Arcebispo de Braga: padres diminuem, idade aumenta; “não podemos ter um padre por paróquia”

| 16 Jul 19

Calvário, instalação artística durante a Semana Santa de 2019, em Braga: são necessárias alternativas para anunciar a mensagem cristã, avisa o arcebispo. Foto © António Marujo

 

“Não poderemos continuar na lógica de ter um padre por cada paróquia”, avisou o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, na missa da tarde de domingo passado, dia 14, quando ordenou vários novos padres, incluindo Tiago Varanda, o primeiro presbítero cego em Portugal. “Não estamos a conseguir uma renovação do clero que nos permita manter as práticas e costumes que até há bem pouco tempo se observavam com facilidade. Esta é a grande verdade!”, acrescentou, em tom de alerta e lamento.

Socorrendo-se de números e estatísticas, mesmo se eles “não são tudo na vida da Igreja”, o arcebispo começou por afirmar que “uma homilia em dia de ordenações terá de conduzir a uma séria reflexão”, mesmo se não se deve “cair em alarmismos” nem num “clima de desmotivação”. E acrescentou: “Sabemos que caminhamos para uma realidade sociológica totalmente diferente. O tempo corre veloz e lança alertas para que as comunidades se convençam desta realidade e se abram a novas soluções.”

 

Números e consequências

Os números “tornam-se interpelações que não podem ser ignoradas”, disse o arcebispo antes de referir algumas estatísticas: há actualmente um total de 362 padres a trabalhar na diocese de Braga, 322 dos quais com responsabilidades de párocos. O pior sinal vem da média etária: 119 presbíteros têm menos de 50 anos, enquanto 140 estão entre os 50 e 75 anos e outros 116 têm mais de 75 anos. Em 2012, a média etária era de 58,86 anos, agora ela é de 65,31 anos. E todos os anos morrem mais dez padres do que aqueles que são ordenados. Ou seja, daqui a cinco anos aumentarão os que têm mais de 75 anos e o número de padres andará pelos 322.

Estes números têm consequências, disse ainda o arcebispo Ortiga: há cada vez mais padres com a responsabilidade de três paróquias, o que impede que todas tenham eucaristia ao domingo. Mas também se deve reflectir que a Igreja Católica fala “em demasia” da “obrigação da prática dominical”. Por isso, importa que os crentes redescubram “o que significa ser discípulo de Jesus, onde a paixão pelo encontro fraterno e comunitário acontece como prioridade”.

Por isso, “todos, de um modo sinodal, terão de aportar as suas reflexões, criando um clima de mudança e fazendo tudo com serenidade e sentido positivo”. Mas também os presbíteros não podem “continuar com esquemas tradicionais” e devem “encontrar caminhos que não dependem apenas do arcebispo e dos órgãos diocesanos”. E alertou: “Um pormenor que emerge sempre é o das celebrações dominicais e dos sacramentos. É fácil acomodar-se à situação correndo esfalfadamente no intuito de responder aos desejos de todos. Importa mudar!”

 

Há soluções?

O arcebispo de Braga apresentou hipóteses de caminhos alternativos: “a articulação com as missas vespertinas, a celebração dominical na ausência do presbítero, confiando a presidência a leigos devidamente preparados; e, não menos importante, a efectiva articulação das unidades pastorais e consequente deslocação dos fiéis dentro das mesmas.”

Além das regras do direito canónico – que estabelece que um padre não pode celebrar mais de três missas aos domingos –, “a eucaristia é o local onde a comunidade se reúne, o que não se compadece com a escassez de tempo para acolher as pessoas e disponibilidade interior”, disse ainda o arcebispo.

Jorge Ortiga referiu a “falta de uma espiritualidade devidamente estruturada que não se separa da vida mas cresce no meio das vicissitudes do peregrinar humano, dos enigmas, perplexidades e interrogações” como uma das causas dos problemas do catolicismo. “Com espiritualidade tudo se ultrapassa. Sem ela, a vida retrocede. E se outrora a espiritualidade era uma espécie de aventura solitária, hoje ninguém progride se não se empenhar numa espiritualidade colectiva, ‘do nós’ como diz o Papa Francisco.”

 

O caminho mais credível

Para avançar, tem de haver também da parte do clero “uma sólida formação permanente e abrangente”, disse D. Jorge: “Com menos activos, teremos de fazer ainda melhor, o que exige uma perspicácia que só o estudo consegue garantir. Limitar-se a repetir é fácil. Ousar caminhos novos só é possível com reflexão e estudo.”

Comentando os textos bíblicos do dia, nomeadamente a parábola do bom samaritano, o arcebispo de Braga referiu: “Não existe verdadeiro culto quanto este não se traduz no serviço ao próximo. O samaritano teve compaixão. Os outros dois viram mas os corações permaneceram fechados.” E afirmou: “Poderemos conhecer toda a Sagrada Escritura, todos os textos e rubricas litúrgicas, toda a teologia sistemática e compêndio de pastoral, mas se formos meros espectadores, ignorando o sofrimento humano, não estaremos em sintonia com o coração de Jesus que tem compaixão, sofre connosco, aproxima-se, identifica-se.”

O caminho “mais credível da evangelização”, considerou ainda na homilia (disponível na íntegra aqui), “são os gestos concretos, gratuitos”, como os do samaritano da parábola contada por Jesus. “Quando estes não acontecem, a pregação é falsa e a vida dos evangelizadores torna-se um engano que não convence ninguém. O samaritano não pergunta. Não quer saber o que aconteceu. Viu a necessidade e com toda a prontidão oferece ajuda.”

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