O arcebispo anglicano de York, Stephen Cottrell, que recentemente visitou territórios da Palestina, em companhia de outros líderes religiosos, não teve dúvidas em acusar Israel de cometer “atos de genocídio”, em declarações feitas nos últimos dias.
Numa entrevista dada ao jornal The Church Times, aquele responsável, que gere os assuntos correntes da Igreja de Inglaterra até à tomada de posse da arcebispa Sarah Mullally, afirmou ainda que “a situação na Cisjordânia ocupada equivale a “apartheid e limpeza étnica”.
“Lamento usar estas palavras, mas, que palavras poderia eu usar” para descrever a situação na Cisjordânia, interrogou-se o arcebispo Cottrell, depois da visita à região, que fez recentemente. Ainda que aquilo que ali testemunhou não seja o mesmo que se viveu na África do Sul, a pergunta ocorre-lhe: “Que outra linguagem posso usar para descrever um sistema de duas camadas, em que um grupo de pessoas é tão persistente e sistematicamente privado dos seus direitos humanos e obrigado a viver uma vida paralela?”.
As pessoas que lá vivem estavam a ser «literalmente expulsas pelos colonos, que primeiro dividiram a aldeia ao meio e depois cercaram as casas dos palestinianos”, afirmou, avançando com esta interpretação: “O que está a acontecer é deliberado e sistemático, persistente e intencional, e o seu impacto é devastador”
Os termos usados por este líder anglicano amadureceram, explicou ele, em conversas que teve durante a sua visita, sobretudo com a organização de Rabinos pelos Direitos Humanos, que diz ter 170 membros e tem estado presente na Cisjordânia, procurando interpor-se entre os colonos israelitas e os agricultores palestinianos que andam na apanha da azeitona.
As pessoas que lá viviam estavam a ser «literalmente expulsas pelos colonos, que primeiro dividiram a aldeia ao meio e depois cercaram as casas dos palestinianos”, afirmou Cottrell. “Como descrever o impacto disso, senão usando expressões como limpeza étnica?”
Mas Cottrell quer deixar “bem claro que essas são as políticas do Estado israelita. Não se trata do judaísmo. Não se trata do povo judeu. Trata-se das ações e políticas do Estado que a comunidade internacional deve contestar”, concluiu.

“A reflexão sobre a sua visita, que assumidamente o marcou, prosseguiu nesta segunda feira, quando discursou perante um encontro ecuménico de líderes e agências cristãs, que decorreu no palácio de Lambeth, em Londres.” Foto © Arcebispado de York
A reflexão sobre a sua visita, que assumidamente o marcou, prosseguiu nesta segunda feira, quando discursou perante um encontro ecuménico de líderes e agências cristãs, que decorreu no palácio de Lambeth, em Londres.
Procurando contextualizar o que se tem passado, o arcebispo recordou que, quando o Hamas atacou Israel, matando pessoas e fazendo reféns, “o mundo inteiro indignou-se” por “um ataque bárbaro e hediondo contra vidas inocentes”, reconhecendo “o medo e o trauma que isso causa ao povo judeu em Israel e em todo o mundo” e deplorando o “aumento do antissemitismo”.
Porém, salientou Stephen Cottrell, “um horror não pode ser desfeito por outro”. “O que está a acontecer com os palestinianos, muçulmanos e cristãos, no território palestiniano ocupado, incluindo Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, é igualmente bárbaro, horrível e completamente inaceitável sob qualquer perspetiva humanitária”.
Manifestando “alívio” com “algum tipo de cessar-fogo em Gaza”, o arcebispo observou que “ainda estamos muito longe da paz necessária, uma paz que só poderá ser alcançada quando houver justiça para todos os povos – de Israel e da Palestina”.










