Arcebispo de Nova Iorque “lidera” campanha para a reeleição de Trump

| 30 Abr 20

Donald Trump smiles as he sits next to New York Cardinal Timothy Dolan during the Alfred E. Smith Memorial Foundation Dinner in New York City Oct. 20. (CNS/Gregory A. Shemitz) Donald Trump com o cardeal Timothy Dolan, num jantar, em Outubro de 2016. Foto: Direitos reservados

 

Há quem diga, meio a brincar meio a sério, que o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova Iorque, até já apresentou o seu pedido de demissão ao Papa para poder chefiar o comité de reeleição de Donald Trump. O Presidente norte-americano aproveitou nos últimos dias diversas oportunidades para recolher o apoio dos líderes religiosos. No caso de Dolan, esse apoio já está mais do que conquistado. O cardeal não se tem poupado nas manifestações de apreço a Trump, referindo-se a ele publicamente como um “grande amigo” e afirmando que se sente “honrado por ser o seu batedor”.

Numa conferência por telefone que decorreu no passado sábado, 25 de abril, e que contou com a participação de cerca de 600 líderes e educadores católicos, Trump intitulou-se “o melhor [Presidente] da história da Igreja Católica”. O objetivo da conferência seria, supostamente, debater as medidas de apoio às escolas católicas na sequência da pandemia de covid-19, mas o residente dos EUA fez um discurso de abertura de cerca de 15 minutos focado em demonstrar o contraste entre a sua administração e aquilo que uma presidência democrática poderia significar para os católicos.

De acordo com uma gravação áudio da conferência, à qual o jornal digital Crux teve acesso, Donald Trump sublinhou que o seu compromisso com a causa pró-vida “tem estado a um nível nunca visto noutro presidente”, e recordou ter sido o primeiro a, durante o mandato, discursar pessoalmente na Marcha pela Vida, o evento anual de protesto contra a legalização do aborto naquele país, decidida em 1973.

Trump aproveitou para enumerar diversas conquistas obtidas durante a sua administração, afirmando que antes de a economia ter sido “injustamente atingida” pelo coronavírus, era responsável pelos “melhores números” da história do país, referindo que a propagação do vírus “poderia ter sido travada muito mais cedo… se tivesse sido estancada na fonte”, e rematou: “Todos sabem o que quero dizer com isto.”

O Presidente recordou ainda a sua oposição à Emenda Johnson, que proibia que as organizações isentas de impostos e sem fins lucrativos, incluindo as igrejas, apoiassem ou se opusessem a candidatos políticos. “Livrei-me dela para que possam exprimir a vossa opinião de forma muito veemente”, concluiu.

 

“Precisamos de si mais do que nunca”, disse Dolan a Trump

Depois da sua intervenção inicial, Trump deu a palavra a um grupo de participantes previamente selecionados, entre os quais o cardeal Dolan, que foi o primeiro a intervir. O arcebispo de Nova Iorque começou por saudar Donald Trump, elogiando-o por ser um “grande cavalheiro” e “um grande amigo”, que respeita os seus pedidos, tendo ainda afirmado que se sentia “honrado por ser o seu batedor”.

Timothy Dolan deu a entender que tem falado frequentemente ao telefone com Trump nos últimos meses (mais do que com a sua própria mãe!) e dirigiu também elogios aos secretários de estado da Educação, Betsy Devos, e da Habitação e Desenvolvimento Urbano, Ben Carson, que acompanhavam a conferência, descrevendo-os como “campeões” e “queridos aliados na paixão pelas nossas escolas”.

O cardeal centrou-se depois no tema da educação e agradeceu ao Presidente pela sua “corajosa insistência para que as organizações sem fins lucrativos, as comunidades religiosas e as escolas fossem incluídas” no recente pacote de estímulo à economia, salientando, no entanto, que o financiamento previsto só se aplica ao atual ano letivo e que muitas escolas católicas em todo o país estão “verdadeiramente assustadas” com o próximo ano.

Logo de seguida, voltou a centrar-se na campanha por Trump: “Nunca as perspetivas financeiras foram tão sombrias, mas talvez nunca as perspetivas tenham sido tão promissoras, dado o empenho enérgico da sua administração nas nossas escolas”, disse o cardeal ao Presidente, e terminou com um emotivo “Precisamos de si mais do que nunca.”

A mensagem de Donald Trump no Twitter a regozijar-se com os encontros com católicos: elogios mútuos entre o Presidente e o cardeal Dolan sucederam-se nos últimos dias.

 
“Votem e façam o que têm a fazer”, ou terão “uma Igreja Católica muito diferente”

A resposta de Trump não se fez esperar. Aproveitando a deixa, recordou aos participantes na conferência, entre os quais se encontravam o arcebispo de Boston, Sean O’Malley, e o presidente da Conferência Episcopal dos EUA, José Horácio Gómez, a importância de ser reeleito. A situação que se avizinha no dia 3 de Novembro, data das eleições presidenciais nos EUA, afirmou, “nunca foi tão importante para a Igreja”. E deixou o alerta: “Espero que todos saiam, votem e façam o que têm a fazer”; caso contrário “terão uma Igreja Católica muito diferente”.

Alguns dias antes, mais precisamente a 17 de abril, Trump tinha já utilizado uma conferência com os líderes religiosos das diversas confissões, cujo objetivo era debater a reabertura das igrejas, para também aí angariar apoios para a sua reeleição. De acordo com fontes não identificadas citadas pelo Crux teve acesso, o cardeal Dolan foi um dos participantes dessa conferência, tendo na altura agradecido ao Presidente o seu apoio relativamente aos temas da liberdade religiosa e do aborto. Trump terá então deixado um primeiro aviso aos líderes religiosos de que tais assuntos seriam menosprezados se um democrata fosse eleito em novembro.

 

Melania também recebeu elogios

No sábado, após a reunião com os líderes e educadores católicos, Donald Trump escreveu uma mensagem na sua conta de Twitter agradecendo a adesão dos participantes à conferência e anunciando que iria assistir online à missa celebrada pelo cardeal Dolan na manhã seguinte, a partir da Catedral de St. Patrick, em Nova Iorque.

A mensagem terá chegado ao arcebispo de Nova Iorque, que logo no início da sua homilia fez questão de dar as boas-vindas a Trump: “Disseram-me que o nosso antigo vizinho está a acompanhar-nos em direto. Bem-vindo, senhor Presidente”, disse Timothy Dolan, numa alusão ao facto de a catedral se encontrar a poucos metros da Torre Trump, residência do atual presidente antes de se mudar para a Casa Branca.

Durante a homilia, o arcebispo de Nova Iorque frisou ainda que reza todos os dias por Trump e enviou a sua bênção para a primeira dama Melania, que fazia anos nesse dia. “Pode haver muitas divergências no nosso país, como em qualquer democracia vibrante, mas estamos todos de acordo quanto a termos uma primeira dama excecionalmente amável e eficiente”, disse o cardeal.

A troca de elogios não ficou por aqui, e parece estar para durar. Depois da missa de domingo, Trump voltou uma vez mais ao Twitter para dirigir uma mensagem a Dolan: “Obrigado pela grande conferência de ontem com os líderes católicos, e pela grande missa de hoje”.

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