O arcebispo de Toulouse, Guy de Kerimel, recuou na controversa decisão de nomear como chanceler diocesano um padre condenado por ter abusado sexualmente de um menor. Depois de vários grupos de vítimas terem manifestado a sua indignação e de a Conferência Episcopal Francesa o ter convidado a “reconsiderar” a sua escolha, Kerimel anunciou a nomeação de outro padre para o cargo.
“Para não provocar divisão entre os bispos e não ficar num impasse entre os ‘a favor’ e os ‘contra’, decidi reverter a minha decisão; isso já foi feito, com a nomeação de um novo chanceler”, escreve o arcebispo de Toulouse, num comunicado divulgado na página da diocese este domingo, 17 de agosto.
“A minha decisão foi interpretada por muitos como uma afronta às vítimas de abuso sexual; peço perdão às vítimas. Obviamente, essa não era a minha intenção. Outros viram-na como um sinal de esperança para os perpetradores de abuso que cumpriram a sua pena e estão a passar por uma morte social muito difícil. Aqui, devo pedir perdão àquele que escolhi e em quem confio, por não ter conseguido encontrar o lugar certo a que tem direito”, prossegue o prelado.
Kerimel recorda ainda que, “no Evangelho, Jesus fez grandes esforços para reabilitar pecadores e culpados. Chamou para posições de responsabilidade homens como Mateus, o cobrador de impostos, Pedro, o renegado, Paulo, o criminoso, Maria Madalena, a prostituta, e tantos outros”. E deixa a pergunta: “Como podemos unir justiça e misericórdia?”.
A decisão de recuar na nomeação do padre Dominique Spina acontece após mais de dois meses de críticas, as quais culminaram, na semana passada, num comunicado inédito da Conferência Episcopal Francesa, no qual os bispos defendiam que “tal nomeação para um cargo tão importante, tanto a nível canónico como simbólico, só pode reabrir feridas, suscitar suspeitas e desconcertar o povo de Deus” [ver 7MARGENS].
Dominique Spina foi condenado em 2006 a cinco anos de prisão, um deles com pena suspensa, pela violação de um menor de 16 anos. De acordo com o jornal The Catholic Herald, a vítima vinha de uma família problemática de Pau (sudoeste de França, diocese de Bayonne) e acreditava ter vocação para o sacerdócio. Spina tornou-se seu diretor espiritual e cometeu o abuso entre 1992 e 1994. Inicialmente, Spina impediu o jovem de ingressar no seminário diocesano. No entanto, este acabou por ser admitido e, posteriormente, denunciou o abuso ao diretor do seminário. Logo após a denúncia, a vítima foi expulsa do seminário por “falta de maturidade”. Mas uma queixa foi apresentada em 2002, e Spina foi detido pelo que descreveu como um “relacionamento consensual”.
Após cumprir dois anos de pena, Spina obteve liberdade condicional em 2007 e foi transferido para a Diocese de Toulouse pelo então arcebispo Robert Le Gall, permanecendo incardinado na sua diocese de origem. Em Toulouse, ele assumiu responsabilidades administrativas, incluindo pequenas tarefas pastorais apenas com adultos, e recebeu apoio psicológico. Em 2009, solicitou a retoma do ministério sacerdotal, o que lhe foi concedido sob supervisão. No entanto, tornou-se pároco de Fronton-Bouloc-Castelnau-d’Estrétefonds, onde era o único padre e supervisionava a pastoral juvenil. O então bispo de Toulouse defendeu a decisão, argumentando que Spina não tinha contacto não supervisionado com crianças. Mas em 2016, após reações negativas nos média, o bispo dispensou-o das suas funções.










