
“Os últimos dias renovaram o meu longo e profundo sentido de vergonha pelas falhas históricas de salvaguarda da Igreja de Inglaterra”, escreveu Justin Welby. O arcebispo tinha sido eleito para o cargo em fevereiro de 2013. Foto © Catedral de Cantuária
“Espero que esta decisão deixe claro o quanto a Igreja de Inglaterra está comprometida em tornar-se um lugar mais seguro”. Foi com estas palavras que o arcebispo de Cantuária e primaz da Comunhão Anglicana, Justin Welby, anunciou esta terça-feira, 12 de novembro, a renúncia ao cargo que ocupava há quase 12 anos. Após a divulgação, na semana passada, de um relatório sobre abusos sexuais perpetrados no seio da Igreja de Inglaterra dos quais teria tido conhecimento sem os denunciar, a pressão para que se demitisse intensificou-se, tendo culminado numa petição lançada pelo próprio Sínodo Geral, o órgão de cúpula da Igreja de Inglaterra, que foi subscrita por perto de 15 mil pessoas.
O relatório em causa diz respeito ao encobrimento dos abusos levados a cabo pelo leigo John Smyth no Reino Unido no final dos anos 1970 e início dos anos 80, e mais tarde no Zimbábue e na África do Sul, onde coordenou vários acampamentos juvenis ligados à Igreja [ver notícia no 7MARGENS]. O documento conclui que cerca de 130 rapazes foram vítimas do predador sexual e que este poderia ter sido levado à justiça se Justin Welby o tivesse denunciado formalmente à polícia há uma década, altura em que assumiu a liderança da Igreja de Inglaterra. Smyth faleceu aos 75 anos, na Cidade do Cabo, em 2018, enquanto estava sob investigação pela polícia de Hampshire.
“Quando fui informado em 2013 e me disseram que a polícia havia sido notificada, acreditei erroneamente que uma resolução apropriada se seguiria”, justifica por seu lado Justin Welby na declaração de renúncia ao cargo, divulgada no sítio da Igreja de Inglaterra e na rede social X. Mas logo a seguir conclui: “É muito claro que devo assumir a responsabilidade pessoal e institucional pelo longo e traumatizante período entre 2013 e 2024”.
Apesar de garantir que “por quase doze anos”, lutou “para introduzir melhorias” na Comunhão Anglicana no que diz respeito à proteção de menores e pessoas vulneráveis, Welby reconhece: “Os últimos dias renovaram o meu longo e profundo sentido de vergonha pelas falhas históricas de salvaguarda da Igreja de Inglaterra.”
Deixando para “outros” a tarefa de “julgar o que foi feito”, o líder religioso adianta que irá prosseguir o seu compromisso de encontrar-se com vítimas. “Ao demitir-me, faço-o em pesar com todas as vítimas e sobreviventes de abuso”, garante.
E conclui assim a sua declaração: “Acredito que afastar-me é o melhor para a Igreja da Inglaterra, que amo profundamente e que tive a honra de servir. Oro para que esta decisão nos reconduza ao amor que Jesus Cristo tem por cada um de nós”.
Resignação coerente e responsável

Jorge Pina Cabral, à esquerda, com o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante a visita deste à paróquia da Sagrada Família, em Belas, em fevereiro de 2024 . Foto Clara Raimundo/7MARGENS
“A sua resignação é coerente com a exigência que ele próprio colocou a outros em anteriores casos de abuso sexual”, diz ao 7MARGENS o bispo da Igreja Lusitana, Jorge Pina Cabral. Recordando a decisão de Welby, de ter pedido a George Carey (Arcebispo de Cantuária de 1991 a 2002) a resignação de bispo honorário assistente da diocese de Oxford, por não ter partilhado com a polícia informação relativa a um caso de abuso sexual, o bispo da comunidade que integra a Comunhão Anglicana em Portugal diz que a resignação do até agora Arcebispo de Cantuária, constitui “a expressão de uma liderança responsável que no final do seu exercício ministerial reconhece as suas próprias limitações e erros e assume as consequências de omissões e inércias pessoais e institucionais”.
Pina Cabral acrescenta que o sentido de responsabilidade de Welby, “presente ao longo de onze anos de exercício da função de Arcebispo de Cantuária, levou-o agora a acolher as conclusões” do relatório da semana passada, “assumindo responsavelmente as suas falhas enquanto líder, ao não ter promovido um maior aprofundamento e investigação sobre as alegações de abuso grave perpetradas por John Smith durante mais de 40 anos no Reino Unido e na África Austral”.
Com esta decisão, considera o bispo da Igreja Lusitana, Justin Welby “assumiu a sua quota parte de responsabilidade pelas falhas identificadas no relatório e foi consequente pelos princípios e valores subjacentes ao processo Igreja Segura por ele iniciado há dez anos no seio da Igreja de Inglaterra e da Comunhão Anglicana”. Ao fazê-lo, acrescenta Pina Cabral, “torna-se um exemplo a ser seguido e a sua resignação abre uma nova, mas sem dúvida mais exigente e saudável fase no seio da Igreja no tratamento das questões ligadas aos abusos das crianças e pessoas vulneráveis”.
O arcebispo Welby esteve em fevereiro em Portugal naquela que foi a primeira visita de um Arcebispo de Cantuária à Igreja Lusitana, no final da qual deu uma entrevista ao 7MARGENS.
“O seu pedido de desculpas por não se ter encontrado rapidamente com as vítimas e desejo de que tal aconteça, expressam o seu arrependimento e nobre vontade de reconciliação com todos aqueles que devem ser efetivamente o centro das nossas preocupações e ministério”, diz o bispo Jorge. “Em si mesma esta resignação é já um sinal de algo de novo que começa a germinar no seio das Igrejas que buscam a sua fidelidade a Jesus Cristo e não aos poderes e interesses instituídos.”
Também a comissão executiva da Igreja Lusitana divulgou um comunicado ao início da noite desta terça-feira, reiterando “o seu compromisso no processo de promoção de uma Igreja Segura, assumido já no Sínodo [a máxima assembleia decisória] de 2022 e que visa a implementação de medidas de proteção para todos no contexto da atividade da Igreja”. O texto, enviado às redações, fala de um momento “sensível e particular para a Igreja de Inglaterra e para a Comunhão Anglicana no seu todo” e diz que a Igreja “ora e reafirma a sua solidariedade para com todas as vítimas deste e muitos outros casos conhecidos no seio das Igrejas”. O comunicado acrescenta ainda que “o processo da Igreja Segura desenvolvido nos últimos dez anos a nível mundial na Comunhão Anglicana teve no arcebispo Justin Welby um grande impulsionador e responsável e foi reafirmado por todos os bispos anglicanos reunidos na Conferência de Lambeth em 2022”.
Como será escolhido o sucessor de Justin Welby?

O último Sínodo Geral anglicano, realizado há um ano, ficou marcado por divisões sobre questões morais. Foto reproduzida do site da Igreja de Inglaterra.
Welby completaria 70 anos em janeiro de 2026 e esperava-se que ficasse no cargo até aí, dado que, de acordo com a legislação aprovada pelo Sínodo Geral e pelo parlamento, é com essa idade que o arcebispo de Cantuária é obrigado a aposentar-se. A sua demissão nesta terça-feira levará a uma sucessão anterior ao previsto.
Tal como explica o jornal The Guardian, o arcebispo de Cantuária é nomeado pelo monarca de Inglaterra mediante conselho do primeiro-ministro, que por sua vez recebe sugestões da Comissão de Nomeações da Coroa.
A comissão – que, apesar do nome, é um órgão da Igreja da Inglaterra e não da coroa – concorda com dois nomes para indicação ao primeiro-ministro, que podem ser sugeridos por ordem de preferência.
Há depois 16 membros votantes: o presidente (um leigo), nomeado pelo primeiro-ministro, um bispo, eleito pela Câmara dos Bispos, o arcebispo de York ou outro bispo a ser eleito pela Câmara dos Bispos, seis representantes eleitos da diocese de Cantuária pelo seu comité de Vacância na Sé, seis representantes (três clérigos e três leigos) eleitos pelo Sínodo Geral para servir como membros da comissão por um período de cinco anos, e um membro da reunião dos primazes da Comunhão Anglicana, eleito pelo comité permanente da mesma.
Notícia atualizada às 23h de dia 12/11, com as declarações do bispo Pina Cabral e o comunicado da Igreja Lusitana.









