Aprender a dizer amor

| 5 Dez 19 | Entre Margens, Últimas

Jorge Jesus, treinador do Flamengo, o mais falado clube nos últimos dias, afirmou: “No Brasil aprendi a dizer amor… Em Portugal é uma complicação para dizer amor. Quero desfrutar desse amor”. Sim, mas porque será tão difícil aos portugueses dizê-lo?

Na cultura anglo-saxónica, por exemplo, é corrente dizer “amo-te!” no final dum telefonema vulgar para um namorado, marido ou filho. Entre nós isso é considerado estranho ou uma lamechice. Mas o poeta não tem tais pruridos: “Diz o meu nome/pronuncia-o/como se as sílabas te queimassem/os lábios” (Mia Couto).

Porque é mais fácil dizer na cara de alguém que não se gosta dela do que dizer que gostamos da pessoa? Talvez porque, no primeiro caso, logo que o dizemos ficamos preparados para uma reacção negativa, a fim de não nos deixarmos magoar. Se a pessoa disser “Pois eu também não gosto de ti!”, já estamos resguardados. Mas se eu disser à pessoa que a amo estou a expor-me. E se ela responder que o sentimento não é recíproco, que não quer saber de mim para nada, então vou ficar magoado pois estou com as defesas em baixo.

Muita gente confunde os afectos com a expressão dos mesmos. Muitos têm afectos para com familiares e amigos, mas não os sabem expressar. O facto é que os filhos tendem a reproduzir os modelos de comportamento dos pais. Se uma criança nunca viu o pai acariciar a mãe ou dizer-lhe palavras afectuosas, quando crescer dificilmente o fará à sua companheira ou companheiro, mesmo que lhe tenha muito amor. Muitos até confundem expressão de afectos aos filhos pequenos com o acto de lhes dar presentes, quando não com o suprimento das suas necessidades básicas, esquecendo que dar de comer, vestir e calçar não passa do dever intrínseco dos pais para com as crianças que trazem a este mundo.

O facto é que ainda se ouve falar de famílias que no Portugal de há muitas décadas cresceram em lares com défice de afecto e até de comunicação. No tempo dos nossos avós era vulgar que os filhos se sentassem em silêncio para jantar, só falavam quando lhes perguntavam alguma coisa e nem pensar em levantar da mesa sem pedir licença ao patriarca.

Mas creio que a situação se deve sobretudo a uma cultura marialva, em qualquer caso muito machista, que ainda não fomos capazes de ultrapassar e que considera a expressão dos afectos como coisa feminina ou pouco viril. Assim, torna-se mais fácil agredir física ou verbalmente do que acariciar.

Jorge Jesus disse que tinha “aprendido” a dizer amor. Exprimir verbalmente o amor que se tem é uma competência inata, aprende-se. Nas crianças é algo que funciona por modelagem, elas reproduzem o modelo parental. É por isso que as crianças que crescem em ambientes de violência doméstica acabam por tornar-se agressores quando adultos, desenvolvendo um interminável ciclo de maldição.

O discurso de Jesus Cristo e os escritos apostólicos neotestamentários estão repletos de uma mensagem de amor. Esse mote vai desde o Sermão do Monte às cartas de João Evangelista. Agora que se aproxima a época natalícia, talvez seja bom recordar o que escreveu o profeta Isaías setecentos anos antes de Cristo: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Estas caracterizações do Messias esperado pelo Antigo Israel não compaginavam com o varão de guerra Iavé a que os hebreus estavam habituados, na linha dum Deus étnico, à semelhança das divindades dos povos seus contemporâneos, embora com a característica singular do monoteísmo. Não. Qualquer dos cinco títulos referenciados remete para um Deus de proximidade e de paz. E porquê “Deus forte”? Só pode ser pela mesma razão que o apóstolo João nos adianta a essência divina: “Deus é amor” (1 João 4:16b). Ou seja, Deus é amor porque o amor é a força mais poderosa do universo. Já o rei Salomão o sabia: “O amor é forte como a morte” (Cântico dos Cânticos 8:6c).

Mas talvez possamos aprender a dizer amo-te com Joaquim Pessoa: “Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões. Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.” (Ano Comum).

Afinal, talvez seja tão difícil dizer amor apenas porque não o conseguimos compreender.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Centro cultural Brotéria já abriu no Bairro Alto, em Lisboa novidade

O novo centro cultural da Brotéria, revista dos jesuítas fundada em 1902 no Colégio São Fiel (Castelo Branco), abriu esta quinta-feira, em Lisboa, junto à Igreja de São Roque (Bairro Alto), mas o programa que assinala o facto prolonga-se nestes dois dias do fim-de-semana.

Vaticano ordena investigação a bispo por acusações de abuso sexual

O Vaticano ordenou uma investigação de alegações de abusos sexuais contra o bispo Brooklyn, Nicholas DiMarzio, que antes tinha sido nomeado pelo Papa Francisco para investigar a resposta da Igreja ao escândalo dos abusos sexuais cometidos por membros do clero na diocese de Buffalo.

Semana pela unidade dos cristãos com várias iniciativas

Várias iniciativas assinalam em Portugal a Semana de Oração pela Unidade os Cristãos, que se prolonga até ao próximo sábado, 25. Entre elas, uma oração ecuménica na igreja de Santo António dos Olivais decorre em Coimbra na sexta, 24, às 21h, com responsáveis de diferentes igrejas e comunidades.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Arte e Esperança novidade

Tenho tido a sorte de acompanhar, desde 2016, a apresentação dos Projetos Partis (Práticas Artísticas para a Inclusão Social) na Gulbenkian e em todos respiramos com emoção a frescura da criação artística onde os protagonistas são pessoas normalmente esquecidas por nós.

Cultura e artes

Cinema: À Porta da Eternidade

O realizador Julian Schnabel alterou, com este filme, alguns mitos acerca de Vincent van Gogh, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos. Os cenários, a fotografia e a iluminação do filme produzem uma aproximação visual às telas do pintor, no período em que van Gogh parte para Arles, no sul de França, em busca da luz, seguindo todo o seu percurso até à morte, aos 37 anos de idade.

Que faz um homem com a sua consciência?

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Jan
31
Sex
III Congresso Lusófono de Ciência das Religiões – Religião, Ecologia e Natureza (até 5 de Fevº) @ Universidade Lusófona, Templo Hindu, Mesquita Central e Centro Ismaili
Jan 31@09:30_14:00

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco