Entrevista ao 7MARGENS

Arcebispo de Cantuária: “A Igreja Católica precisa de ser muito mais aberta ao ministério das mulheres”

| 18 Fev 2024

Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante visita à paróquia da Sagrada Família, em Belas, 18.02.2024 . Foto Clara Raimundo (1)

O arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e a sua esposa, Caroline Welby, foram contagiados pela alegria da comunidade multicultural que os acolheu em Belas, no segundo dia da sua visita a Portugal. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

Em onze anos como arcebispo de Cantuária, Justin Welby já perdeu a conta às viagens internacionais que fez. “Acho que foram mais ou menos cem! Ainda há pouco tempo, tentei enumerar todos os países que visitei e já ia em 68…”, diz, descontraído e bem disposto, em entrevista ao 7MARGENS, no final daquela que foi a sua primeira passagem por Portugal enquanto líder da Comunhão Anglicana.

Depois de dois dias preenchidos, que incluíram um encontro inter-religioso, uma reunião com o Presidente da República, a missa de abertura do 100º sínodo diocesano da Igreja Lusitana (ramo português da Comunhão Anglicana), a participação na primeira sessão deste sínodo, e ainda a visita à Paróquia da Sagrada Família, em Belas, Welby não disfarça o entusiasmo. As viagens são cansativas, reconhece, mas valem sempre a pena. E esta, em particular, fê-lo sentir-se “encorajado”, porque aqui encontrou “uma Igreja viva”.

Sentado numa pequena sala do centro social da paróquia onde ele e a sua esposa, Caroline Welby, foram recebidos com cantos de louvor africanos, o primaz da Igreja de Inglaterra estava visivelmente contagiado pela alegria da comunidade multicultural que os acolheu. E impressionado com o trabalho ali desenvolvido: um total de mil famílias ajudadas, 160 refeições cozinhadas diariamente na pequena cozinha, 18 utentes a frequentar o centro de dia, 40 pessoas a receber apoio domiciliário, e o sonho de uma creche prestes a ser concretizado. Tudo isto, com uma equipa de apenas dez técnicos e uma direção em regime de voluntariado. “É um milagre o que fazem aqui. Que trabalho maravilhoso…”, disse mais do que uma vez, enquanto o bispo diocesano, Jorge Pina Cabral, o conduzia na visita às instalações.

Assim, antes de regressar a Londres, foi desse entusiasmo que falou numa curta entrevista ao 7MARGENS, mas também de outras viagens não tão alegres, porém não menos importantes. E ainda da sua relação com o Papa Francisco, dos desafios que as Igrejas cristãs enfrentam… e das eleições legislativas que se aproximam.

 

7MARGENS – Na semana passada, esteve na Ucrânia, onde já tinha estado em 2022… Porque decidiu visitar novamente este país?

JUSTIN WELBY – Decidi regressar à Ucrânia porque a situação mudou. Particularmente desde outubro, a atenção do mundo tem estado concentrada na Terra Santa, e eu quis dizer aos ucranianos: “Vocês não estão esquecidos. Pensamos em vocês, rezamos por vocês, lembramos as pessoas de vocês”. E também quis ir lá para que, quando falo aos outros sobre a Ucrânia, possa fazê-lo com mais força.

 

7M – O que mais o impressionou?

A determinação dos ucranianos, a sua resiliência. Após dois anos de conflito, estão cansados, perderam muitas pessoas, perderam 18% do seu território, as suas principais cidades continuam a ser bombardeadas regularmente, e os seus aliados, em algumas áreas, duvidam de poder ajudar… E ainda assim, eles continuam a lutar. É realmente impressionante.

 

7M – Há um ano, estava de regresso de uma viagem ao Sudão do Sul, onde participou numa peregrinação de paz ecuménica inédita, com o Papa Francisco e o pastor Iain Greenshields… Um ano depois, sabemos que a violência e os conflitos armados também prosseguem neste país. Ainda assim, sente que essa viagem valeu a pena? O que mudou?

O facto de sabermos que não vamos conseguir atingir tudo aquilo que gostaríamos não significa que devemos ficar parados, sem fazer nada. Devemos tentar sempre. Se vale a pena? Sim, vale sempre a pena tentar. Acho que a nossa peregrinação deu uma esperança e determinação renovadas a muitas, muitas pessoas… Pessoas comuns que andaram dias e dias para estarem connosco. Sei de um grupo que caminhou nove dias para ir ao nosso encontro! Falámos aos jovens – o Papa aos rapazes e eu às raparigas – sobre a violência sexual, sobre a enorme quantidade de pessoas violadas durante os conflitos… Além disso, a nossa viagem recordou ao Presidente e ao vice-presidente do Sudão do Sul que estão a ser vistos, que as pessoas observam aquilo que eles fazem. E acho que encorajou a Igreja a ser mais forte.

 

7M – Foi escolhido para arcebispo de Cantuária precisamente no mesmo ano em que o Papa Francisco foi eleito… Foi um acaso feliz?

Acho que temos de confiar que Deus esteve envolvido nestas escolhas… Nós assumimos o nosso propósito com poucos dias de diferença. Para mim, tem sido uma honra enorme poder conhecer o Papa Francisco e partilhar esperanças e rezar com ele e por ele. Não acho que seja uma coincidência termos sido escolhidos em simultâneo… Acho que, apesar dos muitos erros que eu tenho cometido, o Espírito Santo de Deus está a fazer o seu trabalho!

 

7M – Planeiam fazer mais viagens juntos?

O Papa manda… Ele é o mais velho! (risos) Se ele quiser, eu vou… E se ele não quiser, eu espero!

 

Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante visita à paróquia da Sagrada Família, em Belas, 18.02.2024 . Foto Clara Raimundo (3)

O arcebispo de Cantuária durante a visita ao centro social da paróquia da Sagrada Família, em Belas, acompanhado da psicóloga da instituição. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

7M – O Papa convidou recentemente a bispa anglicana Jo Bailey Wells para participar na reunião do Conselho dos Cardeais e contribuir para a reflexão sobre o papel das mulheres na Igreja. Acha que a Igreja Católica iria beneficiar se desse um maior protagonismo às mulheres?

Eu conheço a Jo muito bem… Ela trabalhou diretamente comigo durante quatro anos. Ela é brilhante e o seu contributo será certamente muito positivo para essa reflexão… Foi muito, muito bom o Papa tê-la convidado! Acho que um dos objetivos do Sínodo sobre a sinodalidade é encontrar formas de incluir as mulheres no ministério da Igreja Católica, de um modo muito mais claro e forte do que acontece neste momento. Embora a Igreja continue a ser muito clara ao dizer que as mulheres não vão ser ordenadas… Mas parece-me que está à procura de maneiras de reconhecer que muito mais de metade dos seus membros são mulheres, e que metade da população do mundo é composta por mulheres, e que precisa de ser muito mais aberta ao ministério das mulheres…

 

7M – Outro tema que tem gerado reflexão e controvérsia, não só na Igreja Católica mas também na Anglicana, é a benção de casais do mesmo sexo… Como interpreta o facto de provocar divisões tão profundas?

É uma boa questão, mas a resposta é mais complicada do que possa parecer. Se olharmos para a Igreja – seja anglicana, católica… qualquer Igreja global – vemos que está presente em todos os contextos culturais possíveis. Ambas as Igrejas estão a tentar unir pessoas de contextos completamente diferentes no amor por Jesus Cristo, no serviço ao mundo segundo o que Ele ensinou. O milagre é que as Igrejas consigam de facto fazer isso. Posso dar-lhe um exemplo: este ano, estive em Nova Iorque e conheci pessoas que trabalham nos grandes bancos de Wall Street. Mas poucos anos antes estive na Papua Nova Guiné e conversei com uma pessoa cujo avô tinha sido a primeira pessoa naquela tribo a ver uma roda. Entre estas pessoas, temos cerca de 10 mil anos de diferença em termos de desenvolvimento humano. E o neto desse homem era licenciado em Engenharia Civil por uma universidade escocesa de topo. Assim, para pessoas tão diferentes, e pessoas que estão a fazer, em apenas uma geração, uma viagem que demorou à raça humana 10 mil anos, pertencer à unidade da Igreja só pode ser trabalho do Espírito Santo! E portanto, quando o que está em causa são assuntos realmente importantes, como a natureza do ser humano, a sexualidade humana, o entendimento do bem e do mal, haverá sempre sentimentos muito fortes e poderosos. E é um milagre, um milagre maravilhoso, que através de Jesus e do trabalho do Espírito, Deus mantenha a Igreja mais ou menos junta.

 

7M – Este sábado, na homilia da missa de abertura do 100º sínodo da Igreja Lusitana, falou sobre a importância dos pastores, dos líderes… na Igreja e na política. Em Portugal, estamos prestes a ter de escolher um novo Governo. Que conselho daria aos candidatos a líderes e aos cristãos que têm o poder de os escolher?

Em primeiro lugar, digo a todos: “votem”. Em tantos países, as pessoas não têm o direito de votar… Votem! Em segundo lugar, diria “rezem sobre como votam”. E, aos candidatos, peço que digam para si próprios: “eu vim, não para ser servido, mas para servir”.

 

7M – Por último, a poucas horas de regressar a Inglaterra, diga-nos… o que leva de Portugal?

Foi uma viagem memorável! Por várias razões. Primeiro, foi lindo ver a vida desta Igreja, particularmente aqui na paróquia da Sagrada Família. Ver uma Igreja que ama Deus e Jesus Cristo, e louva de forma tão bela como assistimos esta manhã… Não se trata apenas de um grupo de pessoas espirituais: é um grupo de pessoas que amam Deus, que se amam uns aos outros e que amam os seus vizinhos. Que têm um compromisso com a comunidade… E onde quer que eu veja isso, sinto que é belo. Segundo, a Igreja aqui tem uma boa relação com as outras Igrejas e as outras fés e isso mostra-me a hospitalidade de Jesus Cristo em ação em Portugal. E terceiro: esta é uma Igreja que acredita no Evangelho, e portanto é transformada por Jesus. E eu fui tão encorajado por ver esta Igreja. Claro que tem problemas… todas têm! Mas é uma Igreja que parece estar cheia da vida de Deus.

Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante visita à paróquia da Sagrada Família, em Belas, 18.02.2024 . Foto Clara Raimundo (2)

Justin Welby, acompanhado do bispo Jorge Pina Cabral e do diretor do centro social da paróquia da Sagrada Família. O trabalho ali desenvolvido deixou-o impressionado. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

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