Igreja Católica do Canadá no meio da tormenta

Arcebispo vende o seu paço para indemnizar vítimas indígenas

| 1 Ago 2021

Basílica da Arquidiocese de S. João, no Canadá. Foto © Nilfanion

 

A Arquidiocese católica de St. John, no nordeste do Canadá, vai vender quatro propriedades, entre as quais o próprio paço episcopal, como uma das formas de reunir fundos para reparar vítimas de abusos físicos, incluindo sexuais, documentados ao longo de várias décadas num orfanato gerido pela Igreja Católica.

Depois de, no início deste ano, o Supremo Tribunal de Justiça canadiano ter validado a decisão de um tribunal de recurso contrária à posição da Arquidiocese e de esta a ter aceite, o arcebispo, Peter Hundt, disse ser a hora de “reparar” ou pelo menos “cuidar das vítimas, dos seus familiares queridos e de toda a comunidade de fé”.

Os abusos ocorreram sobretudo na segunda metade do século passado, no orfanato Mount Cashel, uma instituição criada no final de oitocentos, em terrenos cedidos pelo bispo de St. John e com o apoio do Estado. A partir da segunda metade do séc. XX, a instituição começou a receber também crianças com necessidades especiais e outros casos problemáticos enviados por tribunais. Neste período, a orientação e gestão passou a caber a uma instituição irlandesa de irmãos leigos.

Quando eclodiram denúncias de abusos graves perpetrados pelo pessoal do orfanato, incluindo os membros da ordem, foi tomada a decisão de extinguir o orfanato, o que acabou por acontecer em 1990. Mas este processo conheceu, desde então, desenvolvimentos que passaram pela condenação de instituições do Estado, apreensão de bens da instituição dos irmãos irlandeses, e levou já à demissão de dois bispos.

A Arquidiocese, confrontada com as denúncias das vítimas, procurou escusar-se a indemnizações, argumentando que a instituição responsável pelo orfanato Mount Cashel era independente. Porém, o tribunal considerou que, uma vez que tal instituto já não existia, cabia a quem representava na região a Igreja Católica arcar com esse legado histórico, ainda bem vivo no Canadá.

As consequências da decisão judicial poderão acarretar um valor na ordem dos milhões de dólares, pelo que estão em curso arrolamentos de bens da diocese, desencadeados pelo arcebispo, para definir o que será posto à venda. Para já foram definidas quatro propriedades: a residência do arcebispo, um mosteiro de franciscanos e duas parcelas de terreno.

Peter Hundt informou já que este processo vai obrigar a uma profunda reestruturação da Igreja diocesana, devido às medidas drásticas a que está a obrigar: além de se desfazer de espaços, poderá ter de acabar com serviços e despedir pessoas.

Alguns leigos que se pronunciaram sobre o problema, compreendem a inevitabilidade deste caminho, mas lamentam as consequências. E há quem considere que a estratégia seguida deveria ter sido completamente diferente. Em vez de enveredar pela via judicial, a Igreja deveria ter procurado, desde o início, um caminho de negociação e de encontro com as vítimas e seus descendentes.

 

Diferentes posições no seio do episcopado católico

A Conferência Episcopal dos Bispos do Canadá tem desencadeado algumas iniciativas relacionadas com as vítimas e descendentes dos internatos de crianças das comunidades autóctones, orientadas para a oração e a afirmação da vontade de diálogo. Porém, a gravidade e volume dos casos que já tinham sido apontados por uma Comissão independente para a Verdade e Reconciliação, em 2015, além de exigir da Igreja posições mais assertivas e consequentes, encontra posicionamentos bastante diferenciados entre os bispos. Não por acaso, a principal diligência está a ser conduzida a partir do Vaticano e tem o próprio Papa por protagonista, ainda que com a colaboração dos bispos.

No princípio de julho, escassos dias depois de serem conhecidos mais de 700 novos sinais de sepulturas junto de um internato, o presidente da Conferência Episcopal, o arcebispo de Winnipeg, Richard Gagnon, desencadeou uma polémica nacional ao sugerir que a Igreja estava a ser objeto de perseguição.

Embora o arcebispo estivesse a referir-se sobretudo ao vandalismo e incêndio de várias igrejas, as suas palavras foram recebidas com outro enquadramento: o choque pelas largas centenas de restos mortais, enterrados sem qualquer identificação. A homilia do arcebispo Gagnon desencadeou não apenas a ira de responsáveis das comunidades indígenas, mas também incómodo e protesto mesmo de setores católicos.

Nos últimos dias, viu-se uma situação em que as dissenções intra-eclesiais vieram ao de cima ainda de forma mais crua. Um padre que foi missionário durante mais de duas décadas junto das comunidades indígenas e que se encontrava a substituir um pároco na diocese de S. Bonifácio fez uma homilia que disponibilizou na net, que incendiou de novo a opinião pública, depois de amplificada por uma cadeia nacional de televisão e outros media.

Em concreto, dizia que “os nativos são maravilhosos” e que todas as pessoas que conheceu, que haviam frequentado aquelas instituições tinham gostado da formação recebida. Por outro lado, virou o foco das suas palavras para os sobreviventes, acusando-os de mentir sobre terem sido abusados ​​sexualmente. Escândalos de abuso “sempre os há” nas instituições, terá acrescentado o antigo missionário.

O arcebispo da arquidiocese de São Bonifácio, Albert LeGatt, não só se demarcou de modo frontal das considerações do presbítero, rejeitando-as e pedindo por elas desculpa, como suspendeu temporariamente o seu autor de falar em público.

“O que diz este sacerdote não só provocam dano como são falsas. E porque são falsas provocam um enorme sofrimento em todos aqueles, muitos dos quais eu conheço, que viveram de perto as situações de abuso”, disse o arcebispo. Por outro lado, “não se trata apenas de pedir desculpa aos autóctones por estas declarações e da visão e cultura que está por detrás delas, mas de pedir perdão. Quando eu peço desculpa, sou eu que me coloco no centro. Pedir que o outro me perdoe é colocar o outro no centro, aceitar que ele possa (ou não) aceitar-me com o que sou e carrego, que ele possa (ou) confiar em mim”, acrescentou o arcebispo (súmula do pronunciamento que pode ser escutado aqui).

 

Um caso que vai ainda dar pano para mangas

O caso de Mount Cashel é apenas um pequeno ponto no grande mapa das dezenas de internatos que, desde finais do século XIX e quase até ao fim do séc. XX, serviram para educar sobretudo filhos das comunidades indígenas, em muitos casos retirados à força das famílias com o objetivo de as “assimilar” e “cristianizar”.

Como o 7MARGENS tem noticiado, nos últimos meses foram localizados mais de um milhar de corpos de crianças em terrenos junto a algumas dessas instituições e suspeita-se que as investigações que estão a decorrer irão agravar este cenário de mortandade que, em muitos casos, esconde surtos epidémicos não devidamente tratados e abusos de vária natureza por parte de quem deveria ter o papel de educador.

A Igreja Católica, e em menor escala outras confissões cristãs, aparecem intimamente ligadas a estes processos e a posição de tibieza da maioria do episcopado do Canadá tem suscitado a crítica da opinião pública do país e a exigência de uma tomada clara de posição por parte do Papa.

Enquanto no Vaticano se prepara um encontro entre Francisco e uma delegação das comunidades indígenas, previsto para 17 a 20 de dezembro próximo, alguns bispos têm-se solidarizado abertamente com as vítimas que exigem ser ressarcidas. Os incêndios de algumas dezenas de igrejas cristãs nas regiões onde habitam estas comunidades autóctones têm sido lidos como sinal do descontentamento com a posição oficial das confissões cristãs, apesar do apelo dos líderes comunitários a parar com este tipo de atos.

De resto, este “legado traumático” dos internatos de crianças filhas dos primeiros habitantes daqueles países já vinha a motivar movimentações também nos Estados Unidos da América, país em que as igrejas Católica e Protestante foram responsáveis por mais de 150 escolas análogas. Com o impacto do problema no país vizinho, essas movimentações estão a multiplicar-se.

Como dizia a Associated Press, num trabalho recente sobre o assunto, “esta história dolorosa despertou relativamente pouca atenção nos EUA, se comparada com o Canadá”. E acrescenta que alguns defensores da causa consideram que aquilo que as igrejas têm a fazer é “abrir os seus arquivos, educar o público sobre o que foi feito em nome da sua fé e ajudar ex-alunos e seus familiares a contar as suas histórias de traumas familiares”.

 

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