Aprender a ser nada

| 17 Jan 2024

“Num mundo em que todos queremos fazer alguma coisa da nossa vida e ser alguém, ser nada parece uma atitude derrotista.” Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

 

 

Numa história que escreveu, a escritora Lydia Davis conta que, depois de ouvir o seu amigo Bob desejar emagrecer e beber menos, sentiu a necessidade de reflectir sobre o que poderia ser o seu propósito do Ano Novo. Por alguma razão, qualquer coisa que escolhesse parecia pouco. Lydia escolhe — «aprender a ver-se a si própria como nada.» Parece um contrassenso alguém definir um propósito assim, mas talvez não esteja tão longe da sabedoria como poderíamos pensar.

Num mundo em que todos queremos fazer alguma coisa da nossa vida e ser alguém, ser nada parece uma atitude derrotista. Lydia pretendia ser humilde com aquela resolução e reconhecia quantas coisas amontoamos na nossa vida que, honestamente, se resumem a muito pouco. Mas o esforço feito para ser nada não é fácil. Lydia diz que pode ser até demasiado para começar um ano assim e conclui que o melhor será tentar, em cada dia, ser um pouco menos daquilo que costuma ser. A sabedoria contida na aprendizagem a sermos nada está na consciência de haver essenciais na nossa vida que a tornam plena.

É inegável a percepção de estarmos a viver num mundo ruidoso de informação a querer influenciar-nos para fazermos parte de uma sociedade de consumo. Sabes o que é o Zyn? Eu não sabia, num recente ensaio que li no The New York Times, aparentemente, muitos adolescentes sabem o que é o Zyn através dos influencers das redes sociais como TikTok. Zyn são bolsas de nicotina que pretendem substituir o tabaco. Apesar de ser um produto dirigido a adultos, os influencers induzem os adolescentes ao consumo de Zyn. Um outro exemplo da influência comportamental aconteceu no início deste ano quando várias crianças de 10 anos e adolescentes entravam nas lojas da Sephora por terem sido induzidos pelos influencers a desejar cuidar da pele para combater o envelhecimento. Na visão de algumas mães que aspiram a serem influencers da Sephora, justificam esta atitude como parte do modo típico de idolatria dos adolescentes, pelo que não deveríamos fazer disto um drama. Porém, as mães-influencers esquecem que muitos filhos são os influencers compulsivos de pais que têm poucos recursos, potenciando distúrbios familiares que se fossem uma laranja, espremíamos e daria uma gota de sumo. Muito sacrifício para pouca essência. É aqui que a sabedoria de aprender a ser nada traz valor à vida de cada pessoa.

Ao meditar com o Venerável bispo Fulton Sheen (1895 – 1979) através do seu livro “Way to Inner Peace”, quando ele reflecte sobre o silêncio reconhecia, já no seu tempo, como vivemos na era mais “falativa” da história do mundo. Esta perspectiva não se alterou nos nossos dias, mas o “falatório” incrementou exponencialmente. Sheen diz que — «O amor ao ruído e entusiasmo da civilização moderna deve-se, em parte, ao facto das pessoas serem infelizes interiormente. O ruído exterioriza-as, distrai-as, e fá-las esquecer as preocupações, pelo menos, naquele momento. Existe uma inequívoca ligação entre uma vida vazia e um ritmo frenético. Para progredir, o mundo precisa de agir, mas precisa também de saber a razão de agir e isso requer pensamento, contemplação e silêncio.» — Três aspectos essenciais que aprendemos quando procuramos ser nada.

Pensar é um acto de amor que fazemos por nós de modo a não engolirmos tudo o que nos é dado a comer; e pelos outros quando partilhamos as ideias e experiências que vivemos interiormente.

Contemplar é um acto de rendição que fazemos para colher o que a vida exterior oferece e examinar tudo no nosso interior. O mais natural é não pensar sequer sobre o que contemplamos, embora dentro de nós a emoção e a razão entrem numa dança misteriosa da qual podem nascer ideias inesperadas.

Silêncio é uma pausa onde o vazio do nada que somos descobre o essencial do santuário que nos habita. Um santuário onde a consciência se abre a uma Presença que dá sentido e significado a tudo o que existe.

Ter como propósito ser nada num mundo que nos impõe a ideia de podermos ser tudo à distância de um clique parece impropositado. E na sociedade do entretenimento, este propósito de Lydia Davis para o Ano Novo poderá ser acolhida como mais uma “coisa gira” de ler que nos mantém entretidos, sem produzir qualquer efeito. Pois, se nada sou, onde encontro o ponto de apoio para continuar a viver? De facto, como vivemos muito para ser alguma coisa ou alguém (um influencer quiçá), acolher como propósito este ano algo como “aprender a ser nada” parece-nos um enorme desafio. Exige pequenos passos.

Um dos passos pequenos para ser um pouco menos do que sou poderia ser dar um pouco mais de mim aos outros. Pode ser através de um gesto, uma palavra, um ouvido, uma mão, uma ideia, sem limite à criatividade que o momento presente suscita. Aquilo que parece um pequeno passo para nós, pode tornar-se um salto gigante na descoberta daquilo que é essencial no caminho para uma vida plena. Uma vida onde os outros podem ser tudo em nós. Pois, se nada formos, criamos à nossa volta um espaço de acolhimento único e irrepetível que pode levar os outros a fazer uma experiência de serem amados. Talvez o propósito de aprender a nada ser não se destine a nós próprios, mas a criarmos uma comunidade de amor que desafia o modo como o mundo parece ser.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor) e  Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

 

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