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Argumento em verso contra o ateísmo

| 15/12/2023

“Posto que sou para mim mesmo interioridade/E tu também, e todos/O que será mais racional?/Que eu seja mais consciente/que a própria substância primeira/que é imortal?” Foto © Marcos Paulo Prado / Unsplash

 

O que será mais racional?
Dizer que a multiplicidade universal vem de si própria
Ou antes que vem da absoluta unidade?
Não vem toda a variedade
de uma unidade mais fundamental
que a precede?

O que será mais racional?
Pretender que tal Unidade Primeira seja totalmente inconsciente
pura exterioridade
ou antes que seja consciência e interioridade?

Posto que sou para mim mesmo interioridade
E tu também, e todos
O que será mais racional?
Que eu seja mais consciente
que a própria substância primeira
que é imortal?

O que será mais racional?
Que haja um Absoluto-Uno
eterna e inamovivelmente Deus
de tudo origem e destino
ou que tal Absoluto seja nada?
Quer dizer,
pode o Absoluto, que é Absoluto
ser nada; e o nada, que é coisa nenhuma,
ser absoluto?

Se há a tal unidade suprema
Absoluto a priori de todas as coisas
ela tem de ser contínua e não discreta.
Se o nada a permeasse
coexistindo com ela
acabaria por destrui-la
pois o nada nadifica.

Se a Unidade Absoluta existe
porque é absoluta e não discreta
ela é eterna e infinita.
Permeia tudo e em si própria está
posta inteiramente, em cada parte
até à vertigem de um fractal infinito.

O que será, pois, mais racional?
Crer que o tudo é nada?
Crer que o nada é tudo?
(variações da mesma fé)

Poderei racionalmente conceber
Que o Uno ao qual tudo remonta
e que a razão naturalmente admite
– eterno, imortal, absoluto –
seja desprovido de interioridade,
ele que é a própria interioridade
inscrita no coração de Tudo?

E que eu, que sou nada,
possa arrancar da minha própria finitude
uma alma ilimitada,
mas o Absoluto que me fundamenta e habita
não a possa tirar de si próprio?

E porque haveria eu de ser interioridade
podendo dizer eu sou
e a Absoluta e Primeira Unidade
que é Suprema Intimidade
não?

Assim, o que parece mais racional?
Que a existência dos seres e do universo
não passe de uma dança agitada
sobre o abismo do Nada?
Ou que nela habite a plenitude infinita
de um Ser que é inesgotável Eternidade?

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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