Bispos escreveram “ao Povo de Deus”

Arcebispo de Braga recebeu vítimas e apresentou plano para combater abusos sexuais

| 23 Mar 2023

José Cordeiro, arcebispo de Braga, acompanhado dos dois bispos auxiliares, encontrou-se com vítimas. Foto © Ecclesia

 

O arcebispo e os bispos auxiliares de Braga revelam, numa “Carta ao Povo de Deus” divulgada esta quinta-feira, 23 de março, que se encontraram com “algumas pessoas que foram vítimas de abuso sexual por membros da Igreja”, tendo escutado os seus testemunhos. Anunciam ainda a criação de uma “bolsa de técnicos” do âmbito psicológico e psiquiátrico, a criação de um Diretório de boas práticas e a aposta na formação permanente, com vista a erradicar os abusos.

“As suas histórias e o seu sofrimento dilaceraram o nosso coração”, afirmam o arcebispo José Cordeiro e os auxiliares Nuno Almeida e Delfim Gomes, acrescentando de seguida: “Não conseguimos imaginar pior tragédia do que viver situações dramáticas e traumáticas na mais completa solidão, temendo a insuportável repetição dos infames acontecimentos, pois grande parte das vítimas sofre abusos continuados dos abusadores.”

A Carta, ainda que não muito extensa, compõe-se de quatro partes, além da introdução e da conclusão: reconhecer a centralidade das pessoas que sofrem; interpretar a crise dos abusos; decidir e agir em vista de uma cultura da proteção e de um ambiente mais seguro; e conversão dos abusadores.

 

“Mensagens confusas e contraditórias”

 

Relativamente ao primeiro aspeto, os bispos pedem perdão fundados em três motivos. Em primeiro lugar, por ter havido, “no passado”, “desvalorização, encobrimentos ou silenciamentos, ingénuas reparações privadas na ilusão de compensar o dano sofrido pelas vítimas”, apesar dos indícios ou provas de abusos, bem documentados no Relatório da Comissão Independente.

“Reconhecemos – refere a carta como segundo motivo de pedido de perdão – que os abusos sexuais não foram tratados como prioridade, arrastando consigo erros, omissões e negligência”.

“Reconhecemos, ainda que nos últimos dias, houve mensagens confusas e contraditórias e equívocos de comunicação sobre o modo de agir da Igreja perante este flagelo hediondo”, acrescentam. “Por tudo isso, pedimos perdão.”

Procurando interpretar o momento que se está a viver, a equipa episcopal de Braga considera que a atual crise dos abusos “é, sem dúvida, oportunidade para uma evolução ética da humanidade e também para uma renovação e purificação da Igreja”, exigindo que continue a fazer “tudo o que for possível para que a infância seja valorada como deve e se consolide, a nível ético e jurídico, o respeito pelas crianças”.

Quanto aos abusadores, e particularmente aos que foram suspensos de forma cautelar, os responsáveis arquidiocesanos reconhecem-lhes os direitos à presunção de inocência até prova contrária; a garantir a proteção da sua boa fama e o direito a defender-se das acusações que lhes são imputadas num processo justo. Contudo, a Igreja não pode abandonar essas pessoas, porque a “redenção é sempre possível”, faz notar a mensagem episcopal.

 

“O silêncio mata tanto como os crimes”

Sé de Braga, catedral

Exterior da sé de Braga: a arquidiocese vai colocar em marcha um plano de apoio às vítimas de abusos. Foto © John Samuel, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

 

Cabe aqui sublinhar o facto de a Carta omitir o que tem que ver com práticas de encobrimento e silenciamento. De facto, casos relativos à diocese de Braga, que vieram a público ainda antes do Relatório da Comissão Independente, evidenciaram situações em que esse tipo de práticas prevaleceu.

Na presente Carta ao Povo de Deus, depois de reconhecerem que “o olhar sobre a vítima não pode ser o mesmo que sobre o abusador”, os bispos reconhecem que, na Igreja e suas instituições, não se pode “tolerar uma espécie de conspiração silenciosa, pois o silêncio, nestes casos, mata emocionalmente, tanto como os crimes dos próprios culpados”.

Contudo, esses comportamentos, que remetem para uma cultura institucional e sistémica, não são assumidos, nesta Carta, com o mesmo destaque que o dos abusadores, apesar de também “matarem” emocionalmente. O documento limita-se a incluir os “silenciadores” numa “súplica humilde e confiante a Deus”, onde inclui em primeiro lugar as pessoas vítimas, e também os abusadores e “todos os que se escandalizam com a atuação de alguns membros da Igreja”.

O 7MARGENS endereçou um pedido de esclarecimento específico sobre este ponto à Arquidiocese, mas não foi possível uma resposta até ao fecho desta edição.

 

Formação de uma bolsa de técnicos e de acompanhantes espirituais

De concreto, que se propõe a Arquidiocese fazer relativamente ao futuro para, nas palavras do Papa Francisco, “desenraizar da Igreja a chaga dos abusos sexuais contra menores e abrir um caminho de reconciliação e de cura a favor de quantos foram abusados”?

Para além do trabalho com vista a “acolher e acompanhar todos os que possam ter sido vítimas de qualquer espécie de abuso em alguma paróquia ou instituição da Igreja”, por parte da Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis da Arquidiocese de Braga (CPMAVAB), o principal da resposta é a disponibilização de “um serviço de acompanhamento psiquiátrico e psicoterapêutico, bem como de acompanhamento espiritual e de reconciliação para as pessoas vítimas que o desejarem, através da criação de uma “bolsa de técnicos” e de acompanhantes espirituais”.

A CPMAVAB, que escutou testemunhos de 28 pessoas, desde a sua criação em outubro de 2019, segundo refere a Carta, continua a ser a grande aposta da diocese para receber testemunhos e denúncias de situações de abusos.

Além disto, a Arquidiocese anuncia também a elaboração de um “Diretório para um Ambiente Seguro” com as boas práticas éticas e profissionais dirigidas a todos os que trabalham nas instituições centrais (Arquidiocese, seminários, colégios católicos), paróquias, centros sociais e IPSS, movimentos, instituições, funcionários ou voluntários.

Serão também postos em prática programas de formação permanente, que “inculquem formas respeitosas de relacionamento com os outros, capacitem para a identificação precoce de possíveis casos de abuso e para a elaboração de mapas de risco, definindo também procedimentos claros de resposta a eventuais denúncias de quaisquer tipos de abuso no seio das comunidades e instituições da Arquidiocese”, explica o documento episcopal bracarense.

 

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