Arcebispo de Évora anuncia investigação a misterioso desaparecimento de peças de arte de santuário em 2009

e | 19 Fev 21

Nossa Senhora de Aires, Évora, Viana do Alentejo, Património,

O desaparecimento das peças no Santuário de Nossa Senhora de Aires ocorreu em 2009 mas só em 2020 chegou ao conhecimento do arcebispo Senra Coelho. A razão para tal facto ainda não está esclarecida. Foto de arquivo © PMC/adefesa, cedida ao 7Margens.

 

O arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, anunciou nesta quinta-feira, 18, o desaparecimento, do santuário de Nossa Senhora de Aires, em Viana do Alentejo, de um conjunto de objetos que foram ofertas de peregrinos, cujo valor não especificou.

Até aqui, o assunto seria mais um fait divers lamentável. Acontece que, segundo o arcebispo, o desaparecimento aconteceu já em 2009, mas só terá chegado ao seu conhecimento em 2020, altura em que comunicou o assunto à Polícia Judiciária. Segundo disse, a informação foi-lhe transmitida pelos párocos de Viana do Alentejo.

A operação informativa passou por um comunicado lido num vídeo e transcrito num texto do prelado eborense e ainda por um guia para os jornalistas elaborado sob a forma de perguntas e respostas, um sinal do cuidado que a diocese colocou neste assunto.

Os termos em que o arcebispo falou exprimem isso mesmo: manifestou a “profunda tristeza e mágoa”; disse saber que “esta informação entristece e fere duramente o povo cristão, cujas ofertas são fruto de privações e de uma fé profunda a Deus”; e pediu “perdão a Deus” e “aos cristãos pela parte de responsabilidade que possa caber à Arquidiocese no que ocorreu, e que a investigação judiciária irá apurar”. Finalmente manifestou “total colaboração para o apuramento de toda a verdade”, pedindo a Deus que lhe dê a si e a todos os membros da diocese “a coragem da verdade”. E – casa roubada, trancas na porta – a “Arquidiocese está a tomar as medidas necessárias para o reforço na proteção e salvaguarda do seu património”, diz ainda.

No guião de perguntas e respostas sobre este assunto, disponível na página da Arquidiocese, fica-se a saber que, entre os objetos extraviados constam dois resplendores, um em prata e pedras preciosas, outro em ouro também com algumas pedras preciosas; e vários objetos de ouro de uso pessoal oferecidos a Nossa Senhora até à data da ocorrência. Havia e há um inventário dos objetos de valor daquele santuário e o valor económico não estará apurado.

 

Questões ainda por clarificar
Ex-votos, Nossa Senhora de Aires, Évora, Viana do Alentejo, Património,

Ex-votos do Santuário de Nossa Senhora de Aires (Viana do Alentejo, Évora). Foto de arquivo © PMC/adefesa, cedida ao 7Margens.

 

Apesar do esforço por esclarecer o caso, a Arquidiocese deixou, entretanto, alguns aspetos por clarificar. Por exemplo: como e por quem se soube que os ex-votos desapareceram em agosto de 2009; se o arcebispo da altura foi ou não informado, nessa altura ou depois; se sim, que registos há e porque não foram tomadas diligências para se investigar o ocorrido; e, sobretudo, o que se passou para D. Francisco Senra Coelho só ter sabido dos factos em meados de 2020 e ter demorado mais de meio ano a trazer o assunto ao conhecimento dos fiéis e da opinião pública. Apesar de tanto no comunicado como na informação complementar se aludir às obras de vulto que decorreram no santuário desde 2014, não se percebe se este facto tem algo a ver com os bens extraviados.

O 7MARGENS procurou obter elementos de resposta a estes pontos, tendo ficado a saber que a informação foi comunicada ao arcebispo “uns meses antes da apresentação da queixa, que aconteceu a 26 de Junho de 2020” e que “após ser informado pelo pároco in solidum, o Senhor Arcebispo procurou ouvir o pároco titular. Mas por este, entretanto, ter adoecido gravemente ao ponto de ficar impedido de continuar a exercer o seu ministério, e também devido às limitações próprias do confinamento que começou em Março de 2020, só dois a três meses depois foi possível ouvir dele a confirmação do relato. Depois desse momento o Senhor Arcebispo fez a denúncia à Polícia Judiciária”.

O 7MARGENS soube entretanto, junto de outra fonte, que terão sido os próprios padres a só comunicar o sucedido, no ano passado, ao arcebispo Senra Coelho. A razão para o desfazamento de 11 anos, entre o sucedido e a comunicação ainda não está clara.

Quanto ao tempo transcorrido desde junho passado e a divulgação, esta semana, a explicação foi esta: “A preocupação de não perturbar o processo de investigação, o estado de desenvolvimento final das obras [do santuário] e questões de saúde relacionadas com um dos párocos aconselharam a que este fosse o momento mais adequado e possível para tornar pública esta informação”.

Texto com o contributo de António Marujo

 

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