
A capa de Conversas Sobre a Fé
Conversas Sobre a Fé é o título do livro que, em forma de entrevista, coloca em diálogo o padre jesuíta italiano Antonio Spadaro, colaborador próximo do Papa Francisco, e o realizador Martin Scorsese, autor de, entre muitos outros títulos, O Touro Enraivecido, A Última Tentação de Cristo e Silêncio, dedicado à perseguição dos cristãos no Japão. O livro, que será posto à venda na próxima terça-feira, 15, numa edição da Casa das Letras, nasceu de vários encontros que ambos mantiveram desde 2016, culminando com a leitura de um prefácio do Papa Francisco a um livro de Spadaro (Uma Trama Divina – Jesus em contracampo, Paulinas Editora), a partir do qual Scorsese se sentiu desafiado a fazer um guião para um novo filme sobre Jesus.
O livro de diálogos percorre a infância e a educação católica do realizador, o seu trabalho como cineasta preocupado com a questão espiritual e a figura de Jesus e os seus filmes mais diretamente relacionados com essas temáticas, bem como o mais recente Assassinos da Lua das Flores. O 7MARGENS reproduz a seguir, em pré-publicação, um excerto do último capítulo, precisamente aquele onde o realizador esboça o guião do novo filme.
Argumento para um possível filme sobre Jesus
por Martin Scorsese

Scorsese com o Papa, que assina o prefácio do livro. Foto: Direitos reservados.
Fiquei profundamente comovido com a introdução do Papa Francisco ao livro Uma Trama Divina, do padre Antonio Spadaro, e o seu apelo aos artistas ecoou profundamente em mim. Quis responder e decidi fazê‐lo desta forma.
Começamos na escuridão.
Uma imagem pintada do rosto de Jesus ilumina subitamente o fotograma… e, com a mesma rapidez, desaparece na escuridão.
CORTE para uma série de imagens: uma simples cruz de madeira pendurada por cima de uma cama bem feita num apartamento de um velho apartamento de aluguer… vitrais com cenas da vida de Jesus… uma escultura de mármore de Maria a embalar o corpo de Jesus nos braços… uma pequena cruz de ouro ao lado de uma imagem produzida em massa de Jesus a rezar aos céus… um rapaz sentado a uma mesa a olhar para a cruz ao lado de elaborados desenhos a cores para um filme imaginário chamado The Eternal City.
Mais imagens de Jesus: mais retratos familiares produzidos em massa, breves imagens em movimento de Intolerância, o filme mudo Rei dos Reis, A Túnica e a versão sonora de Rei dos Reis.
VOZ: Como milhões de outras crianças em todo o mundo, cresci com imagens de Jesus à minha volta, todas baseadas numa ideia comum de como ele era e se comportava: bonito, com cabelo e barba compridos, de outro mundo, piedoso…
Um excerto do filme de Pasolini, O Evangelho Segundo São Mateus: o sermão da montanha.
VOZ: Quando a ideia de fazer filmes se tornou realidade, planeei um filme sobre Cristo no mundo moderno, em trajes modernos, filmado em 16 mm a preto e branco, nas ruas de Nova Iorque, com apóstolos de fato em corredores antigos, com camadas e desgas‐ tados pelo tempo, com a crucificação nas docas do West Side e polícias em vez de centuriões – o meu mundo. Mas depois vi o Cristo de Pasolini. O cenário não era moderno, mas o sentimento era. O imediatismo de Cristo estava lá. Pasolini mostrou‐nos um Jesus que era frequentemente apaixonado e irado. Que lutou… O seu filme tornou o que eu estava a planear algo redundante, mas inspirou‐me a ir mais longe.
Uma mesa de montagem. Uma imagem no ecrã bolorento de uma velha mesa de montagem, que é parada. Aparecem as mãos, pegam no filme e fazem um corte.
VOZ: Como representas Jesus no cinema? Tenho pensado nisso ao longo dos anos e tenho feito as minhas próprias tentativas. E as palavras de Sua Santidade deram‐me uma nova urgência e um outro enquadra‐ mento.
A mão na mesa de edição vai até um «caixote de lixo» de lona, com tiras de filme numeradas penduradas em ganchos ao longo da parte superior. Seleciona uma tira, coloca-a na máquina de emenda, aplica a fita e a mão pressiona o metal para selar o casamento das duas imagens.

Scorsese e Spadaro. Foto: Direitos reservados.
VOZ: No cinema, nunca se trata apenas de uma única imagem. São imagens em movimento, mas, mais importante, imagens unidas. Pegas numa imagem, coloca‐la lado a lado com outra imagem, e uma terceira imagem é despertada no olho da mente. E isso é cinema – comunica através de uma impressão ou de uma ideia criada na mente e no coração que não existe na reali‐ dade. É nesta esfera eterna, entre as imagens do real, do nosso mundo, que a presença de Jesus se faz sentir.
CORTE PARA a Grand Central Station, em Nova Iorque.
Movimento constante em todas as direções, pessoas que saem e entram nos comboios, pessoas que correm para o metro, pessoas que procuram outras pessoas, e algumas pessoas simplesmente… vão… Uma tela de Bruegel em movimento, ameaçando transbordar os lados do quadro e envolver-nos.
VOZ: Jesus contém multidões. É constante. Está presente em cada esforço quando somos obrigados a agir por amor, quer tenhamos sucesso ou não. Está presente em cada indício de amor. Não o amor por uma coisa ou pessoa específica, mas o amor como fonte de poder.
A câmara voa por entre a multidão e abranda sobre um rosto, depois aquele, depois outro e outro – vidas individuais a serem vividas aqui e agora…
Uma jovem entra no metro, onde toda a gente se fixa nos seus lugares individuais, pega nos telemóveis e começa a deslizar o dedo sobre o ecrã… ela não é exceção.
VOZ: Em Mateus 10, Jesus diz que não veio para trazer a paz, mas uma espada. É um apelo à violência? Claro que não. Creio que é um apelo para olharmos através de quaisquer dúvidas e procurarmos Deus dentro de nós, o verdadeiro sentimento dentro de todos nós para agirmos a partir do amor.
As portas do metro abrem.
Entra um homem. Está sujo, não se lava, usa roupas esfarrapadas.
Tira um copo de um grande saco de plástico reforçado, cheio de jornais e plástico e vem direito a nós.
Faz um discurso – perdeu o seu apartamento num incêndio, precisa de mais três dólares para ter uma cama limpa para passar a noite –, e depois canta com uma voz irritante.
Avança pela caruagem cheia de gente com o seu saco grande e volumoso.
Toda a gente está nervosa. Desvia os olhos. Alguns passageiros olham rapidamente. A maioria mantém o olhar fixo no vazio, longe do dele.
Torna-se agressivo e até insultuoso.

Scorsese já filmou Jesus, num filme que provocou polémica. Na imagem, cena de A Última Tentação de Cristo (1988). Foto: Direitos reservados.
A mulher fica fixa no seu telefone.
Está quase a chegar a sua vez. Ele aproxima-se. O seu dinheiro está na carteira, mas…
… as notas de dólar estão dobradas por baixo das notas maiores ou é ao contrário? Não seria estranho se ele a visse a mexer nas notas de dez e vinte para lhe dar um dólar?
Se ela é a única que lhe dá dinheiro, o que é que as pessoas à sua volta vão pensar? Julgá-la-ão?
Ansiedade.
Aproxima-se. Aproxima-se mais… De repente…
Ela levanta o olhar do telemóvel e olha diretamente para os olhos dele…
… ele olha nos dela. Fixamo-nos neles, ficamos dentro da sua troca.
VOZ: Surpreendes‐te a ti mesmo, vês realmente alguém e reconheces a sua humanidade… aí está a espada de Jesus, cortando todos os laços com todos os hábitos e álibis e comportamentos não ditos que nos mantêm a distâncias educadas uns dos outros… e indo diretamente ao coração do amor.
Ficamos lá, com aqueles rostos…
VOZ: A revelação pode chegar a qualquer lugar e a qualquer momento – numa sala de reuniões, nas colinas de Oklahoma, no pátio de uma prisão de segu‐ rança máxima, num aeroporto ou num Starbucks, num museu ou numa caixa de frigorífico de cartão que alguém transformou num abrigo improvisado, numa sala de concertos ou numa câmara de tortura.
O momento termina, o homem não se dá ao trabalho de esperar pelo dinheiro e segue em frente, a mulher junta as suas coisas. (…)










