Aristides de Sousa Mendes, a coragem da desobediência

| 19 Jun 2023

Para a primeira das quatro Conferências de Maio deste ano, organizadas pelo Centro de Reflexão Cristã, de Lisboa, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, enviou um curto depoimento sobre Aristides Sousa Mendes, o cônsul português que, em Bordéus, salvou milhares de judeus em fuga do nazismo, desobedecendo deliberadamente às ordens do ditador Salazar. Sousa Mendes, que por causa do seu gesto foi irradiado da carreira diplomática e ficou impedido de arranjar emprego, foi evocado no contexto do ciclo que recordou também Maria de Lourdes Pintasilgo, Manuela Silva e Alfredo Bruto da Costa, como quatro legados de “fé cristã, profecia e cidadania”. A propósito do Dia Mundial do Refugiado, que se assinala nesta terça-feira, 20, o 7MARGENS publica a seguir o depoimento de António Guterres.

Aristides de Sousa Mendes como era em 1939/40, Bordéus

 

É muito oportuna esta iniciativa do Centro de Reflexão Cristã de rememorar quatro figuras particularmente inspiradoras, entre as quais Aristides de Sousa Mendes.

Num contexto global marcado por crises complexas e interligadas, precisamos de bons exemplos, de hoje e de ontem – de exemplos que nos escorem na opção determinada e atuante pelo humanismo, pela solidariedade, pela concórdia, pelo valor da diversidade; e na igualmente determinada e atuante rejeição do ódio, da violência, da perseguição, da exclusão.

Aristides de Sousa Mendes é um exemplo notável dessa determinação e ação. Com a coragem da desobediência em face de um imperativo ético, e com a coragem de suportar as consequências que adviriam dessa desobediência, o então nosso cônsul em Bordéus procurou e logrou salvar milhares de vidas, quando confrontado com a barbárie do Holocausto e do extermínio deliberado de milhões de judeus.

Num cenário de completo desespero para tantos seres humanos, Aristides de Sousa Mendes permitiu-se devolver a esperança a quantos pôde. Vale a pena lembrar o que ele próprio escreveu em sua defesa, na contestação ao processo disciplinar que lhe foi movido: “era realmente meu objetivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível.”

Guardo a satisfação de ter estado associado, no decurso da minha vida política em Portugal, a ações que contribuíram para a reabilitação de Aristides de Sousa Mendes. Reconheço, contudo, que não temos sido capazes, enquanto humanidade, de prestar a homenagem que, por certo, mais o honraria – e aos muitos outros que agiram por não poder tolerar o sofrimento alheio. Essa homenagem seria a de evitar repetir cenários e circunstâncias em que a “aflição indescritível” de milhões de seres humanos é causada por ações e decisões de outros seres humanos.

Mais de 80 anos depois dos dias de junho de 1940 em que Aristides de Sousa Mendes concedeu vistos indiscriminadamente a quem deles precisava, vemo-nos confrontados de novo com vagas de refugiados nas mais diversas geografias – e, de novo, na Europa. A estes somam-se milhões de deslocados internos, que procuram fugir a conflitos ou às consequências da crise climática. E a estes, somam-se os milhões que, face à ausência de expetativas, se vêm compelidos a arriscar a vida para procurar a sobrevivência e um módico de esperança em países onde o desenvolvimento seja mais do que uma promessa.

Cabe-me a honra e responsabilidade de dirigir uma organização que procura consagrar, na sua ação, os bons exemplos que referi no início – e as Nações Unidas têm reiteradamente replicado e incrementado esses bons exemplos. Sendo as Nações Unidas a mais notável conceção do multilateralismo, e sendo crucial a sua ação no terreno e o seu papel de coordenação, tal não deve eximir-nos do nosso próprio papel enquanto seres humanos, enquanto cidadãos, mensagem que dirijo, sobretudo, às gerações mais jovens. Não pode haver um outsourcing da generosidade, do respeito pelo outro, da solidariedade. Cabe-nos ser determinados e atuantes, como Aristides de Sousa Mendes o foi, antes de nós, e como é cada vez mais necessário que cada um de nós seja.

 

António Guterres, março de 2023

 

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