Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”
Saborear os clássicos (I)

Fr. Bartolomeu dos Mártires. Direitos reservados.
Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua.
Nasceu em Sernancelhe (Beira Alta) em 1885, aos dez anos foi viver para Soutosa (Moimenta da Beira). Embora falecesse em Lisboa, em 1963, regressava sempre à casa de Soutosa, agora Casa-Museu do escritor.
Em Dom Frei Bertolameu faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019. O autor baseia-se na fonte mais importante de outro grande prosador, Frei Luís de Sousa, (1556-1632).
Na Introdução à obra, o autor caracteriza frei Bartolomeu como um “homem extraordinário, imperioso e humilde; democrata e absoluto”. Na obra, é comparado às couves galegas: embora consideradas medíocres, “crescem direitas ao céu, sendo tanto mais a sua elevação quanto mais folhas se lhes apanham. Assim se formava a sua alma, despojando-se de mundanidades.” No entanto, não abdicava do poder: “A mitra exercia a jurisdição civil como uma monarquia.” Andava sempre com um canhenho onde apontava as diatribes deste e daquele, chamando-os à pedra: “montara para bom governo da diocese uma polícia secreta muito atilada”, além da “boa cooperação de cem e um espíritos-santos-de -orelha que têm gosto como as aranhas de urdir teias escusas…”
Uma guerra de Troia em Bracara Augusta
O que se segue é um exemplo, entre outros. Narrado por frei Mateus de Tortosendo, confidente do arcebispo, seu assistente – garante-nos o narrador:
“O arcediago de Braga, D. Luís Ponces de Meneses, homem mundano, aparentado com a melhor fidalguia do Minho e mais amigo da ribaldeira que de Deus… entretinha relações culposas com uma dama, mulher de D. Francisco de Montelongo.” O arcebispo já o avisara, mas tudo continuava na mesma. Então, na Missa do Galo, com a catedral cheia de personalidades, estava o arcediago a retirar dos gavetões os paramentos para se vestir, quando o arcebispo lhe disse ao ouvido:
“– Deixe, deixe! Hoje não lhe permito que suba ao altar.” O outro ficou embasbacado e o arcebispo repetiu-lhe: “– Hoje não.” O arcediago começou a elevar a voz. “– Homem, não se faça desentendido…” E voltando a falar-lhe à orelha: “– Está em pecado mortal.”
O monsenhor “rompeu em valente gritaria (…) Dom Fr. Bartolomeu mantinha-se estático diante dele…”.
“– Deixa-me acolitar ou não deixa?”
“– Não senhor, não deixo.” O arcediago respondeu-lhe que se iria queixar à Rainha; depois, implorou-lhe: “É uma vergonha para mim…” O arcebispo tornou:
“– Já lhe disse, comigo não sobe ao altar.”
O nobre arcediago lavrou o seu protesto, veio um juiz de fora, exigiu auto, testemunhas… Comenta o narrador: “(…) à fidalguia e a muita gente de Braga, mormente eclesiástica, pareceu desproporcional [o acto do arcediago] com a culpa – lá teriam as suas razões particulares. (…) Foi tal a matéria dos autos” que o ouvidor fez transferir o Dr. Montelongo [e a esposa] para uma comarca do Reino dos Algarves (…) acabando assim com o desterro de Helena a guerra de Troia em Bracara Augusta.”
“Dava aos pobres sem conta nem medida…”
Ilustração: Direitos reservados.
Conta-se também com um pitoresco pormenor a Visitação do arcebispo, num Inverno rigoroso, às terras quase selvagens do Gerês, Soajo, Barroso, Marão, onde “nunca passara ministro [prelado] nem príncipe”. Viviam os seus habitantes, incluindo os padres, numa mistura de cristianismo e de práticas religiosas anteriores; vendo o arcebispo, apregoavam, para mostrar sabedoria e contentamento, dançando: “Benta seja a Santa Trindade, irmã de N. Senhora (…) A Santa Bárbara, S. Jerónimo, santos deuses imortais, para que nos livrem das trovoadas…”
“(…) os padres tinham catréfias de filhos, cavavam a horta e mascavam um latim que devia fazer saltar nos sarcófagos os ossos dos doutores da Igreja.” Bem lhe disseram que era melhor adiar, devido às intempéries, mas o arcebispo não se convenceu. Levou dois cónegos consigo para o ajudarem na missão de apostolado. Com escrivães, criados, roupas, comes e bebes, capelães. Ao todo, 20 e tal pessoas. Além disso, levava para dar aos pobres, “porque o arcebispo não podia ver ninguém com fome: broas grandes como rodas de carro, merendeiros de peixe de escabeche e de conserva, foles de gravanços, tantos de feijão (…) Dava aos pobres sem conta nem medida…” Quanto ao arcebispo, “calçava botas cambadas, a sotaina perdera cor e ria-se pelas costuras”. Se alguém lhe chamasse a atenção: “Sou físico-mor de 1400 hospitais. Não posso empregar mal um ceitil.”
“(…) a comitiva ia com fome de lobo e ia saltar sobre o farnel”, mas uns fidalgotes convidaram-nos a cear em sua casa, malgrado o arcebispo. Descrição do festim: “com as boas trutas do Cávado, emparelhavam as perdizes de canapé e em molho de vilão. Faziam escolta aos capões assados rodelas olorosas de paio e chouriços de cedro, engordado a castanhas. Riram-se os olhos dos cónegos e depois de uma leve oração precipitaram-se sobre as iguarias.” Contrasta com este entusiasmo gastronómico a dieta do arcebispo: “tomou uma xícara de canja e esburgou uma asa de frango com um cibo de pão.”
“Três pestes”, dizia ele, “danam a dignidade episcopal: pompas, ganância e mesa”. Em pleno gozo da “mesa”, o arcebispo pronunciou o Benedicite. “Foi pior que chumbada de pardais a debicar na moinha da eira”. Como podiam, os prelados, gostar do arcebispo? “(…) os mais novos trataram de amochilar o seu salpicão, a sua perdiz para os bolsos das sotainas, outros levá-los ao despenseiro e ala que se fazia tarde.”
“Este espírito livre não era bem visto”
O narrador, nesta viagem, mostra-nos um arcebispo dado à contemplação, com os olhos rasos de lágrimas à vista do “céu azul como o manto que costumavam vestir a Nossa Senhora do Pópulo…”, absorvido “nos cumes recortados em anil puro, as encostas escorrendo beatitude”. Em Ruivães, fez a visitação dentro da toca de um carvalho: “por baixo ficava a colheita dos pobres e caminhantes, por cima a cidade dos pássaros”. Exclamou o arcebispo: “(…) Conservem este carvalho venerável e por nada deste mundo levantem o ferro contra ele! Não lhe metam vara! Também lhe dói, fiquem sabendo! (…) dava missa matinal, pregação, ministrava a extrema-unção, examinando a cura das almas”. Aos padres amancebados, dava ordens para, quem quisesse, casarem: “Fechem os olhos e legalizem-me as uniões desses laparotos.” Aos meninos que lhe “pareciam espertinhos”, enviava-os para Braga, para estudarem e darem bons prelados.
“Este espírito livre não era bem visto.” Comenta o narrador, com ironia: “Um arcebispo é um alto príncipe da Igreja.” Devia ter: “traje, estadão, etiqueta. Só assim honrava a dignidade. O pontificado não transformara o humilde pescador, que era Pedro, no senhor magnífico, césar dos césares, que era qualquer um dos papas da Igreja militante?”
Ora como estava a dar nas vistas “em tempos de reis esplendorosos”, vieram dois frades de Lisboa para o convencer. A resposta “vibrou com o seu quê de látego de Cristo assanhado: (…) querem então que meta a ataviar criados, dourar a baixela e ornar paredes mortas, com o cabedal com que posso amparar a órfã, socorrer a viúva e vestir paredes vivas? (…) Então os santos a pregar a modéstia e a praticá-la, e eu que me meta em faustos?! (…) a humilharem-se aos pés de todo o bicho-careta, e eu que mostre brios e bizarrias!? Cristo a mandar os discípulos que caminhem descalços e sem alforges e Fr. Bertolameu, sucessor deles, que ande cercado de criados e com acompanhamento e fausto de príncipe?”.
No Concílio de Trento, a “esbracejar”
Fr. Bartolomeu dos Mártires representado com o hábito e as cores dos frades dominicanos.
Foi nesta atitude de grande dignidade e verdadeiramente cristã que D. Fr. Bartolomeu interveio muitas vezes no Concílio de Trento. Diante do próprio Papa que foi visitar a Roma, apontou-lhe, sorrindo, “aquele luxo pantagruélico” (…) o pontífice respondeu-lhe rindo a bandeiras despregadas e bebia-lhe um chianti de morrer por mais.”
“A Roma pontifícia mostrava-se a D. Fr. Bartolomeu como Susana no banho.” Mas não casta, antes uma Susana desavergonhada, a bater a alta ribaldeira. (…) os cardeais viviam na mais desenfreada pompa; as suas amásias eram apontadas a dedo. Alguns habitavam palácios que eram simultaneamente estâncias de arte e sibaritismo.” O próprio Papa levava “vida requintadamente profana… só os borzeguins que calçava, com fivelas estreladas de diamantes, valiam uma fortuna”.
“Não travavam ali combate os dois senhores do Universo [Deus e o Diabo], como pressupunha Lutero, o excomungado. Campeava o comércio de mercês, corrida aos prazeres, (…) tudo poderio terreno e carnalidade.” Os fins deste procedimento: “riquezas e honras. (…) Roma, Trento, Paris, Madrid continuavam sacrificando a Mamona possuída de luxúria. (…) Trento oferecera-lhe a pálida amostra do esterquilínio romano.”
Depois de ter visto tudo isto, não se admirava com o que via na sua diocese: frades “fazendo pé de-meia”; outros, jovens, seduzindo “moçoilas” das aldeias; “sustentar barregãs…”
Por isso, no Concílio, continuava a “esbracejar”. Nada a fazer: o “sumo pontífice passava a ser a chave da abóboda do edifício católico universal. Dali em diante, seria ele o juiz absoluto de quantas rectificações e variantes devessem operar-se na disciplina eclesiástica (…) e como bispo dos bispos, intérprete supremo dos cânones”.
Fr. Bartolomeu dos Mártires foi canonizado em Julho de 2019 pelo Papa Francisco. No dizer do prosador Fr. Luís de Sousa, foi o “pai dos pobres, amador da pureza, mártir sem desejos, em profissão de letras doutor e mestre, sal da Terra, tocha acesa e cheia de luz, raro espelho e treslado de verdadeiros bispos”.
Dom Frei Bertolameu – As três desgraças teologais, de Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand, 1ª edição, 1959
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]
À Margem
A Paz à procura do Nobel
À hora a que este texto está a acabar de ser escrito – às 17h18 de quinta-feira, dia 8 – ainda não foi divulgado quem receberá, este ano, o Prémio Nobel da Paz. O leitor mais tardio, todavia, já saberá se a distinção foi, além de merecidamente atribuída a alguma pessoa ou organização, útil para chamar a atenção do mundo para algum conflito ou guerra que permanece por resolver, apesar dos esforços do laureado.
Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Bíblia da CEP
Naum e Malaquias, mais dois livros proféticos com nova tradução
A comissão coordenadora da tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa acaba de divulgar as propostas de texto para o Livro de Naum e o Livro de Malaquias e aguarda agora o contributo dos leitores para melhorar a compreensibilidade dos textos.
Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].
Cultura e artes
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
Cinema
Pela primeira vez, um filme produzido com o Vaticano entra na corrida aos Óscares
É um feito inédito: uma produção realizada em colaboração com o Vaticano está a iniciar o processo de qualificação para os prémios da Academia de Hollywood. Trata-se de Green Lava, documentário de 39 minutos realizado por Lia Beltrami e Ali Aksu, que acompanha a vida de Giacomo Mattivi, um jovem italiano com distrofia muscular de Duchenne.
Em 17 de outubro
Arquitetura e artes para a liturgia: arcebispo de Braga convida para encontro
Arquitetos, engenheiros, artistas, presbíteros, responsáveis de comunidades paroquiais e todos os envolvidos na construção e adequação de espaços litúrgicos estão convidados a participar no I Encontro Diocesano de Arquitetura e Artes para a Liturgia, que se realiza no próximo dia 17 de outubro, em Braga.
a importância que uma farda tem (1)
“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Aquele que habita os céus sorri
[Entre o quadro e o mundo (31)]
Como pode a escola construir pontes num mundo de muros?
O novo episódio do podcast Entre o Quadro e o Mundo parte da metáfora da ponte para pensar o papel da escola num tempo marcado pela polarização, pelas diferenças culturais e geracionais e pela crescente presença da inteligência artificial.
Agenda
[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]





















