
“Aliás, este é o tempo do disfarce. Porto-me em função do que quero que pensem de mim; exponho-me em função do que me pode privilegiar, encubro-me em função do que me poupa dissabores e, um dia, deixo de ser quem sou, mas não faz mal.” Foto © Quino Al / Unsplash
Provavelmente, nos tempos que correm, este título não interessa mesmo nada. Ainda assim há que arriscar. Todos temos imensas coisas para dizer e um manancial infindável de opiniões a dar. Vamos assoberbando os canais através dos quais comunicamos com dezenas de assuntos, ditos e reditos de milhares de maneiras.
Nem me passa pela cabeça sintetizar os conteúdos preferenciais que nos invadem ou com que nos invadimos uns aos outros; mas, se passasse, creio que os incluiria numa restrita plêiade de matérias que apenas parecem muitas, mas realmente têm, sobretudo, uma função – desviar-nos do essencial e do autêntico.
Precisamos urgentemente de não temer ser quem somos. Quando entramos em certos contextos mais sensíveis, percebemos que algumas decisões se tomam porque a essência dos envolvidos andou disfarçada em representações de papéis e em ilusões permanentes. E, quem decidiu, não tem culpa. Somente foi enganado.
Aliás, este é o tempo do disfarce. Porto-me em função do que quero que pensem de mim; exponho-me em função do que me pode privilegiar, encubro-me em função do que me poupa dissabores e, um dia, deixo de ser quem sou, mas não faz mal. Os outros pensam acerca desta personagem qualquer coisa que não eu. Apenas uma produção fictícia com certo fito insondável, mas que, certamente, privilegiará quem deste modo opta por viver.
O maior problema não é quando ocorrem insignificâncias como o uso de programas para disfarçar imperfeições estéticas ou os pequenos registos nas redes sociais de pseudo-vivências deslumbrantes. Isso não interessa nada, mesmo nada, porque só os iludidos pensam que importam aos outros que tantos likes sem olhar vão colocando só porque sim, porque dá jeito. Não é confessável, mas, quando falamos com muita gente que usa redes sociais, percebemos que a apreciação dos desfiles de outros é sentida entre a indiferença, a admiração e a inveja – todas, feliz ou infelizmente, de curta duração.
A grande questão coloca-se quando os profissionais do faz de conta estão em lugares que deveriam impor autenticidade, respeito e entrega plena. Até para brincar é preciso ser sério e recusar interiormente a perversidade. Quanto mais quando falamos de instituições responsáveis e das coisas de Deus.
Ser simples, não ter agendas próprias ou escondidas, não fabricar percursos de médio prazo com estratégias que, já a curto, soam muito mal e impactam, nas pessoas um pouco mais esclarecidas, ainda pior… Será que estamos vaticinados a conceber isto no mundo ideal que, por ser isso mesmo, nunca se alcançará?
Friedrich Nietzsche disse que o homem alcança sua maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade com que uma criança encara uma brincadeira.
De facto, o que distingue os sábios dos outros é que o que dizem: mesmo que os tempos mudem, mantém-se atual e, quem sabe, cada vez mais apropriado.
Será que as crianças continuam a saber brincar, mas os adultos deixaram de saber viver? Em que momento nesta caminhada entre a infância e a adultícia é que cada ser se perde de si mesmo para se encontrar com uma ficção que, entretanto, deixou o seu eu pelo caminho?
Não tenho respostas concisas para estas perguntas, mas tenho sonhos que gostaria de ver concretizados.
Queria ver os meus lugares de pertença límpidos e acolhedores;
Queria sentir que os que os preenchem, desejam, a cada passo, fazer o melhor que podem e o melhor que sabem.
Queria que a apologia da autenticidade não fosse mais uma das minhas quimeras, mas um manancial de desejos simplesmente tornados realidade.
Queria, enfim, que o homem pudesse deixar no mundo uma marca boa quando fosse embora daqui e que não se esquecesse que essa deveria ser a sua maior ambição discreta, mas consistente.
Na verdade, estas linhas, apesar de parecerem uma crítica ao insondável humano, são, em simultâneo, um elogio. Um elogio a todos os que, com coragem e com fé, entregam a sua vida e dão, discretamente, o melhor de si em prol dos outros a quem servem e de quem não se servem; um elogio aos serenos que aprofundam a sua razão de viver com a tranquilidade de quem procura conquistar em inteireza a consciência da sua missão; um elogio e também uma homenagem aos que, na sua juventude, não se importam com as oportunidades das quais possam estar a abdicar, pois já descobriram que, como disse, Antoine de Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.










