Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

| 9 Jul 20

Saborear os clássicos (I)

Fr. Bartolomeu dos Mártires. Direitos reservados.

 

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua.

Nasceu em Sernancelhe (Beira Alta) em 1885, aos dez anos foi viver para Soutosa (Moimenta da Beira). Embora falecesse em Lisboa, em 1963, regressava sempre à casa de Soutosa, agora Casa-Museu do escritor.

Em Dom Frei Bertolameu faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019. O autor baseia-se na fonte mais importante de outro grande prosador, Frei Luís de Sousa, (1556-1632).

Na Introdução à obra, o autor caracteriza frei Bartolomeu como um “homem extraordinário, imperioso e humilde; democrata e absoluto”. Na obra, é comparado às couves galegas: embora consideradas medíocres, “crescem direitas ao céu, sendo tanto mais a sua elevação quanto mais folhas se lhes apanham. Assim se formava a sua alma, despojando-se de mundanidades.” No entanto, não abdicava do poder: “A mitra exercia a jurisdição civil como uma monarquia.” Andava sempre com um canhenho onde apontava as diatribes deste e daquele, chamando-os à pedra: “montara para bom governo da diocese uma polícia secreta muito atilada”, além da “boa cooperação de cem e um espíritos-santos-de -orelha que têm gosto como as aranhas de urdir teias escusas…”

 

Uma guerra de Troia em Bracara Augusta

O que se segue é um exemplo, entre outros. Narrado por frei Mateus de Tortosendo, confidente do arcebispo, seu assistente – garante-nos o narrador:

“O arcediago de Braga, D. Luís Ponces de Meneses, homem mundano, aparentado com a melhor fidalguia do Minho e mais amigo da ribaldeira que de Deus… entretinha relações culposas com uma dama, mulher de D. Francisco de Montelongo.” O arcebispo já o avisara, mas tudo continuava na mesma. Então, na Missa do Galo, com a catedral cheia de personalidades, estava o arcediago a retirar dos gavetões os paramentos para se vestir, quando o arcebispo lhe disse ao ouvido:

“– Deixe, deixe! Hoje não lhe permito que suba ao altar.” O outro ficou embasbacado e o arcebispo repetiu-lhe: “– Hoje não.” O arcediago começou a elevar a voz. “– Homem, não se faça desentendido…” E voltando a falar-lhe à orelha: “– Está em pecado mortal.”

O monsenhor “rompeu em valente gritaria (…) Dom Fr. Bartolomeu mantinha-se estático diante dele…”.

“– Deixa-me acolitar ou não deixa?”

“– Não senhor, não deixo.” O arcediago respondeu-lhe que se iria queixar à Rainha; depois, implorou-lhe: “É uma vergonha para mim…” O arcebispo tornou:

“– Já lhe disse, comigo não sobe ao altar.”

O nobre arcediago lavrou o seu protesto, veio um juiz de fora, exigiu auto, testemunhas… Comenta o narrador: “(…) à fidalguia e a muita gente de Braga, mormente eclesiástica, pareceu desproporcional [o acto do arcediago] com a culpa – lá teriam as suas razões particulares. (…) Foi tal a matéria dos autos” que o ouvidor fez transferir o Dr. Montelongo [e a esposa] para uma comarca do Reino dos Algarves (…) acabando assim com o desterro de Helena a guerra de Troia em Bracara Augusta.”

 

“Dava aos pobres sem conta nem medida…”

Ilustração: Direitos reservados.

 

Conta-se também com um pitoresco pormenor a Visitação do arcebispo, num Inverno rigoroso, às terras quase selvagens do Gerês, Soajo, Barroso, Marão, onde “nunca passara ministro [prelado] nem príncipe”. Viviam os seus habitantes, incluindo os padres, numa mistura de cristianismo e de práticas religiosas anteriores; vendo o arcebispo, apregoavam, para mostrar sabedoria e contentamento, dançando: “Benta seja a Santa Trindade, irmã de N. Senhora (…) A Santa Bárbara, S. Jerónimo, santos deuses imortais, para que nos livrem das trovoadas…”

“(…) os padres tinham catréfias de filhos, cavavam a horta e mascavam um latim que devia fazer saltar nos sarcófagos os ossos dos doutores da Igreja.” Bem lhe disseram que era melhor adiar, devido às intempéries, mas o arcebispo não se convenceu. Levou dois cónegos consigo para o ajudarem na missão de apostolado. Com escrivães, criados, roupas, comes e bebes, capelães. Ao todo, 20 e tal pessoas. Além disso, levava para dar aos pobres, “porque o arcebispo não podia ver ninguém com fome: broas grandes como rodas de carro, merendeiros de peixe de escabeche e de conserva, foles de gravanços, tantos de feijão (…) Dava aos pobres sem conta nem medida…” Quanto ao arcebispo, “calçava botas cambadas, a sotaina perdera cor e ria-se pelas costuras”. Se alguém lhe chamasse a atenção: “Sou físico-mor de 1400 hospitais. Não posso empregar mal um ceitil.”

“(…) a comitiva ia com fome de lobo e ia saltar sobre o farnel”, mas uns fidalgotes convidaram-nos a cear em sua casa, malgrado o arcebispo. Descrição do festim: “com as boas trutas do Cávado, emparelhavam as perdizes de canapé e em molho de vilão. Faziam escolta aos capões assados rodelas olorosas de paio e chouriços de cedro, engordado a castanhas. Riram-se os olhos dos cónegos e depois de uma leve oração precipitaram-se sobre as iguarias.” Contrasta com este entusiasmo gastronómico a dieta do arcebispo: “tomou uma xícara de canja e esburgou uma asa de frango com um cibo de pão.”

“Três pestes”, dizia ele, “danam a dignidade episcopal: pompas, ganância e mesa”. Em pleno gozo da “mesa”, o arcebispo pronunciou o Benedicite. “Foi pior que chumbada de pardais a debicar na moinha da eira”. Como podiam, os prelados, gostar do arcebispo? “(…) os mais novos trataram de amochilar o seu salpicão, a sua perdiz para os bolsos das sotainas, outros levá-los ao despenseiro e ala que se fazia tarde.”

 

“Este espírito livre não era bem visto”

O narrador, nesta viagem, mostra-nos um arcebispo dado à contemplação, com os olhos rasos de lágrimas à vista do “céu azul como o manto que costumavam vestir a Nossa Senhora do Pópulo…”, absorvido “nos cumes recortados em anil puro, as encostas escorrendo beatitude”. Em Ruivães, fez a visitação dentro da toca de um carvalho: “por baixo ficava a colheita dos pobres e caminhantes, por cima a cidade dos pássaros”. Exclamou o arcebispo: “(…) Conservem este carvalho venerável e por nada deste mundo levantem o ferro contra ele! Não lhe metam vara! Também lhe dói, fiquem sabendo! (…) dava missa matinal, pregação, ministrava a extrema-unção, examinando a cura das almas”. Aos padres amancebados, dava ordens para, quem quisesse, casarem: “Fechem os olhos e legalizem-me as uniões desses laparotos.” Aos meninos que lhe “pareciam espertinhos”, enviava-os para Braga, para estudarem e darem bons prelados.

“Este espírito livre não era bem visto.” Comenta o narrador, com ironia: “Um arcebispo é um alto príncipe da Igreja.” Devia ter: “traje, estadão, etiqueta. Só assim honrava a dignidade. O pontificado não transformara o humilde pescador, que era Pedro, no senhor magnífico, césar dos césares, que era qualquer um dos papas da Igreja militante?”

Ora como estava a dar nas vistas “em tempos de reis esplendorosos”, vieram dois frades de Lisboa para o convencer. A resposta “vibrou com o seu quê de látego de Cristo assanhado: (…) querem então que meta a ataviar criados, dourar a baixela e ornar paredes mortas, com o cabedal com que posso amparar a órfã, socorrer a viúva e vestir paredes vivas? (…) Então os santos a pregar a modéstia e a praticá-la, e eu que me meta em faustos?! (…) a humilharem-se aos pés de todo o bicho-careta, e eu que mostre brios e bizarrias!? Cristo a mandar os discípulos que caminhem descalços e sem alforges e Fr. Bertolameu, sucessor deles, que ande cercado de criados e com acompanhamento e fausto de príncipe?”.

 

No Concílio de Trento, a “esbracejar”

Fr. Bartolomeu dos Mártires representado com o hábito e as cores dos frades dominicanos.

 

Foi nesta atitude de grande dignidade e verdadeiramente cristã que D. Fr. Bartolomeu interveio muitas vezes no Concílio de Trento. Diante do próprio Papa que foi visitar a Roma, apontou-lhe, sorrindo, “aquele luxo pantagruélico” (…) o pontífice respondeu-lhe rindo a bandeiras despregadas e bebia-lhe um chianti de morrer por mais.”

“A Roma pontifícia mostrava-se a D. Fr. Bartolomeu como Susana no banho.” Mas não casta, antes uma Susana desavergonhada, a bater a alta ribaldeira. (…) os cardeais viviam na mais desenfreada pompa; as suas amásias eram apontadas a dedo. Alguns habitavam palácios que eram simultaneamente estâncias de arte e sibaritismo.” O próprio Papa levava “vida requintadamente profana… só os borzeguins que calçava, com fivelas estreladas de diamantes, valiam uma fortuna”.

“Não travavam ali combate os dois senhores do Universo [Deus e o Diabo], como pressupunha Lutero, o excomungado. Campeava o comércio de mercês, corrida aos prazeres, (…) tudo poderio terreno e carnalidade.” Os fins deste procedimento: “riquezas e honras. (…) Roma, Trento, Paris, Madrid continuavam sacrificando a Mamona possuída de luxúria. (…) Trento oferecera-lhe a pálida amostra do esterquilínio romano.”

Depois de ter visto tudo isto, não se admirava com o que via na sua diocese: frades “fazendo pé de-meia”; outros, jovens, seduzindo “moçoilas” das aldeias; “sustentar barregãs…”

Por isso, no Concílio, continuava a “esbracejar”. Nada a fazer: o “sumo pontífice passava a ser a chave da abóboda do edifício católico universal. Dali em diante, seria ele o juiz absoluto de quantas rectificações e variantes devessem operar-se na disciplina eclesiástica (…) e como bispo dos bispos, intérprete supremo dos cânones”.

Fr. Bartolomeu dos Mártires foi canonizado em Julho de 2019 pelo Papa Francisco. No dizer do prosador Fr. Luís de Sousa, foi o “pai dos pobres, amador da pureza, mártir sem desejos, em profissão de letras doutor e mestre, sal da Terra, tocha acesa e cheia de luz, raro espelho e treslado de verdadeiros bispos”.

 

Dom Frei Bertolameu – As três desgraças teologais, de Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand, 1ª edição, 1959

 

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