Aprender a falar com feijões

| 21 Jun 20

Uma cena do filme Uma Pastelaria em Tóquio. Foto: Direitos reservados.

 

(Re)visto agora, a partir da janela do confinamento, este filme Uma Pastelaria em Tóquio ganha novos sabores, que é como quem diz, entranha-se em nós de uma maneira mais intensa.

Podemos então começar por dizer que temos diante de nós, três personagens de idades e situações diferentes “em quarentena”, quer dizer, sozinhos, em sofrimento, encerrados em dias repetitivos, sem ponto de fuga, à espera de nada. Até que Tokue, uma mulher já vergada pelo peso dos anos e da vida, mas ainda capaz de levantar o olhar para ver, falar e até dançar com as cerejeiras, se aproxima da pequena pastelaria que faz dorayaki – uma espécie de panqueca dupla recheada com uma pasta de doce de feijão azuki. Tokue tinha vindo do lugar onde estava confinada, desde a adolescência, sabia melhor do que ninguém fazer a tal pasta de doce de feijão e dispunha-se a trabalhar naquela pastelaria a troco de quase nada.

Essa pastelaria é gerida por Sentaro, que estava ali, sem alegria, consciente de que aquilo que oferecia não tinha qualidade, ao ponto de nunca ter comido nenhum dos dorayaki que vendia. Como um condenado a expiar penas passadas.

E de entre as adolescentes que frequentavam a pequena pastelaria, destacava-se Wakana, uma rapariga de olhar melancólico e pouco faladora, que vivia num apartamento onde nem sequer era autorizada a ter um pássaro, porque ele cantava demais. Wakana ficava sempre para trás e Sentaro dava-lhe as sobras dos doces que não vendia.

Tokue acabou por ficar a trabalhar ali, ao fim de algumas tentativas e depois de Sentaro ter provado a pasta de doce de feijão que ela fizera, concluindo que nunca comera nada assim. A sua chegada vai alterar tudo na vida de Sentaro e Wakana. Aquela mulher é de tal modo singular e feliz, entrega-se tão inteiramente ao que faz e às pessoas, que elas não ficam indiferentes e, pouco a pouco, vão abrindo os corações, tomando consciência das feridas que lhes doem e os fecham em si mesmos.

Tokue, que apesar do sucesso da sua pasta de feijão tinha deixado de vir trabalhar porque era leprosa, com a sua simplicidade e serenidade, tinha-os levado a descobrir que a vida pode estar cheia de sentido, mesmo com todas as maldades e dificuldades.

Saberemos isso no final, quando Sentaro e Wakana numa nova visita ao sanatório, ficarem a saber que Tokue tinha morrido e percorrerem um caminho de redenção, acompanhados pela amiga mais próxima de Tokue. Então, Sentaro recebe em herança os utensílios com que ela fazia a deliciosa pasta de doce de feijão e Wakana fica a saber que o seu canário voa agora em liberdade. Junto da cerejeira que “imortalizaria” Tokue e a lua no alto, Wakana e Sentaro encontraram, finalmente, os seus caminhos.

A alguns olhares este é um filme sentimental, mas eu creio que não. É um filme de emoções e de denúncias. As cenas na pastelaria, quando demoradamente é trabalhada e apurada a pasta de doce de feijão, sem pressas e com toda a ternura, são tão belas como as cerejeiras em flor ou o caminhar por entre as árvores no jardim. Ao rever estas imagens, não consegui deixar de me lembrar do escritor Luís Sepúlveda e do seu amigo Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food. Precisamos de aprender a viver segundo um ritmo mais humano, necessariamente mais lento, mas seguramente mais capaz de nos fazer felizes.

Mas o filme, segundo a própria realizadora, Naomi Kawase, quer também ressaltar a necessidade de não deixarmos que a sociedade nos isole ou nós próprios criarmos barreiras que nos impeçam de estar bem com os outros. E termino com uma frase sua: “Por vezes, ao olharmos para uma pessoa à distância pensamos que ela está demasiado zangada, mas se nos aproximarmos o suficiente reparamos que, na realidade, pode estar a chorar, simplesmente à procura do calor humano das outras”.

 

Uma Pastelaria em Tóquio, de Naomi Kawase
Com Kirin Kiki, Masatoshi Nagase e Kyara Uchida
Drama; Japão/Alemanha/França, 2015; Cores; 113 min.

 

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