A propósito dos ataques militares no mar das Caraíbas contra embarcações vindas da Venezuela com destino aos Estados Unidos da América e suspeitas de transportarem droga, Timothy P. Broglio, arcebispo castrense dos EUA, lançou um apelo “àqueles especificamente encarregados de orientar as Forças Armadas para que respeitem a consciência” dos militares, “não lhes pedindo que se envolvam em atos imorais”.
A curta nota de sete parágrafos, emitida pelo arcebispo no dia 3 de dezembro, não podia ser mais incisiva ou conter maior crítica ao secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, apesar de nunca o referir pelo nome. Hegseth foi posto em causa por uma investigação do Washington Post que revelou ter sido ele quem ordenou ao comando da operação conduzida pela Marinha dos EUA contra uma embarcação suspeita de transportar narcotraficantes para matar os dois sobreviventes do ataque inicial.
Sobre o trágico episódio, escreve o arcebispo: “Como o princípio moral que proíbe o assassinato intencional de não combatentes é inviolável, seria uma ordem ilegal e imoral matar deliberadamente sobreviventes de uma embarcação que não representam nenhuma ameaça letal imediata às nossas Forças Armadas”. E recorda: “Na luta contra o narcotráfico, os fins nunca justificam os meios, que devem ser morais (…). Ninguém pode ser obrigado a cometer um ato imoral, e mesmo os suspeitos de cometer um crime têm direito ao devido processo legal”.
A investigação do Washington Post incidiu concretamente sobre o ataque de 2 de setembro em que foram mortas 11 pessoas, mas ataques semelhantes mataram, nos últimos meses, pelo menos 80 pessoas. A política de destruição de embarcações consideradas suspeitas pelos serviços secretos norte-americanos e o sequente assassínio de tripulantes e sobreviventes tem colocado a Administração Trump sob duras críticas e intenso escrutínio, incluindo por parte de membros destacados do próprio Partido Republicano. Altas patentes da marinha dos Estados Unidos também se pronunciaram contra estas operações, tendo algumas delas demitido-se de posições operacionais para que tinham sido nomeadas.
Apesar desta oposição, o Presidente Trump continua a apoiar a ação do seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, e a falar de uma possível invasão terrestre da Venezuela, país em que, segundo ele, os narcotraficantes têm bases protegidas pelo próprio Estado, partilhando os seus lucros com o atual Presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
“Respeito pela vida”

A Conferência Episcopal de Porto Rico rejeitou a militarização promovida pelos Estados Unidos na ilha e na região das Caraíbas. Foto © Tarik Kizilkaya
“Não sabemos se todos os marinheiros a bordo de uma embarcação supostamente ligada ao transporte de drogas ilegais conhecem a natureza da carga” – afirma o arcebispo castrense –, “sabemos, porém, que existe um meio legal de intercetar uma embarcação suspeita, abordá-la e contar com a presença de membros da Guarda Costeira, que têm autoridade para efetuar prisões”.
Posto isto, prossegue a nota episcopal em tom de definição daquilo que seria um procedimento aceitável e conforme aos direitos humanos, “os tribunais entram em ação para determinar a culpa e a punição adequada”. Não sendo assim, “o abandono do processo legal devido mina os direitos humanos, corrói a confiança pública e coloca em risco pessoas inocentes”, pois “a verdadeira justiça só é alcançada por meio de procedimentos legais transparentes e no respeito pela vida — nunca por meio da violência ilegal”.
Na sua condenação, o arcebispo Timothy P. Broglio vai bem mais longe do que aquilo que o Papa havia referido logo no princípio de novembro quando afirmou que qualquer “país tem o direito de ter as suas próprias Forças Armadas para defender a paz, para construir a paz”, mas “este caso, porém, parece um pouco diferente”. “Acabo de ler uma notícia dizendo que [a Marinha dos EUA] se aproxima cada vez mais da costa da Venezuela”, continuou o Papa, sublinhando: “Com violência nada se vence. O que se deve fazer é buscar o diálogo, procurar uma maneira justa de encontrar soluções para os problemas que possam existir em qualquer país”.
Leão XIV falava no mesmo dia em que Escritório Marista para Assuntos Globais se juntou à carta assinada por outras 61 organizações da sociedade civil alertando o Congresso americano para os “ataques militares ilegais e execuções extrajudiciais de civis em barcos na costa da Venezuela”.
Mais recentemente, a Conferência Episcopal de Porto Rico rejeitou a militarização promovida pelos Estados Unidos na ilha e na região das Caraíbas, alertando para a “possível escalada” de uma guerra contra a Venezuela. Numa declaração divulgada a 3 de dezembro, os prelados porto-riquenhos denunciam os “efeitos adversos” da militarização, como “a restrição do espaço aéreo e das rotas marítimas e as manobras militares em diversas cidades de Porto Rico, com consequências colaterais para a atividade pesqueira”.
Nas últimas semanas, de acordo com a agência ACIPrensa, a Administração Trump enviou cerca de 15.000 soldados para a região, dos quais 5.000 estão em Porto Rico. Segundo a CNN em língua espanhola, uma dúzia de navios de guerra também chegou à área.
“A guerra nunca deve ser a solução para os conflitos; a guerra não traz paz, mas morte. Ela traz sempre morte e causa sérios danos às pessoas, quase sempre às mais indefesas” – escrevem, a terminar, os bispos de Porto Rico. Recorde-se que este país do mar das Caraíbas, embora não sendo um Estado plenamente integrado na federação dos Estados Unidos da América e tendo Governo próprio, é uma espécie de protetorado dos EUA que assumem a responsabilidade, entre outras, pela sua política de defesa.










