Nas vésperas da tomada de posse do primeiro presidente de extrema-direita desde Pinochet, há mais de 35 anos, o arcebispo de Santiago do Chile, cardeal Fernando Chomalí, dirigiu uma carta aberta ao recém-eleito novo titular do cargo, Juan Antonio Kast, na qual sublinha que o crescimento económico não é tudo.
O cardeal, que já tinha tomado uma iniciativa semelhante em junho de 2025, com os candidatos que se perfilaram para a eleição presidencial, quis agora colocar Kast perante os “grandes desafios sociais, económicos e culturais no Chile e no mundo”, que, sublinha ele, “exigem muita sabedoria”.
A carta aberta de Fernando Chomalí lembra que “os chilenos amam a democracia” e diz esperar que o presidente eleito “governe a pensar nos mais vulneráveis e em maior risco, a começar pelos nascituros e pelos doentes terminais, bem como pelos migrantes, presos e enfermos que requerem cuidados adequados”.
No entanto, é pelos desafios da educação que o responsável católico começa a sua exposição, matéria que diz conhecer a partir do trabalho pastoral que desenvolveu em escolas privadas e públicas. “A primeira coisa que o novo presidente deveria promover é a educação gratuita e de qualidade para todos que dela necessitam”, o que “requer professores e diretores excelentes”, começa por afirmar. Isso exige que a profissão docente seja reafirmada como “a mais nobre de todas”, até porque, alerta o cardeal, “hoje, muitas crianças passam mais tempo com os professores do que com os próprios pais, e carecem de modelos morais e, sobretudo, de afeto”.
Lembrando que “o sistema educacional chileno perpetua a pobreza, mata os sonhos dos jovens e empobrece os dons, talentos e habilidades que eles possuem”, o arcebispo de Santiago não tem dúvidas: o investimento na educação é a forma de “quebrar o ciclo vicioso da pobreza”. De reso, do seu ponto de vista, a mesma produção de desigualdade social ocorre também no campo da saúde, ao lembrar as pessoas que morrem à espera da sua vez nas longas listas do atendimento médico e não têm recursos para procurar um atendimento no setor privado.
“Promover maior equidade e justiça para reduzir a crescente desigualdade entre os chilenos”, num país que, apesar de tudo, viu crescer a riqueza e diminuir a pobreza, é o segundo desafio apresentado pela carta aberta do arcebispo. É que, salienta ele, “muitos compatriotas ainda vivem na pobreza, lutando para viver com dignidade”, o que exige do Estado “um papel mais ativo na promoção de pequenas e médias empresas e na oferta de formação em todos os níveis”. Urge igualmente “colocar os trabalhadores e suas famílias no centro das políticas públicas”, em lugar de vê-los meramente como força de trabalho.

Cardeal Chomali recebendo estudantes. Foto © Religión Digital
A terceira preocupação do cardeal centra-se nas políticas públicas demográficas, que devem ser vistas num horizonte temporal mais longo. “Isso exige – reflete Fernando Chomalí – a promoção da família como núcleo da sociedade e principal educadora das futuras gerações”. No Chile,” os jovens valorizam a família acima de tudo, e o que mais os aflige é a sua desestruturação e instabilidade”, que os leva a temer o futuro: “veem o sonho da casa própria, da estabilidade económica e da garantia de uma vida digna para suas famílias como algo muito distante”.
Por outro lado, as baixas taxas de natalidade e o aumento da expetativa de vida irão obrigar a uma política de imigração que “conceda cidadania plena àqueles que vêm para o Chile”. O desenvolvimento económico que o país procura não pode prescindir dos imigrantes, cuja contribuição é já “inegável e que, em nome da equidade, devemos reconhecer”.
Por fim, a carta aberta considera ”crucial fomentar um profundo sentido de solidariedade” entre todos. “Sem essa experiência, admiravelmente alcançada pela fé, podemos até experimentar um crescimento económico significativo, mas ver-nos-emos cada vez mais isolados e encontrar sentido na vida tornar-se-á cada vez mais difícil”. Recorda como o país inteiro se mobilizou para ajudar, aquando de recente vaga de incêndios no sul do país. “Sem essa experiência, que a fé ajuda a cultivar, o crescimento económico perde o seu significado”, salienta o cardeal Chomalí.










