Aprender

| 18 Fev 2023

"Fico sempre espantada com gentileza dos melhores. Poderiam ser os mais arrogantes, mas não, são delicados e generosos.” Foto © Inês Patrício

“Fico sempre espantada com gentileza dos melhores. Poderiam ser os mais arrogantes, mas não, são delicados e generosos.” Foto © Inês Patrício

 

Nos seus cinco anos pediu, de repente, que parássemos o carro. Parámos no meio do trânsito. Saímos as duas. Ela começou a chorar. À nossa volta ruído e confusão. Caminhámos. Ela só disse que não se sentia bem. Sei que não fala ao acaso. Não quer falar ao acaso. Precisa de tempo. Por isso caminhámos as duas. Mais à frente sugeri que parássemos. Ela aceitou. Sempre a chorar baixinho afastava-se sempre de mim, uns quatro metros, virava-me as costas. Eu sentei-me. Ela ia conferindo que eu continuava ali e que estava atenta, mas virava-se e chorava. Lá disse que estava enjoada. Assim de a observar percebi que não queria que a visse a vomitar, caso acontecesse. Várias pessoas apareceram e tentaram ajudar, para desespero dela. Afastaram-se. Eu senti uma grande calma. Só me restava ter calma, não querer resolver, esperar apenas. Estar. Ela ensina-me imensas coisas, nem imagina.

Na Alemanha, a formação contínua no trabalho é, muitas vezes, obrigatória. É comum ter-se um número de créditos a cumprir por ano. O empregador suporta os custos. Para muitos parece ser uma chatice. Voltar aos bancos da escola. Para mim é uma delícia. Discutimos com colegas e ganha-se a sensação de unidade. Temos ali pessoas que sabem e nos transmitem, em algumas horas, o que demoraríamos anos a aprender sozinhos. Receber. Fico sempre espantada com a gentileza dos melhores. Poderiam ser os mais arrogantes, mas não, são delicados e generosos.

Os Macadame cantam “como pode o sol ser velho, se nasce todos os dias?” E fico invariavelmente presa à frase. Não sei mesmo se alguma vez ouvi o resto da letra. É que cheguei ao meio da vida. Já me disseram. Mas oiço aquela música e todas as semanas vejo uma mulher com mais de 80 anos, que mal consegue dobrar os joelhos, a dançar, e ela é maravilhosa. Todos os movimentos sentidos e bonitos. Os olhos brilhantes, profundos, parecem que nos vêem a nuca. Dançar. Aprendo com ela e nem falamos.

Maurice Bellet escreveu: “Aprendei que nenhuma regra produz a verdade, que o horizonte permanece sempre horizonte (mesmo que mude de cor ao longo do caminho), que não é bom para o homem estar só. Aprendei a respirar, a comer, a dormir, a falar e a calar-vos. Aprendei a ler. Aprendei a servir-vos bem dos vossos olhos, dos vossos ouvidos e das vossas mãos. Aprendei a aguentar-vos de pé.” Hoje foi mais um dia triste de eleições para mim. Berlim quer virar à direita. Para mim, os dias de eleições começam sempre com sol e esperança e terminam, quase sempre, escuros e tristes. Também isso tenho de aprender. Reaprender sempre e a cada vez. Abrir os olhos. Aguentar. Aqui, hoje, a espera não é calma, é inquietação.

Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.

 

Há menos países a aplicar a pena de morte, mas número de execuções foi o mais elevado em quase uma década

Relatório 2023

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A Amnistia Internacional (AI) divulgou na madrugada desta quarta-feira, 29 de maio, o seu relatório anual sobre a aplicação da pena de morte a nível mundial, que mostra que em 2023 “ocorreram 1.153 execuções, o que representa um aumento de mais de 30 por cento em relação a 2022”, sendo que “este valor não tem em conta os milhares de execuções que se crê terem sido realizados na China”. Este “foi o valor mais alto registado” pela organização “desde 2015, ano em que houve 1.634 pessoas executadas”.

Há uma “nova vaga de terror contra os cristãos” no Paquistão

Ataques sucedem-se

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O recente ataque a um cristão falsamente acusado de ter queimado páginas do Corão, por uma multidão muçulmana enfurecida, no Paquistão, desencadeou “uma nova vaga de terror” contra a minoria religiosa no país. Depois deste incidente, que aconteceu no passado sábado, 25 de maio, já foram registados outros dois ataques devido a alegados atos de “blasfémia” por parte de cristãos.

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A memória presente em pequenas tábuas

Museu Abade de Baçal

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“Segundo uma Promessa” é o título da exposição inaugurada a 18 de maio no Museu Abade de Baçal, em Bragança, e composta por uma centena de pequenos ex-votos, registados em tábuas, que descrevem o autor e o recetor de vários milagres, ao longo dos séculos XVIII e XIX. “O museu tem a obrigação de divulgar e de mostrar ao público algum do património que está disperso pela diocese de Bragança-Miranda”, disse ao 7MONTES Jorge Costa, diretor do museu.

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O que espero de todos é que nos tornemos cada vez mais gente de bem. O que espero dos que tolamente se afirmam como “portugueses de bem” é que se deem conta do ridículo e da pobreza de espírito que ostentam. E que não se armem em cristãos, porque o Cristianismo está nas antípodas das ideias perigosas que propõem.

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