustiça social”.
Losar, festa de Ano Novo

Budistas em vigília: o Ano Novo é um convite à celebração festiva e à meditação sobre o que se deve purificar. Foto © Vinh Dav
Diferente é o carácter do Ano Novo tibetano ou budista. O Losar é sobretudo uma data festiva e de meditação, este ano sob os signos do cavalo e do fogo. Losar significa precisamente “ano novo”: de “Lo”, ano, idade, e “sar” novo, fresco”, explica a página oficial da União Budista Portuguesa (UBP).
Calhando normalmente em Fevereiro, o dia do seu início “varia de acordo com o calendário lunar”: o calendário tibetano tem doze meses lunares e o Losar começa no primeiro dia do primeiro mês. Celebrado durante quinze dias, com as principais celebrações nos primeiros três, o Losar é assinalado com visitas às famílias e troca de presentes – tal como sucede no Natal. Nos mosteiros budistas, as celebrações iniciam-se na antevéspera do Losar, com rituais próprios e um macarrão especial chamado guthuk, cujas bolas e respectivos ingredientes traduzem o carácter: pimenta, indica alguém falante; sal, lã ou arroz é um bom augúrio; carvão é um “coração negro”.
“O último dia do ano é um dia de purificação e de preparação e acolhimento do Ano Novo”, explica ainda a página da UBP. As visitas aos mosteiros incluem-se também no programa do Ano Novo, que convida ainda à meditação sobre o que se deve purificar.
A celebração de Losar tem origem “nos tempos em que os tibetanos praticavam a religião Bön”: no Inverno, realizava-se “uma cerimónia espiritual em que as pessoas ofereciam grandes quantidades de incenso para agradar aos espíritos, divindades e protectores”. Esta festividade terá evoluído para uma outra, quando “uma velha mulher chamada Belma introduziu a medição do tempo com base nas fases da lua”. Tornada festa tradicional dos agricultores, quando as “artes de cultivo, irrigação, refinação de ferro de minério e construção de pontes foram introduzidas no Tibete”, acabou transformada no Losar quando “os princípios da astrologia foram introduzidos”.










