Diversos terrenos pertencentes à arquidiocese de Nampula, em Moçambique, têm vindo a ser invadidos e ocupados ilegalmente e, apesar de ter já sido emitida uma ordem judicial para que os invasores abandonem os locais, a ocupação continua, sem que as autoridades ajam em conformidade. A denúncia foi feita pelo arcebispo Inácio Saúre, que convocou uma conferência de imprensa na última semana para lançar um “apelo de socorro”.
Em causa estão os terrenos pertencentes às Irmãs Servas de Maria do Mosteiro Mater Dei; do Seminário filosófico Mater Apostulorum; do Seminário propedêutico São Carlos Lwanga; e mais recentemente da Paróquia de São João Baptista de Marrare, adianta a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). Neles, começaram já a ser edificadas casas improvisadas e num deles foi também construída uma mesquita.
Falando aos jornalistas, Inácio Saúre explicou que a Igreja apresentou queixa à Justiça e que no passado dia 16 de maio foi emitida uma providência cautelar para a “restituição provisória de posse” dos terrenos, mas sem efeito prático. O arcebispo contou que “os oficiais de diligência que foram enviados para o local” acabaram “escorraçados”. Face a esta “recusa obstinada dos ocupantes de abandonar os terrenos”, Inácio Saúre considera que “deve haver ali uma mão invisível de poderosos, de intocáveis, que encorajam os criminosos”.
No encontro com os jornalistas, o prelado acrescentou que também já denunciou o caso ao governador da província de Nampula, e que agora nada mais lhe resta do que “lançar um forte apelo, um apelo de socorro a todas as pessoas de boa vontade não só em Nampula mas em Moçambique e também no mundo inteiro, porque a lei parece que já não serve nesta terra”.
Um dos terrenos ocupados ilegalmente pertence à Paróquia de Marrare, onde está o padre português José Luzia, missionário que chegou a Nampula há já 57 anos. À Fundação AIS, o sacerdote diz-se “chocado” com o que está a acontecer e com a falta de atuação das autoridades policiais: “Há nove meses foi a invasão dos terrenos das monjas e do seminário. No seminário, [a ocupação] implicou inclusivamente o derrube de um muro e a vandalização de uma machamba [terreno agrícola] feita pelos seminaristas para o seu próprio consumo. Para mim, tem sido chocante que durante estes longos meses as autoridades policiais não se façam sentir e tudo tem sido remetido para as instâncias judiciais…”.
No final de julho, esteve prevista uma intervenção das autoridades, incluindo com a utilização de máquinas para o derrube das construções clandestinas que, entretanto, foram surgindo nos terrenos da Igreja, mas nada chegou a acontecer.
Tal como para o arcebispo de Nampula, também para o missionário José Luzia esta falta de ação levanta muitas questões: “É por isso que eu continuo a perguntar-me, porque é que as autoridades que deviam agir não agem? E por isso sou tentado a perguntar quem é a mão escondida, e é, claro, da Frelimo, pois nunca pode ser de outro partido político, que está porventura a sabotar as intervenções que deviam ser feitas até para se afirmar a dignidade do Estado, que está muito fragilizada desde as intervenções policiais contra os manifestantes a seguir às eleições”, sublinha o presbítero.
E acrescenta: “Há quem ponha a hipótese de esta ocupação ilegal dos terrenos, aparentemente concertada contra instituições da Igreja Católica em Nampula, possa ter alguma coisa a ver com o facto de o arcebispo, D. Inácio Saúre, ter ultimamente feito pronunciamentos muito críticos sobre a situação social e política do país… Talvez sim, talvez não, mas há quem opine que isso pode ser verdade”.
Certo é que o arcebispo moçambicano não se remete ao silêncio, e desta vez colocou “na praça pública” a questão da ocupação ilegal dos terrenos da Igreja.










