Apenas servos

| 5 Set 2023

Servir Deus não tem que ver com a ideia de mera submissão ou o exercício duma tarefa árdua e difícil, mas sim com uma atitude de amor.

Átrio dos Gentios 2020, Brasil, O Bom Samaritano, Caio Beltrão

“O serviço é uma forma prática de demonstrarmos o nosso amor pelos outros e de sermos reconhecidos como discípulos de Jesus.” Gravura: Átrio dos Gentios 2020, Brasil, Ilustração O Bom Samaritano, de Caio Beltrão

 

Aliás, não há outra forma de prestar serviço a Deus a não ser servindo as pessoas. O evangelista Marcos relata que Tiago e João queriam ter lugar de destaque na glória. Mas no reino de Deus quem quiser ser o maior deve tornar-se o menos importante: “E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10:35-45).

É tempo de se entender que um ministro religioso é apenas um servo ou servidor. A origem latina do termo ministro, aponta para aquele que serve, fornece, dá, cuida ou trata. Mesmo quando se aplica a exercer funções de governo ou a dirigir algo é sempre na óptica daquele que presta um serviço a alguém.

Diaconia é uma palavra grega utilizada cerca de 100 vezes no Novo Testamento. De acordo com o relato de Lucas em Actos dos Apóstolos começou por ser utilizada para descrever o serviço às mesas, no apoio às viúvas cristãs idosas de Jerusalém, mas entende-se como toda a dimensão do serviço cristão.

A dificuldade em servir os outros

Há milhares de pessoas que trabalham no sector dos serviços mas não gostam do que fazem. Trabalham por obrigação, pelo salário, e não mostram atitude de serviço aos utentes ou clientes. Pelo contrário, parece que fazem um favor em atendê-los. Muitos querem ser servidos mas não querem servir os outros. Diz o povo: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu…”

O modelo hebraico do escravo voluntário

O Antigo Testamento apresenta-nos o modelo do escravo voluntário, o que parece, à partida, uma contradição nos termos. A verdade é que quando um escravo era bem tratado pelo seu senhor, no momento em que teria direito a ser liberto da sua condição, poderia invocar uma lei hebraica que permitia que, a partir daí, fosse legalmente considerado um escravo voluntário. Tratava-se duma disposição legal com carácter de justiça e coesão social, que era considerada de sete em sete anos, em virtude de muitas vezes as pessoas terem caído na situação de escravos por falta de condições para o pagamento de dívidas assumidas.

Para isso teria de ir perante um juiz, com testemunhas e declará-lo livremente. O sinal dessa nova condição seria realizado através de um orifício no lóbulo da sua orelha, que o tribunal mandava executar com uma sovela. No fundo continuava a ser escravo mas por vontade própria.

“Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça. Se entrou só com o seu corpo, só com o seu corpo sairá; se ele era homem casado, sua mulher sairá com ele. Se seu senhor lhe houver dado uma mulher e ela lhe houver dado filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serão de seu senhor, e ele sairá sozinho.

Mas se aquele servo expressamente disser: Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos; não quero sair livre. Então seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre” (Êxodo 21:1-6).

 O modelo de Jesus

 Apesar de o modelo hebraico ser um tipo do serviço cristão, o Novo Testamento apresenta o grande modelo do serviço aos outros: Jesus. Foi o maior exemplo de serviço que já existiu. Ele humilhou-se e entregou-se até à morte na cruz por amor da humanidade. Ele mesmo disse: “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20:28).

De facto, e segundo o testemunho ao apóstolo Paulo em carta enviada à comunidade cristã de Filipos, Jesus Cristo sujeitou-se a três grandes humilhações (2:5-11). Antes de mais esvaziou-se a si mesmo da glória celestial ao assumir a forma humana. Depois, enquanto homem, humilhou-se a si mesmo até à morte, isto é, aceitando morrer sendo inocente.

E, como se não bastasse, deixou-se humilhar aceitando uma morte indigna de qualquer criatura, sendo crucificado como um reles malfeitor.

A entrega sacrificial de Jesus não foi por obrigação, mas por amor. Alguém disse que não foram os pregos que o prenderam à cruz, mas o muito amor com que amou a humanidade.

O serviço cristão

Portanto, serviço cristão significa, antes de mais, imitação de Cristo. O apóstolo S. Paulo disse “sede meus imitadores como eu sou de Cristo”.

 Também exige obediência: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6:2); mas acrescenta: “Porque cada qual levará a sua própria carga” (v5). Será uma contradição? Não! Se cada um levar a sua carga e ajudar a levar a dos outros, a sua também fica mais leve…

Jesus ensinou o amor ao irmão e ao próximo: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:34-35). O serviço é uma forma prática de demonstrarmos o nosso amor pelos outros e de sermos reconhecidos como discípulos de Jesus.

 Servir Deus com amor produz alegria e satisfação. Em Actos 20:35 Paulo cita as palavras de Jesus: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.”

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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