Aquecimento global e o futuro da humanidade

| 23 Ago 2021

Cidade. População

“As cidades progrediram em prejuízo das florestas, e a indústria libertou mais CO2 para a atmosfera do que havia sido libertado durante todos os milhares de anos anteriores, desde que existe história escrita.” Foto © Ishan /Unsplash

 

Haja ou não interferência humana (e tudo aponta para que haja), o clima da Terra está inexoravelmente a aquecer. Não obstante o facto bem conhecido pelos geólogos e paleoclimatólogos, de que estamos, desde o fim da última glaciação, na curva ascendente da temperatura global (há vinte mil anos que a Terra está a aquecer[1]), é difícil negar que a espécie humana se tenha tornado noutro fator a ter em conta neste processo. Nos últimos 150 anos, a população mundial cresceu exponencialmente como em nenhum outro momento da história humana, e com ela as cidades progrediram em prejuízo das florestas, e a indústria libertou mais CO2 para a atmosfera do que havia sido libertado, arrisco-me a dizer, durante todos os milhares de anos anteriores, desde que existe história escrita.

Hoje somos mais de sete mil milhões, a demanda por recursos é inédita e a ameaça de exaustão do planeta nunca foi tão grande e real. O facto de estarmos em toda a parte, levados cada vez mais pela pressão demográfica e pela demanda cada vez mais urgente por recursos, torna-nos cada vez mais suscetíveis a fenómenos extremos. Hoje uma seca em África ou num qualquer planalto indiano, tem consequências muito mais graves do que há 100 anos, porque o número dos que ficam sem comer é muito superior. Fenómenos extremos sempre existiram – cheias, incêndios, secas, etc. –, mas hoje há muito menos lugares de refúgio. As migrações populacionais massivas são hoje muito mais difíceis, porque o espaço é um bem cada vez mais escasso. E como bem se viu – e vê – nos últimos anos, os grandes estados e blocos federais (à cabeça, EUA e UE) não estão dispostos a abdicar da sua relativa qualidade de vida para acolher massas de migrantes, que não fogem só de zonas de conflito, mas também da escassez de água, das secas e do esgotamento dos solos.

A história e a pré-história são, em larguíssima medida, a crónica das migrações humanas, frequentemente motivadas por mudanças climáticas, desde a entrada do Homo Sapiens na Europa a partir de África, às ditas invasões bárbaras do Império Romano. Mas hoje, por virtude das próprias circunstâncias demográficas e políticas, não há muito para onde escapar em busca de melhores condições existenciais.

Se é verdade que os fenómenos extremos se multiplicam, é mais verdade ainda que a humanidade está muito mais sujeita a eles, pelo simples facto de o espaço vital ser cada vez mais limitado.

O planeta vai aquecer inexoravelmente[2], pelo menos ainda ao longo de uns quantos milhares de anos, até a curva climática se inverter novamente. A humanidade tem de se preparar para isso. Não é só uma opinião; é um facto geológico. E como é que se prepara uma humanidade que, por volta de 2050, pode chegar a 15 mil milhões de almas?

Por um lado, um melhor aproveitamento do espaço vital. A litoralização das urbes terá progressivamente de dar lugar a uma redistribuição mais equitativa e equilibrada dos aglomerados populacionais. A divisão entre litoral e interior terá progressivamente de desaparecer e as terras ainda aráveis terão de ser postas a produzir de forma sustentada e sustentável. Porque, não nos iludamos, os desertos vão expandir-se para norte e para sul, e o litoral tenderá a ser absorvido pelo mar. As terras aráveis serão cada vez mais escassas e a água potável também.

E a não ser que a tecnologia permita produzir massivamente alimentos a partir de células estaminais ou vegetais e frutos em estufas globais, veremos talvez diluir-se a divisão entre produtores e consumidores, pois num mundo onde a demanda é grande e a terra é escassa, todos terão de fazer a sua parte, em toda a parte. A autossuficiência será porventura, e cada vez mais, uma necessidade local.

Desertos e pântanos terão de ser convertidos em terras aráveis, e veremos porventura emergirem cidades em locais onde hoje julgaríamos impossível, como em pleno Saara, no subsolo, nos fundos marinhos ou nos picos montanhosos. Talvez grandes cidades-redoma, climatizadas em ambiente artificial.

Países como Israel e o Egipto sabem bem o que significa transformar desertos em terras aráveis e em cidades, porque se confrontam, ou confrontaram no passado, com o problema de um território cada vez mais exíguo para uma população sempre crescente (no caso do Egipto, são 100 milhões para uma faixa de território ao longo do Nilo, equivalente em área ao Alentejo, sendo que o resto, a ocidente e a oriente, é basicamente deserto). Outros países, como a Índia, não têm mais por onde crescer, e as populações camponesas, vítimas de secas intermináveis e do esgotamento dos solos, têm de escolher entre duas misérias, qual delas a pior: a dos campos mirrados e esgotados, ou a dos bairros insalubres e poluídos das cancerosas megalópoles.

Sim, está tudo muito bem com o conceito de soberania, os nacionalismos e a inviolabilidades das fronteiras, mas a verdade é que, perante circunstâncias extremas, é dever de todos os estados o de partilhar o “fardo” das migrações, porque, em última instância e para além de todas as mistificações, o planeta é de todos e a humanidade é uma. As responsabilidades devem ser partilhadas, e qualquer nacionalismo estrito é uma ideologia perniciosa, um artificialismo pseudo-histórico, que deve diluir-se perante a realidade nua da humanidade partilhada.

Não, migração massiva para a Lua ou para a Marte, embora seja uma possibilidade interessante (para alguns), não trará só por si uma solução para problemas que serão múltiplos e urgentes nas próximas décadas. Creio que, antes de nos lançarmos na dispendiosa tarefa de “terraformar” outros planetas para os tornar habitáveis para o ser humano, teremos de nos confrontar com maior urgência com a necessidade de “terraformar” a Terra, tão-só por uma questão de sobrevivência mais imediata. Quer dizer, aquilo que porventura sonhamos poder fazer na Lua ou em Marte, acabaremos por ter de o fazer cá muitas vezes e em muitos contextos. Afinal, porque não haveríamos?

O grande desafio nas próximas décadas será menos o de viver em Marte, e mais o de viver na Terra. É curioso como toda a investigação que hoje empenhamos no domínio das viagens espaciais e na habitabilidade em ambientes extraterrestres poderá servir-nos um dia para melhorarmos as condições de habitabilidade na própria Terra. É que chegará talvez a altura em que o luxo não estará em pagar milhões para dar uma volta espacial, mas em viver uma vida humana a poucos metros do chão.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

[1] O último máximo glaciar foi há 21.500 anos. Desde aí as temperaturas desceram globalmente cerca de 5º C (ver https://www.britannica.com/science/Last-Glacial-Maximum)
[2] O aumento da temperatura, como a sua redução, são sempre acompanhados por ciclos pontuais mais curtos de aquecimento e arrefecimento. Por isso, quando se diz que a temperatura aumentará inexoravelmente, significa no ciclo longo, o que não quer dizer que não haja curtos períodos de arrefecimento (as chamadas “pequenas idades do gelo”, por ex.).

 

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