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Imagem original de Nossa Senhora de Fátima é retirada da Capelinha das Aparições para rumar ao Vaticano. Foto Santuário de Fátima
Em mais de cem anos, esta é a quarta vez que a imagem deixa Fátima para ir ao encontro de um Papa, em Roma. Foto © Santuário de Fátima

Jubileu da Espiritualidade Mariana

Aonde vai a “Senhora de branco”? Ser um ícone para os cristãos do mundo inteiro

| 10/10/2025

Parecia uma manhã normal de outubro no Santuário de Fátima: enquanto o sol se erguia no céu por trás da grande basílica, dezenas de peregrinos iam chegando ao recinto, sozinhos ou em grupo, rumando invariavelmente à Capelinha das Aparições e prostando-se em oração diante da imagem de Nossa Senhora. O que a maior parte deles não sabia é que estavam prestes a assistir a um momento histórico: a escultura que tinham diante de si, e que em mais de cem anos raramente saiu do recinto do Santuário, dentro de momentos desapareceria diante dos seus olhos.

Foi então que alguns se aperceberam de algo incomum: uma carrinha cinzenta avançava vagarosamente pelo centro do recinto onde habitualmente só circulam pessoas a pé. Um grupo de seguranças ia afastando os peregrinos mais distraídos, enquanto também ela se dirigia para a Capelinha. E inúmeros repórteres de imagem apontavam as suas câmaras na direção da escultura.

O reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas, dirigiu-se então ao ambão e tomou a palavra para explicar o que se passava: a imagem seria retirada porque iria partir para o Vaticano, “por vontade do Santo Padre”, para participar no Jubileu da Espiritualidade Mariana, que se assinala nestes dias11 e 12 de outubro. “Acompanhem esta visita da imagem a Roma com a vossa oração, pelo Santo Padre e pelos bons frutos desta visita”, pediu.

Três homens de luvas brancas dirigiram-se depois à vitrine transparente onde a imagem se encontrava exposta, abriram-na e transferiram a escultura, com todo o cuidado, para uma caixa branca com rodas e ar robusto, levando-a em seguida para a carrinha que ali estacionara. Assim que o porta-bagagens se fechou, os peregrinos irromperam num aplauso. De improviso, alguém começou a cantar a Ave Maria de Fátima e logo um coro de peregrinos se juntou, entre a alegria e o orgulho por saberem que a “sua” imagem iria para perto do Papa, e a tristeza e a saudade por saberem que iria para longe de si.

 

Leão XIV: “um Papa de Fátima”?

A carrinha que transportou imagem de nossa senhora de fatima para o aeroporto. Foto Santuario de Fatima

Uma carrinha cinzenta avançava vagarosamente pelo centro do recinto onde habitualmente só circulam pessoas a pé. Foto © Santuário de Fatima

Em mais de cem anos, esta é a quarta vez que a imagem deixa Fátima para ir ao encontro de um Papa, em Roma.

A primeira aconteceu a 25 de março de 1984, quando João Paulo II pediu que a escultura fosse ao Vaticano, durante o Ano Santo da Redenção, para renovar a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Foi após este ato de consagração, que decorreu na Praça de São Pedro, que o Papa polaco ofereceu a Nossa Senhora a bala que o tinha atingido no atentado de que fora vítima três anos antes, a 13 de maio (precisamente a data do aniversário da primeira aparição mariana em Fátima), e que foi depois incrustada na coroa da escultura.

A segunda visita a Roma aconteceu no Ano Santo de 2000, no âmbito do Jubileu dos Bispos. No dia 8 de outubro, diante da imagem e em união com todo o episcopado, João Paulo II fez a consagração do novo milénio a Nossa Senhora.

A terceira e última vez que a imagem de Nossa Senhora de Fátima esteve em Roma foi em  outubro de 2013, a pedido do Papa Francisco, que a escolheu como ícone para representar a devoção mariana no mundo, no âmbito da Jornada Mariana que teve lugar no Vaticano por esses dias. No dia 13, diante desta imagem, o Papa entregou a Humanidade a Nossa Senhora.

Já em fevereiro deste ano, foi do Papa Francisco que voltou a partir o pedido para que a imagem de Nossa Senhora de Fátima regressasse ao Vaticano, desta vez para o Jubileu da Espiritualidade Mariana.

Após o seu falecimento e a eleição do Papa Leão XIV, o Santuário questionou o Vaticano sobre se continuava a haver interesse na presença da imagem. “E foi confirmado que efetivamente o Santo Padre mantinha esse desejo de que a imagem estivesse presente”, contou o padre Carlos Cabecinhas aos jornalistas, poucas horas antes de partir para Roma, para concretizar esse desejo.

A imagem estará, então, na Praça de São Pedro este sábado, 11 de outubro, às 18h00, para uma vigília e terço pela paz, e na manhã de domingo, dia 12, para a missa. “Inicialmente não estava sequer prevista a presença do Papa na vigília, mas apenas na missa do dia 12, e depois foi o próprio Papa que decidiu que estaria também presente na vigília do dia 11”, assinalou o reitor do Santuário, sem disfarçar o orgulho.

Será este um sinal de que, à semelhança de João Paulo II, Bento XVI e Francisco, também Leão XIV tem uma devoção especial a Nossa Senhora de Fátima? “Eu não posso falar em nome do Papa, mas o que sabemos é que o próprio Leão XIV, ainda enquanto bispo, tinha recebido já na sua diocese a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, e que tinha feito a consagração do clero, dele próprio e da diocese a Nossa Senhora de Fátima. Portanto eu estou convencido de que sim, ele poderá ser também um Papa de Fátima”, partilhou o prelado.

Bispo Prevost com imagem peregrina de Fátima na diocese de Chiclayo. Foto DR

Como bispo diocesano, Robert Prevost consagrou o Peru ao Sagrado Coração de Jesus e ao Sagrado Coração de Maria, tendo a imagem peregrina de Fátima como ícone mariano. Foto: Direitos reservados

O reitor do Santuário recordou ainda as palavras que Rino Fisichella, pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização, lhe dirigiu ao reiterar o pedido da visita: “a presença da amada imagem original de Nossa Senhora de Fátima permitirá a todos fazer a experiência da proximidade da Virgem Maria”, disse o arcebispo italiano, considerando que a imagem de Fátima é “um dos ícones marianos mais significativos para os cristãos de todo o mundo”, e por isso tinha mesmo de estar em Roma neste Jubileu.

 

Mas o que é que esta imagem tem?

Imagem original de nossa senhora de Fatima na Capelinha das Aparições. Foto Santuario de Fatima

A imagem está assente num pedestal que assinala o local exato onde se encontrava a azinheira  sobre a qual Nossa Senhora teria aparecido. Foto © Santuário de Fatima

A escultura “original” de Nossa Senhora de Fátima nasceu do desejo dos peregrinos terem, além da Capelinha, uma imagem que pudessem identificar como sendo a da “Senhora vestida de branco” e “envolta em luz” os três Pastorinhos relatavam ter visto em 1917.

Criada três anos depois, em 1920, a imagem é uma obra do artista português José Ferreira Thedim (1892-1971), oriundo de uma família católica com uma forte tradição na escultura e na arte sacra.

Tem 104 centímetros de altura e foi esculpida em cedro do Brasil,  a partir do relato dos videntes. Mais tarde, a 13 de maio de 1946, foi coroada solenemente.

A coroa que encima a imagem nos dias das grandes peregrinações foi oferecida pelas mulheres de Portugal, depois de uma subscrição pública, em 13 de outubro de 1942. Trata-se de uma peça em ouro, com 1,2 quilos de peso, contendo 313 pérolas e 2679 pedras preciosas. Nela trabalharam 12 artistas, durante três meses.

Contudo, aquela que muitos consideram a sua maior preciosidade só foi acrescentada em 1989, quando em 26 de abril lhe foi encastoada a bala extraída do corpo de João Paulo II. O Papa dizia que uma “mão materna” desviara a trajetória do projétil, permitindo-lhe sobreviver ao atentado.

Protegida por uma redoma de vidro à prova de bala, a imagem está assente num pedestal que assinala o local exato onde se encontrava a azinheira (entretanto desaparecida por ação dos devotos) sobre a qual Nossa Senhora teria aparecido aos três Pastorinhos.

Até 2009, ela era recolhida ao final do dia, poucos minutos antes da meia noite, para o interior da Capelinha, por uma questão de segurança, regressando àquele local na manhã seguinte.

Essa prática foi abandonada quando o Santuário de Fátima passou a transmitir online, 24 horas por dia, imagens da Capelinha, captadas por uma câmara direcionada para a escultura.

Desde então, a imagem que representa Nossa Senhora de Fátima está permanentemente à vista de todos, verdadeiramente em todo o mundo. Ainda assim, não param de chegar pedidos ao Santuário para que a imagem possa deslocar-se a outros lugares e aí ser também venerada.

Com tantas solicitações, o Santuário decidiu mandar fazer várias réplicas da imagem original, que são atualmente 13. Foi a primeira delas que ficou agora na Capelinha das Aparições, até que a original regresse de Roma, o que deverá acontecer já no domingo ao final do dia, ainda a tempo de participar na procissão das velas que, nas noites de 12 para 13 de cada mês entre maio e outubro, leva a imagem de Nossa Senhora até ao altar do recinto de oração.

 

 

Visita com visita se paga?

Joan-Enric Vives presidiu à Peregrinação de agosto 2025. Foto Santuário de Fátima

A imagem deverá regressar ao Santuário ainda a tempo de participar na procissão das velas de dia 12. Foto ©  Santuário de Fátima

“Há a possibilidade de a imagem não chegar antes do início da procissão no domingo”, admitiu o reitor do Santuário. Mas vale a pena correr o “risco” e deixar que ela peregrine até Roma. Para o padre Carlos Cabecinhas, não se trata apenas de a escultura ser um ícone mariano reconhecido em todo o mundo, mas também de “a mensagem deste lugar ser uma mensagem de paz e esperança e portanto de pleno enquadramento com o momento que a Igreja e o mundo estão a viver”.

Além disso, o reitor considera que o facto de a Imagem de Nossa Senhora “ir ao encontro do Santo Padre”, no início do seu pontificado, é para o Santuário de Fátima “particularmente significativo”. “A Senhora vestida de branco vai ao encontro do bispo vestido de branco, tornando visível o laço de comunhão que a mensagem de Fátima sempre sustentou com o Santo Padre”, sublinha.

E recorda que Leão XIV já tinha estado em Fátima, ainda enquanto bispo, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2023, e que havia sido convidado para presidir à peregrinação internacional de maio ou de outubro deste ano, pouco antes de ter sido eleito Papa. O convite foi recusado, por motivos óbvios, mas mantém-se de pé, assegura o reitor do Santuário.

“Para já, vai a Nossa Senhora visitá-lo… pode ser que depois ele possa vir visitá-la aqui a sua casa”, conclui o padre Carlos Cabecinhas com um sorriso esperançoso.

 

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