
A única fotografia de Aristides de Sousa Mendes a rir. A Casa do Passal volta a ser um lugar feliz, depois da degradação e do abandono. Foto © António Marujo/7MARGENS.
É a única fotografia em que o cônsul aparece a sorrir, ao lado da mulher, Angelina, e de dois filhos. Ampliada, está agora na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato (Carregal do Sal). Foi essa a habitação da família de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus (França) que, entre Maio e Junho de 1940, passou vistos a pelo menos 3932 pessoas de 1542 famílias que fugiam da ocupação nazi de França.
Nesta sexta-feira, 19 de Julho, a Casa do Passal torna-se Museu Aristides de Sousa Mendes, numa cerimónia de inauguração que conta com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Estarão presentes na cerimónia também quase duas centenas de filhos, netos, bisnetos, trinetos e outros familiares de Aristides, bem como de descendentes de refugiados a quem o cônsul concedeu o visto que lhes permitia passar por Portugal a caminho de outras paragens mais seguras.
Depois de décadas ao abandono e a degradar-se, o edifício foi reabilitado num projecto que juntou a Fundação Aristides de Sousa Mendes e a autarquia de Carregal do Sal, com apoios de mecenas vários. Esse processo permite viver dois dias de festa, iniciados durante a tarde e a noite de quinta-feira, quando os familiares de Sousa Mendes e dos refugiados foram recebidos em Cabanas de Viriato e, depois, na sede do município, para diferentes actos de homenagem ao cônsul de Bordéus.
Um dos objectos que até domingo pode ser visto no Museu é o livro de registos do consulado de Bordéus, onde constam os averbamentos das famílias a quem Sousa Mendes foi concedendo vistos. O livro veio expressamente do arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros para estar exposto neste momento de inauguração.

Uma das páginas do livro de registo dos emolumentos do consulado de Bordéus, com os nomes das famílias a quem foram concedidos vistos. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Numa primeira visita do 7MARGENS ao Museu, enquanto alguns técnicos ultimam pormenores, podem ver-se álbuns de fotografias da família, objectos pessoais de Aristides, um berço que pertenceu à família e essa única foto em que o cônsul, sempre fotografado com ar sério, aparece a sorrir.
Descendentes de Sousa Mendes e dos refugiados juntos, 84 anos depois
O número real de pessoas salvas terá sido superior aos quatro mil registos existentes – há quem aponte 30 mil, mas esse número parece não ter consistência. Seja como for, sabe-se que maioria eram judeus, que vieram de 49 países (Polónia, Bélgica e França em primeiro lugar. Olivia Mattis, presidente da Sousa Mendes Foundation, afirmou na noite desta quinta-feira, num tributo ao cônsul, que o próprio não imaginaria que, 84 anos depois, muitos dos descendentes da sua própria família e dos refugiados salvos se encontrariam para a ocasião da inauguração do novo Museu.
Na sessão que decorreu à noite no Centro Cultural de Carregal do Sal, Mattis mostrou também os destinos conhecidos dos refugiados: em Portugal, a maior parte instalou-se no Porto, Figueira da Foz, Curia e região de Lisboa. Pontos de passagem, já que a seguir viajaram para os Estados Unidos (48%), Brasil Cuba, Reino Unido, Congo (Belga, nessa altura), Marrocos, Polónia, Moçambique e muitos outros países. “Alguns morreram no mar”, disse Olivia Mattis, referindo um episódio em que um barco onde seguiam também vários refugiados com visto de Aristides ter sido torpedeado pelos nazis alemães.

Chaves da Casa do Passal: abrem-se agora as portas de um lugar de memória. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Entre as pessoas salvas por Aristides, estão o pintor catalão Salvador Dalí e a sua mulher, Gala, o príncipe herdeiro da Áustria Otto von Habsburg, o financeiro Maurice de Rotschild, o príncipe Balduíno, da Bélgica, ou o actor norte-americano Robert Montgomery. Uma das famílias salvas, os belgas De Veleeschauwer, tinham já estado na Casa do Passal depois da morte do antigo cônsul (em 1954) onde foram fotografados com membros da família Sousa Mendes, num dos primeiros encontros entre familiares de ambos os lados.
Outro interveniente na sessão foi Robert Jacovitz, do Comité Internacional para a Comemoração de Aristides de Sousa Mendes, baseado nos Estados Unidos. Este responsável destacou o papel que o antigo congressista norte-americano de ascendência portuguesa, Tony Coelho, teve na reabilitação do cônsul, depois do 25 de Abril de 1974 – com a ajuda decisiva de Mário Soares que, enquanto Presidente da República, protagonizou os primeiros gestos de reparação à memória do cônsul que Salazar despediu de todas as suas funções públicas, forçando-o a viver na miséria e a recorrer à ajuda da Comunidade Israelita de Lisboa para comer e alimentar a família.

Fotografias do álbum de família, do Verão de 1940, já depois do episódio de Bordéus: dias ainda felizes, antes de Salazar obrigar Aristides à miséria e a mendigar. Foto © António Marujo/7MARGENS.
António Moncada Sousa Mendes recordaria, aliás, que na coluna de Salgueiro Maia que marchou sobre Lisboa para depor o regime fascista, estava também o soldado Francisco Fernando Sousa Mendes, descendente do cônsul. O “reencontro” entre a liberdade e Aristides, que traria, ainda que de forma lenta, o fim do castigo que a ditadura impusera ao homem que preferiu desobedecer ao ditador do que a Deus, como o próprio afirmou várias vezes.
Desobedecer a Salazar, escolher quem vive e quem morre
Católico assumido, foi em nome da sua consciência crente que Aristides decidiu conceder os vistos, desobedecendo expressamente às ordens de Salazar. Esse gesto levou o Papa Francisco, em 17 de Junho de 2020, a declarar que essa data passaria a ser o “Dia da Consciência, inspirado no testemunho do diplomata português Aristides de Sousa Mendes, que há 80 anos decidiu seguir a voz da consciência”, um dia “que marcará a história da humanidade.”
E em Outubro de 2021 Aristides foi homenageado com o descerramento de uma placa no Panteão Nacional. “Muitas vezes pergunto a mim próprio: o que é verdadeiramente certo? O que é verdadeiramente justo?”, ecoava a voz de Aristides representada numa curta encenação da associação cultural ContraCanto. “Os vistos, pedaços de papel”, mera formalidade burocrática para alguns, para outros “a fronteira entre a vida e a morte”. “E aqui estou eu, um homem comum, na posição de escolher quem vive e quem morre… Um poder que nenhum homem deveria ter.”

A Casa do Passal, residência da família do cônsul, que nesta sexta-feira se converte em Museu Aristides de Sousa Mendes. Foto © António Marujo/7MARGENS.
O programa das cerimónias desta sexta-feira inicia-se com a recepção dos convidados e do Presidente da República no jardim da Casa do Passal. Marcelo Rebelo de Sousa começará por visitar o Museu, preside à apresentação de um selo dos CTT e um prato comemorativo da Vista Alegre, antes do momento de inauguração propriamente dito, que inclui um momento musical com o Quarteto de Cordas da Orquestra Clássica do Centro.
Além de intervenções de representantes da família e dos refugiados, haverá uma mensagem gravada de António Guterres, Secretário-Geral da ONU (cuja presença chegou a estar prevista), antes do discurso de Marcelo. A tarde está guardada para visitas guiadas dos convidados ao Museu e um concerto com a Orquestra Clássica do Centro e os coros Essence Voices e Coimbra Vocal dirigidos pelo maestro Henrique Constância. A peça Aristides – O Concerto tem música de António Leal e Simon Wadsworth e letra de Sandra Leal.










