Há quase cem anos, houve o Holodomor – a grande fome que matou milhões na Ucrânia durante o comunismo soviético de Estaline. Agora, passados quatro anos desde o início da guerra em grande escala por parte da Rússia, há o Kholodomor: uma outra espécie de genocídio, que está a matar de frio (ou kholod, em ucraniano) aqueles que tentam sobreviver aos ataques que destroem cada vez mais infraestruturas críticas no país.
A denúncia é feita pelo líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, o arcebispo Sviatoslav Shevchuk, em entrevista aos média do Vaticano. “Todos conhecemos a palavra ‘Holodomor’, o genocídio através da fome artificial; agora, porém, enfrentamos outra forma de genocídio, ligada ao frio do inverno, a que alguns já chamam de ‘Kholodomor'”, afirma, assinalando que “este inverno é o mais rigoroso da última década: a temperatura em Kyiv caiu para 20 graus abaixo de zero. E os russos estão a destruir metodicamente as infraestruturas vitais das cidades ucranianas, em particular da capital”.
É o caso de “muitas centrais [elétricas], construídas na era soviética e cujos projetos eram, portanto, conhecidos pelos russos”, exemplifica. “E essa destruição metódica continua: drones sobrevoam a cidade, localizam as centrais ainda em funcionamento e, em seguida, com mísseis e ataques direcionados, elas são atingidas”, acrescenta.
Por esse motivo, “quando a temperatura desceu abaixo dos 20 graus, deixou de ser possível fornecer eletricidade e água quente; os canos congelaram e romperam, e os sistemas sanitários também foram gravemente danificados. Imagine um prédio com três mil pessoas: nos apartamentos tudo congela, a temperatura interna é apenas alguns graus acima da externa, as casas de banho estão inutilizáveis. Muitos ficam presos nas suas casas e não sabem para onde ir”, descreve o arcebispo-mor de Kyiv-Halyč.

O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Sviatoslav Shevchuk, esteve com o Papa Leão XIV no Vaticano, no passado dia 12 de fevereiro. Foto © Vatican Media
Como é possível sobreviver neste cenário? O prefeito de Kyiv convidou quem puder a deixar temporariamente a cidade e estima-se que quase meio milhão de pessoas o tenham feito. “No entanto, muitos permanecem porque trabalham ou não têm alternativas”, refere o Sviastolav Shevchuk. Para estes, foram montados os chamados Centros de Resiliência: tendas aquecidas com geradores, onde as pessoas podem recarregar os seus dispositivos eletrónicos, beber um chá quente, estar juntas e aquecer-se um pouco. ” Algumas passam a noite lá. Escolas e creches também foram adaptadas para oferecer acolhimento. Na nossa catedral, abrimos um Centro de Resiliência no abrigo semi-subterrâneo. Nosso gerador funciona quase 20 horas por dia, porque recebemos eletricidade da rede da cidade apenas por duas ou três horas. Muitas pessoas dormem lá e, na verdade, vivem lá: temos que providenciar tudo, porque elas não podem voltar para suas casas”, partilha o prelado.
Ao tentar fazer um balanço de uma guerra “que nunca deveria ter começado”, o líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana destaca que “estamos diante de uma verdadeira tragédia que, nos últimos meses, está a agravar-se ainda mais. O número de civis mortos e feridos continua a aumentar. Posso dizer que nem mesmo no início da invasão, em 2022, a situação era tão dramática como hoje, especialmente durante este inverno, particularmente na capital ucraniana”.
Os números confirmam: de acordo com a ONU, 2025 foi o ano mais letal para os civis desde o início da invasão, com o número de civis mortos e feridos a aumentar 31% em relação a 2024 e 70% face a 2023. Dos 2.514 civis mortos no último ano, 92 eram crianças. Segundo novos dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), cerca de 325.000 ucranianos que regressaram ao país poderão voltar a ser deslocados nos próximos meses, sendo que mais de um terço pondera sair novamente do país.

Edifício danificado e parque infantil coberto de neve em Kyiv, após ataques a infraestruturas críticas. Foto © Unicef/Oleksii Filippov
Ainda assim, “não se sente um cansaço que leve ao desespero ou à resignação: pelo contrário, com estes contínuos ataques com mísseis, a vontade de resistir cresce”, diz o arcebispo, para logo a seguir partilhar um episódio vivido na catedral de Kyiv: “Uma criança de cinco anos, que frequenta sempre a liturgia, respondeu assim quando lhe perguntei se estava frio em sua casa: ‘se eu vencer o frio, a Ucrânia também vencerá’. Dava para ver que em sua casa fazia frio, porque ele estava vestido com roupas pesadas, mas, apesar de tudo, ele sentia-se um herói. Para mim, essa é a voz não apenas daquela família, mas de todo o povo.”
A solidariedade vinda de fora também tem ajudado, reconhece: “Nestes quatro anos, recebemos muita solidariedade de toda a Igreja universal, promovida sobretudo pelo Santo Padre – primeiro pelo Papa Francisco, de feliz memória, e agora pelo Papa Leão. Estamos verdadeiramente gratos ao Santo Padre e a todos os irmãos e irmãs em Cristo, a todas as pessoas de boa vontade que expressaram sua proximidade”.
Mas a verdade é que essa solidariedade também teve altos e baixos. “Lembro-me dos primeiros dias da guerra, quando a ajuda humanitária chegava em grande quantidade de vários países da Europa e do mundo. No ano passado, porém, a ajuda quase desapareceu. Obter aprovações para projetos destinados àqueles que não tinham meios para sobreviver era cada vez mais difícil. No início de 2025, estimava-se que cerca de cinco milhões de pessoas na Ucrânia estivessem em situação de insegurança alimentar, mas apenas 2,5 milhões podiam receber assistência”, lamenta Shevchuk.
Já neste inverno, “trágico pelo frio e pelas dificuldades, as imagens de pessoas que sofrem, mas tentam resistir, reacenderam a solidariedade internacional, lembrando fevereiro-março de 2022”, sublinha o líder religioso, contando mais um episódio particular: “Após cada bombardeamento em Kyiv, costumo partilhar atualizações com amigos. Enviei a cerca de dez pessoas uma imagem das consequências de um ataque com um pequeno comentário: ‘sobrevivemos a mais uma noite infernal em Kyiv. Temperatura de 20 graus abaixo de zero. A luta pela vida, humanidade e solidariedade continua’. Entre os destinatários estava o cardeal Grzegorz Ryś, arcebispo de Cracóvia, que respondeu com solidariedade imediata. No domingo seguinte, anunciou uma coleta para Kyiv, tornando pública a minha mensagem. Três dias depois, escreveu-nos que já havia chegado um milhão de zlotys à conta da Cáritas. Quatro dias depois, os primeiros camiões com geradores já estavam a caminho de Kyiv. Comentando esse gesto, lembrei-me do ditado latino ‘Bis dat qui cito dat’ – ‘Dá duas vezes quem dá depressa’. Na verdade, aqueles geradores eram urgentes para salvar vidas humanas”.

Um dos muitos camiões de alimentos que foram do Vaticano até à Ucrânia nos últimos meses. Foto: Direitos reservados
Hoje, ao entrar no quinto ano de guerra, a Ucrânia vive “uma onda de solidariedade que vai além do apoio económico”, reconhece com gratidão. “Para nós é importante que em todas as paróquias europeias se fale da Kyiv sofredora, porque a memória e a oração cristã souberam comover as consciências e os corações.”
Mas não deixa de reconhecer também que “o quarto aniversário desta guerra é uma vergonha para a Humanidade”. “É vergonhoso que, em quatro anos, a comunidade internacional não tenha conseguido deter a mão mortífera do agressor”, conclui o arcebispo Shevchuk, deixando um pedido: “Neste triste aniversário, peço a todos que façam uma promessa a Deus e a si mesmos: construir a paz. Os políticos devem fazer o seu dever. Os homens da Igreja e a diplomacia, inclusive a cristã, devem fazer o seu. Os militares, os voluntários: cada um é chamado a fazer a sua parte. Devemos fazer todo o possível para que o agressor pare. Depois virá outro tempo: o da cura do trauma e da reconstrução do que a guerra destruiu. Mas isso será outra história”.










