Apesar de tudo, a liberdade

| 29 Mar 20

Frei Agostinho da Cruz. Gravura de Lima de Freitas

 

Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante.

A terra de Pizarro sempre me pareceu estranha. À sua volta quase não distinguimos vegetação e, no meio da planura, alcandora-se a rocha; sobre ela, ruas e casas que nada arranca dali. A cidade é pontuada por estreitas construções de pedra, emergindo do meio de habitações mais baixas, servidas por ruas estreitas. Parecem árvores sem grande ramaria que procuram um sol que lhes permita o crescimento. Talvez cactos gigantes, como o do Convento da Arrábida, hoje com vários metros de altura e transformado em madeira dura.

Vemos campanários, torres evidenciando soberbas senhoriais, locais de vigilância militar e, no centro imaginário de tudo, meio coberto por heras que não param de subir, o “mirante das Jerónimas”. Diz-me um guia que foi torre defensiva, sobrevivendo a um derruído palácio que depois foi eremitério. Não tenho dados para confirmar ou contrariar. Pela sua configuração, permite o resguardo e, ao mesmo tempo, a longa contemplação da distância, cuja leitura nos permite encontrar melhor o infinito.

O edifício a que pertence é ainda hoje habitado por monjas da ordem religiosa que tem como patrono o santo tradutor da Bíblia para latim. Sem nunca lá ter entrado, tenho recordado muito o seu perfil no mundo e fora do mundo. Talvez por sentir, pela primeira vez (embora obrigado pelas circunstâncias) o que seriam o olhar e a vida daquelas mulheres que dos mirantes faziam observatório, oratório, salvaguarda e farol. Em Trujillo, como em muitas e muitas partes do mundo.

Não sei se elas viam o mundo como ameaça, como via infectada pelas mais diversas enfermidades morais e corporais de que queriam fugir. Os seus textos dizem-me que sim, mas nem sempre há concordância entre a letra e o espírito. Já se estudaram muitas dessas comunidades e sabe-se hoje que muitas das mulheres que aí se acolhiam por vontade própria o faziam para fugir da violência que as despersonalizava e, de algum modo, matava. Eram lugares onde conseguiam uma liberdade acrescida, liberdade que para algumas delas se transformava numa escada por onde subiam à libertação maior que era ter saudade do infinito e, nele, de Deus.

De modo distinto na forma, mas afinal semelhante nas intenções, foi essa purgação e essa fuga que moveram também tantos homens a tornarem-se eremitas – organizados ou não em comunidade – nas mais variadas parte do mundo. Como na Arrábida, onde frei Agostinho da Cruz (1540-1619), franciscano-poeta convivente e vivente de um cristianismo depurado, à sombra de grandes vultos como São Francisco de Assis ou Erasmo de Roterdão, soube enaltecer uma vida pobre, afastada e mais livre: “Agora dei a volta por caminhos / De solitários bosques enramados, / De feras bravas, mansos passarinhos; // Que ainda que entre espinhos conversados, / Mais quero pé descalço entre espinhos, / Que dos homens humanos espinhados”.

Nestes dias estranhos, em que fomos forçados a uma existência de espera e de suspensão, rodeada pelo perigo, vivemos quase todos em reclusão. Vivendo, apesar de tudo, num lugar privilegiado, senti este confinamento como uma prisão domiciliária. Nem as exigências da tutela do meu ministério – ficcionando uma escola que de facto está parada e não pode ser substituída por um “novo paradigma tecnológico” (que prejudica sobretudo os alunos pobres, sem recursos materiais e sociais) – me fizeram desligar desse incómodo sentimento de pena maior, apesar da ausência da pulseira electrónica.

Fui tentando, com os meus, ocupar o tempo, distraindo-me. Cumpri obrigações. Correspondi a devoções. Descobri tarefas sempre adiadas e que, agora, viram finalmente a sua concretização chegar a bom porto. Um arbusto finalmente cortado. As ervas do quintal arrancadas, ao fim de meses de selvagem crescimento. O pó do escritório erradicado, depois de tanta preguiça. O artigo que pelos vistos avança, após tantos pedidos ouvidos, mas não escutados. A leitura retomada. O filme redescoberto e, no reencontro, aquela peça musical nunca atendida… Sem largar o medo, lutei e luto contra o medo, sabendo que o temor não irá impedir a entrada do vírus, se ele tiver de entrar e fazer das suas. Nada disto era, todavia, capaz de pelo menos atenuar o toque das grades numa gaiola invisível.

Até que resolvi redescobrir a varanda do primeiro andar que, não fossem as restrições da arquitectura do bairro, já teria desaparecido. Pela manhã, depois de uns minutos de conversa com o miúdo, resolvi deixar-me estar por ali. A ler. Coisa que nunca ali fizera, pela falta de resguardo que sentia retirar-me a privacidade para mim inerente ao acto de leitura. Quase sem gente pelas ruas, desta vez afoitei-me com o livro na mão. Senti-me como as monjas jerónimas do mosteiro de Trujillo, mesmo sem ter a sua virtude nem a sua torre nem o seu horizonte. Tudo se tornou mais leve, mesmo sem afastar da mente o chumbo que nos domina e condiciona. Virei-me para sul e, acompanhado pela passarada, sobretudo por uma família de corvos pela qual tenho particular afeição, redescobri no horizonte essa Serra que nos “move a contemplar mais fermosura”.

Afinal, “não há melhor manjar que liberdade”, como diz o poeta-frade que nasceu há 480 anos. Mesmo que só possamos comer o que resta do açambarcamento diário nos supermercados, mesmo que nos vejamos obrigados ao recolhimento que talvez seja apenas uma forma de salvaguarda, mesmo que as perdas nos angustiem, só tendo o poliedro da liberdade no pensamento conseguiremos transformar a reclusão em clausura, encontrando novas formas de resistência e de elevação. Talvez consigamos, assim, ver no hortus clausus, no horto fechado da nossa casa e das nossas vidas (afinal povoado por muitas ínfimas alegrias a descobrir), um lugar propício onde o vazio e o abalo destes dias se transformem em detergente. Talvez assim sejamos obrigados a limpar de nós e desta civilização muita da sujidade que, há demasiado tempo, vai entupindo os nossos poros, impedindo a nossa mais subtil respiração. Talvez. Não sei. Não obstante, assim desejo. E nesse desejo creio ser acompanhado por muitos.

 

Ruy Ventura é poeta, ensaísta e investigador, e organizador da Antologia Poética, de Frei Agostinho da Cruz.

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco