Aprender a vulnerabilidade: Viver em pleno vento

| 10 Abr 20

Há dias, aceitei a oferta de um querido sobrinho meu que me foi fazer compras no supermercado. Dir-se-á que isto não tem nada de especial, dado que sou uma respeitável septuagenária. No entanto não estou habituada, confesso, a que cuidem de mim. Sou bastante independente e habituei-me desde muito cedo a ser autossuficiente em muitas dimensões da minha vida. Não gosto de mostrar a minha vulnerabilidade. Evito que “me vejam nua”… prezo “meu espelho, minha vida, minha imagem”.

Céu. Nuvens

“Prezo “’meu espelho, minha vida, minha imagem’”. Foto © Teresa Vasconcelos

 

A palavra “imagem” trouxe à minha mente mais um poema de Sophia:

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

(Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto)

Vivemos em interdependência. Por isso faz sentido vestirmo-nos “com os gestos” do outro. Por tudo o que o poema diz gostaria de refletir neste episódio das compras. A trágica crise da covid-19 tem-me ensinado muita coisa: a experimentar prazer em estar sozinha, saborear cada momento do dia porque não tenho pressa, contrariar a minha tendência de ser workaholic, usufruir de música sem literalmente fazer mais nada, rezar e contemplar em silêncio… tendo sempre como pano de fundo esta tragédia que assola toda a humanidade… não parando de me dizer a mim própria que sou uma privilegiada.

Ora esta crise está também a ensinar-me a “aprender a receber” e a “ser cuidada”. Esse facto põe-me em contacto com a minha profunda vulnerabilidade. Sou duplamente grupo de risco nesta pandemia e vou cumprindo as orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS). Ando um bocadinho farta das “dicas” e conselhos, frequentemente contraditórios, que recebo a toda a hora através das redes sociais.

Continuo a fazer a minha meia hora matinal caminhando vigorosamente na Quinta das Conchas quando não há quase ninguém a não ser os freaks da corrida que, se eu não estivesse atenta, vinham cegamente esbarrar-se contra mim. Já tive várias vezes de saltar para o lado para poder respeitar as normas de distanciamento propostas pela DGS.

Procuro ir cumprimentando as pessoas com um bom-dia mas, salvo raras exceções, nem sequer tomam consciência da minha presença ou viram a cabeça para o chão temendo que o vírus também passe através de um simples aceno de cabeça ou de um meio sorriso. Não há dúvida que andamos com medo; no entanto, prefiro falar num profundo e justificado receio com a nossa própria sobrevivência e a dos outros.

Chão. Árvores. Passeio

“Há muitos anos que passeio naquele parque…” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Há muitos anos que passeio naquele parque, mas nunca como agora diversifiquei os percursos de modo a poder olhar a mesma coisa ou planta sob vários ângulos. Assim me parece dever ser a verdadeira hospitalidade: entrar no ponto de vista dos outros. Esta primavera esplendorosa prolonga-se na minha varanda cheia de sol onde as plantas estão cada vez mais belas e verdes porque tenho tempo para “falar com elas”… Gosto desta gratuidade que me serena e ajuda a pôr tudo em perspetiva para atravessar mais serenamente o “deserto deste mundo”.

Voltando às compras: foi bom aceitar a oferta generosa do meu sobrinho porque tive também a oportunidade de o ver, mesmo que a uma correta distância, ambos protegidos por máscaras e luvas. Vontade de dar um imenso abraço, mas esta contenção obrigou-me a encontrar novos modos de dizer que lhe quero bem. E os meus olhos marejaram-se de lágrimas. Ao tomar consciência da importância de um caloroso abraço pensei em tanto que tomávamos por garantido e não é, nem provavelmente será mais assim. Tudo é dom de Deus e da vida… vivemos este tempo como se estivéssemos sós “num descampado”.  Mas não estamos, não.

A aprendizagem de nos deixarmos ser cuidados, assumindo a nossa imensa fragilidade, é física mas é também espiritual. Curvo-me perante a experiência de me abrir ao dom sem pretender não “dar parte de fraca” ou tudo querer controlar em mim, mesmo que seja para pensar em como devolver logo aquilo que recebi do outro… Relembro Etty Hillesum e a sua afirmação, no campo de concentração de Westerbork, de que Deus precisa das nossas mãos para cuidar do mundo. Ora Deus também me convida a abrir as palmas das mãos para que outros cuidem de mim.

Da Junta de Freguesia do Lumiar telefonaram-me no início desta quarentena a saber se precisava de alguma coisa, nomeadamente compras ou farmácia. Trata-se de uma junta de freguesia que sabe estar próxima das pessoas, mas mesmo assim estranhei. Passados alguns dias telefonou um psicólogo do projeto Radar, da Misericórdia de Lisboa, a saber da minha saúde mental. Lembro-me que há meses tinha respondido a um inquérito porta-a-porta feito por jovens e que preparava o lançamento do projeto. Com o psicólogo ri bem-humoradamente, descansei-o afirmando que (para já…) estava muito bem e que recorreria aos seus préstimos se começasse a “resvalar”. Não deixei, no entanto, de anotar cuidadosamente o contacto telefónico.

Tomo consciência – muito formativa, aliás – de que ser frágil e necessitada é uma forma fundamental de se estar neste mundo. Pedir ajuda deve fazer parte da natureza humana. E que, ainda que sozinha neste tempo em que estou confinada à minha casa, não estou . Estou interligada. Mas há momentos em que me comovo às lágrimas, sobretudo quando me deparo com muitas situações relatadas nos órgãos de comunicação ou nas redes sociais. Mas junto-me a Cristo que também chorou como nós choramos ao longo destes dias de chumbo: veja-se o episódio da morte de Lázaro lido há dias na liturgia católica. Ou relembremos a agonia de Jesus no horto. Ou finalmente a sua suprema vulnerabilidade: “Pai, afasta de mim este cálice.”

Aprendo e aceito o conforto de experimentar ser cuidada por alguém. Acolho “os gestos” de quem quer cuidar de mim. E, em última instância, confio nesse Alguém que cuida e a que eu chamo Deus.

Com esta companhia vou aprendendo a viver “em pleno vento”…

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada), participante do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

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