“Aquele que vive – uma releitura do Evangelho”, de Juan Masiá

| 7 Out 19

Uma adepta iraniana de futebol morreu após incendiar-se diante de um tribunal por saber que poderia cumprir uma pena de seis meses de prisão por tentar entrar num estádio, informou uma agência de notícias semioficial Shafaghna, a 10 de Setembro).

Esta jovem mulher iraniana, frente ao Tribunal que a ia julgar, deu, autoimolando-se, a sua própria vida, pelas mulheres submetidas ao poder político-religioso. Mas não só pelas mulheres do seu país. Pelas mulheres de todo o planeta, vítimas da opressão, de maus tratos, de assassinatos, de escravatura sexual. Era, também, assim, há 2000 anos, no tempo de Jesus. Ele, através da sua mensagem do Reino, libertou-as da opressão e fez delas discípulas. Activas e participantes na Boa Nova do Reino de Deus.

Depois de ler esta notícia, lembrei-me, em particular, de um capítulo intitulado “Mulheres no Cenáculo” de um livro que estou a ler de Juan Masiá, SJ, “El que vive – Relecturas de Evangelio (Editorial Desclée de Brouwer, 2017). O autor é teólogo, professor, escritor e jesuíta espanhol. Algumas das suas ideias sobre moral sexual e bioética foram desautorizadas pela Comissão da Doutrina da Fé dos bispos espanhóis, em 2006.

Os diversos capítulos do livro seguem o calendário litúrgico, mas cada capítulo constitui um todo. Poderemos ler cada capítulo, separadamente, seguindo ou não a ordem indicada. É, pois, um livro para se ler devagar.

No prólogo, o autor faz uma profissão de fé: “Creio em Jesus, Aquele que vive porque o Seu espírito faz-me crer.” Segundo o autor, os Evangelhos são releituras das várias comunidades crentes em Jesus. Todas as vezes que essas pessoas contavam o seu encontro com Jesus, recriavam a narração. Assim, as narrações desta obra, que o autor chama ensaios, partem de excertos dos Evangelhos, sendo “narrações simbólicas e poéticas suscitadas pela fé”. O autor recria situações, transfigura-as, baseando-se na sua prática quotidiana de encontros com crentes e não crentes, enfim, com a Vida. Caberá ao leitor transformar o seu pensamento, ampliá-lo, de modo a ler, pensar e, depois, testemunhar a outros, os Evangelhos, com novos olhos.

No capítulo 31, “Mulheres no Cenáculo”, surge uma transcrição do Evangelho de João (15,15): “Não sois servos ou servas, mas amigos e amigas” (“No sois sirvientes o sirvientas, sino amigos y amigas”).

Depois, há um comentário do autor, datado de 13-3-2009: “Não se pode compreender Jesus nem viver a sua boa nova se não se tiver a experiência de ser amado por alguém que nos ensina a amar e nos faça amar mais e melhor, gratuitamente.”

Na pintura ‘clássica’ da Última Ceia surgem, invariavelmente, doze figuras de homens viris, exceptuando a figura angelical de João, deitado sobre o peito de Jesus, no centro, e numa das pontas da mesa, Judas Iscariotes, guardando numa mão a bolsa, sub-repticiamente. Ora esta imagem da Última Ceia já tão conhecida, aparece aqui completamente transfigurada pela presença das discípulas que também se sentam, ao lado dos homens.

Conta então o narrador que um grupo de discípulas, tendo o acordo de Maria, Mãe de Jesus, à revelia de Pedro, participa no repasto. Jesus dá o seu acordo, dizendo: “Não sois criadas, mas amigas, e quando eu me for, guardareis testemunho de Mim para curar e dar esperança às pessoas, fazendo o bem, pois a Ruah de Abba estará dentro de vós.» (Jo.15, 1-5).

A Ceia vai-se desenrolando, naturalmente. A participação das mulheres é mais forte do que a dos homens. Há comentários triviais, como por exemplo, Maria, a Mãe de Jesus, que se levanta várias vezes para vigiar o assado, na cozinha, porque não acredita muito na arte dos cozinheiros, Judith e Cleofás. E comenta Salomé, que está ao seu lado: “Maria, deixa-te estar sentada e goza a Páscoa com o teu filho.” Mas a Mãe responde que pressente algo de mau, pois o filho meteu-se com os do Santo Ofício, por causa do Reino e vê a coisa muito negra.

Jesus responde-lhe: “Mãe, tu sabes, pela experiência de quatro partos, que no momento em que a mulher vai dar à luz, sente-se triste, porque chegou a sua hora; no entanto, quando nasce a criatura, já de nada se recorda, face à alegria de a ter dado à luz.” (Jo. 12, 27-28).

Mas Ana mete-se na conversa e comenta que Jesus lhe parece angustiado, perturbado e isso não pode ser. A um dado passo, o Mestre responde: “Sim, sinto- me agitado, mas para quê, dizer: Abba, livra-me desta hora! Se foi para isto que eu vim, para esta hora! Abba, que irradie a tua glória!» (Jo.12, 27-28).

Nesse momento, Pedro impacienta-se e diz para as mulheres não monopolizarem a conversa, com perguntas e comentários que perturbam a festa.

Noutro momento, diz Jesus: “Esta não é uma simples ceia. É a Páscoa, a Passagem. É o passo de quem tem por passar por um momento amargo de separação. Vejam este pão que se desprende em pedaços, assim tem sido a minha vida. Agora, não compreendeis, mas a Ruah recordar-vos-á, quando eu já não estiver convosco.” (Jo. 16,7).

Estes exemplos revelam a originalidade destes ensaios. O narrador desperta o leitor, revelando-lhe outra visão dos diversos excertos dos Evangelhos, alterando o modo de ver, de sentir, de compreender. Torna os textos calorosos, mais próximos das próprias vivências do leitor, intemporais.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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