Índia

Arcebispo de Manipur apela a intervenção do Governo para acabar com violência

| 28 Set 2023

Manifestação pela paz em Manipur, Índia. Foto @ManipurTimesX

“Por toda a Índia, os católicos estão a participar em procissões à luz das velas, grandes multidões de homens e mulheres rezam em solidariedade com Manipur e marcham pela paz”, diz o arcebispo de Imphal, pedindo à comunidade internacional que faça o mesmo. Foto © @ManipurTimesX.

 

O arcebispo de Imphal, em Manipur, na Índia, alerta para o facto de continuar a registar-se violência étnica e religiosa na região – particularmente contra os cristãos que ali vivem – e lamenta a falta de intervenção do Governo central liderado pelo primeiro-ministro Narendra Modi. “Se ele disser ‘parem’, sinto que a violência vai parar, mas se ninguém intervier, a situação vai prolongar-se por muitos mais meses”, afirma Dominic Lumon, em declarações divulgadas pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) nesta quinta-feira, 28 de setembro.

Há muitos anos que as tensões étnicas e religiosas afetam Manipur – região ligada ao resto do país por um estreito corredor terrestre, e que faz fronteira com Myanmar – mas os episódios de violência a que se refere o arcebispo Dominic Lumon iniciaram-se no passado mês de maio, em confrontos que opõem o povo predominantemente hindu Meitei ao povo maioritariamente cristão Kuki, e que já provocaram mais de 180 mortes, várias centenas de feridos e o deslocamento de 70 mil pessoas.

Mais de 250 igrejas e edifícios eclesiásticos foram destruídos, incluindo os que pertenciam a cristãos Meiteis, o que leva os líderes religiosos a concluir que há um elemento de perseguição aos cristãos envolvido. “A forma como destruíram as imagens, com vingança, vandalizaram e destruíram tudo, e depois foram embora…”, conta o arcebispo de Imphal, referindo-se especificamente àdestruição de uma grande igreja e de um centro pastoral. E acrescenta: “Quando o fogo foi extinto, voltaram de novo para se certificarem de que a igreja estava totalmente destruída. Podemos ver que eles estão a agir também por ódio ao cristianismo, porque as igrejas Meitei foram destruídas e os líderes religiosos não-Kuki também estão a fugir de Imphal.”

 

ONU também acusa Governo, Igreja promove diálogo inter-religioso

No início deste mês, especialistas da ONU fizeram soar o alarme de que a situação tinha atingido um “ponto crítico”, com base em relatos de graves violações e abusos dos direitos humanos no estado de Manipur, incluindo violência sexual, execuções extrajudiciais, destruição de casas, deslocamentos forçados, tortura e maus-tratos. Os especialistas apontaram para uma “resposta humanitária inadequada” na sequência da grave situação vivida na região e também para uma “resposta aparentemente lenta e inadequada do governo da Índia, incluindo a aplicação da lei, para conter a violência física e sexual e o discurso de ódio em Manipur”.

Ao longo dos últimos meses, o silêncio do primeiro-ministro, Narendra Modi, tem sido “ensurdecedor”, refere a Fundação AIS. “Até ao momento, não o ouvimos dizer grande coisa, e já lá vão mais de quatro meses. Só uma vez, quando surgiram vídeos de duas raparigas obrigadas a desfilar nuas, é que fez uma declaração, mas sobre a questão da violência em geral ainda não disse nada”, destaca o arcebispo de Imphal. E tampouco se deslocou a Manipur.

Esta quinta-feira, as autoridades impuseram um recolher obrigatório por período indefinido na capital e em alguns locais do estado, depois de mais de 80 estudantes terem ficado feridos em protestos contra o Governo, na sequência do alegado rapto e assassinato de dois estudantes Meitei. Os serviços de internet móvel foram suspensos por cinco dias, informa a Al Jazeera.

Mas neste ambiente, assinala a Fundação AIS, “os bandos que espalham a maior violência estão armados e agem com impunidade”, o que leva o arcebispo Dominic Lumon a concluir que devem estar a ser “apoiados e protegidos”.

Enquanto aguarda uma tomada de posição do Governo, a Igreja católica tem investido no diálogo com outros líderes religiosos, com o objetivo de acalmar as tensões. “Criámos um Fórum Inter-religioso para a Paz e a Harmonia, e já nos reunimos nove vezes. Vamos reunir os chefes de ambas as comunidades para dizer aos bandos que acabem com a violência. Se seremos bem-sucedidos ou não, não sabemos, mas é nosso dever dizer-lhes que acabem com a violência. O caminho para a paz passa apenas pelo diálogo, e é isso que vamos sublinhar.”, adianta Dominic Lumon.

“Por toda a Índia, os católicos estão a participar em procissões à luz das velas, grandes multidões de homens e mulheres rezam em solidariedade com Manipur e marcham pela paz”, assinala ainda o arcebispo, pedindo também à comunidade internacional que reze pela paz e que não deixe que a situação se torne mais um conflito esquecido.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

O regresso da sombra da escravidão

O regresso da sombra da escravidão novidade

Vivemos um tempo de grande angústia e incerteza. As guerras multiplicam-se e os sinais de intolerância são cada vez mais evidentes. A fim de ser concreta também a nossa Quaresma, o primeiro passo é querer ver a realidade. O direito internacional e a dignidade humana são desprezados. [O texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This